Quente e frio

Por Caetano Veloso
O GLOBO

Não posso deixar de registrar aqui meu mal-estar ao ler o minieditorial do GLOBO festejando a condenação de Rafael Braga Vieira.  É no mínimo motivo para perguntas óbvias o fato de ser um preto sem-teto o primeiro condenado (a 5 anos em regime fechado) das manifestações de junho no Rio. Não julgo a decisão judicial, mas o contraste perfeito com a autodefinição dos Racionais MCs, “contrariando a estatística”, grita por si. Rafael está antes confirmando a estatística. Quando toda a imprensa celebra as penas do mensalão — que mostram aos brasileiros que engravatados também podem ser presos — a única condenação por ação perigosa nas ruas de junho ser a de um preto pobre parece piada macabra. {MAIS SOBRE O CASO: AQUI}.

Ver “Azul é a cor mais quente” no Leblon 2 teve um gosto de quando a gente via filmes franceses no cinema e os achava muito melhores do que os americanos. Nessa época, ouvi, em momento adequado, o comentário de um amigo poeta: “cinema é uma abreviatura de cinema americano” (Isso está em “O cinema falado”.) Ele comentava com humor e liberdade sua despreocupação com o cinema como arte de altas pretensões e, ao mesmo tempo, explicava o renascimento crítico de Hollywood (justamente exercido na França da “Cahiers du Cinéma”, de Truffaut, Godard e cia.) e do reconhecimento estético do pop-rock (“um folclore urbano e internacional”). Mas ter respirado ares europeus (de Bergman a Godard, de Buñuel a Fellini) tinha contribuído para que nós outros, amantes do cinema como forma artística, tivéssemos chegado a entender poetas como ele.

Pois bem, o filme de Abdellatif Kechiche faz a gente gostar de filme francês artístico como na primeira metade dos anos 1960. Dá para ver qualidade e sentir interesse em áreas consideravelmente distantes de Hollywood. O filme dura três horas e não tem vazios de concentração. As cenas de sexo são detalhistas e excitantes, oscilando entre o cinema pornô e “Carne trêmula” ou “A Última Ceia”, mas realmente parecendo ser algo um milímetro além de tudo isso. Lembro que em “A Última Ceia” a gente ficava entediado com a cena de sexo. Aqui, apesar de as três principais sequências de transa parecerem clipes, como em geral acontece (com pouca clareza quanto ao crescendo do prazer: quem leva quem a o quê, como etc., a montagem — hoje sempre chamada de “edição” — sendo menos narrativa do que eu exigiria), elas, as cenas, não parecem parar o filme e, mais importante, não o deixam menos quente quando desaparecem.

Não que nos sintamos aliviados (eu amei tanto Adèle, que eu não conhecia, quanto Léa, que eu já adorava da Paris de Woody Allen: não tive nem um segundo de enfado com o sexo entre elas, ao contrário!, mesmo que percebesse alguns clichês e algum esteticismo postiço), mas o interesse não cai quando vamos para a escola onde a moça, agora adulta, ensina, ou para as conversas sobre artistas que sua amante pintora entretém com seus amigos, deixando Adèle meio de fora. Aliás, antes de elas transarem, a conversa sobre Sartre surge para coroar meu devaneio de volta à juventude: tudo muito bem lembrado, e dito — como o mais nesse filme — de modo extraordinariamente espontâneo pelas atrizes. Boa fala sobre Francis Ponge (quem o lembra hoje?). Pena serem inconvincentes a arte de Emma e o retrato do mercado de arte. Divino que Léa lembre Cássia Eller.

O que arrebentou com a graça do filme e fez de suas três horas um suplício paralelo foi a temperatura do Cine Leblon. Quem regula esses aparelhos de ar-condicionado cafonas dos cinemas? Na saída, com os pés gelados e o lábio partido, falei com o funcionário que observava a saída dos espectadores, pedindo a ele que levasse minha queixa a alguém responsável pela gerência do cinema. Ele assentia com cara de quem diz “okay, velho chato, acaba logo de falar, não vou dizer nada a ninguém!”. Mas sei que ele vai falar. Ao contar a colegas que alguém foi tão chato, ele levará a mensagem e a palavra circulará. Precisamos deixar de ser tão bregas. E, a sério, é um risco para a saúde. É um horror social. Vejo a complacência com que milhares de pessoas vão ao cinema de casaco em pleno verão e respeitam o quanto-mais-frio-melhor, contribuir para o caldo de cultura que, no limite, leva O GLOBO a saudar, sem segundos pensamentos, a prisão de Rafael Braga Vieira. Um articulista de direita disse que sou de esquerda. Ri. Amigos meus chiam de minhas inclinações liberais em economia, minhas reticências sobre as cotas, meu ceticismo quanto à fantasia brasileira de que “o governo” deve resolver tudo na nossa vida. Fiquei com a garganta mal por causa do ar do cinema. Falo de raivas nascidas de fatos mínimos que apontam para males maiores.

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