Queremos tanto a Amanda

Por Adriano de Sousa
NO NOVO JORNAL

TODOS NÓS AMAMOS Amanda – e a
amaremos sem reservas pelos próximos
15 minutos. Ou até que outra
bolha de celebridade eleve-se
no céu frio de junho e capture nosso
olhar de indivíduos socialmente
culpados, impotentes para organizar
e realizar um projeto de país
baseado na educação.

Amamos na voz de Amanda o
timbre doce de água, a polir os seixos,
arredondando as palavras ásperas
para que entrem sem bater,
entrem sem doer em nossos
tímpanos.

Amamos a emissão mansa de
professorinha, de mãe que ralha
com doçura, quase se desculpando
por lembrar-nos de nossas faltas
infantis.

Amamos na beleza tímida de
Amanda os cachos de negra ancestral,
os traços mestiços que a aproximam
de qualquer um petiguara
acaboclado na roleta da genética,
e que facilitam a identifi cação
conosco e multiplicam o poder de
convencimento de suas palavras.

Amamos o seu despojamento
metafórico – o desnudar-se em público
que ela iniciou ao revelar sua
rotina de professora autoexilada da
sala de aula, e que se completa com
a onipresença na mídia, bombando
a audiência dos 7 minutos mais
famosos na versão aldeã da feira de
vaidades das redes sociais.

Amamos em Amanda o que
essa nudez evoca – a memória de
pulsões adolescentes recalcadas
no imaginário coletivo e endereçadas
à multidão de mestras do erotismo
fantasiado, de musas do prazer
solitário, com suas saias curtas,
suas calças justas, suas blusas
decotadas.

Amamos nessa projeção retrospectiva
a professora de geografi
a que sentava na quina da mesa,
as pernas entreabertas, o capô de
fusca atropelando os rapazes da
primeira fi la.

A de educação física que se esfregava
nas meninas enquanto corrigia-
lhes a postura nos exercícios.

A de português que só usava
roupa branca, de tecidos translúcidos,
a insinuar formas e possibilidades
do desejo.

Amamos no discurso de Amanda
o subtexto purgativo, o seu valor
intangível como moeda de catarse
coletiva.

E agora que cumulamos Amanda
de tanto amor;

agora que a devoramos no banquete
pantagruélico onde entretenimento
descartável e informação
relevante são a mesma gororoba
informe;

agora que escaneamos a alma
e a vida de Amanda, escrutinando
suas razões, motivações e emoções;

agora que acrescentamos ideologia,
projetamos fantasia e agregamos
riqueza simbólica às suas frases
duras;

agora que emprestamos transcendência
de revelação divina aos
lugares-comuns desfi ados diariamente
por tantas outras amandas
sem platéia;

agora que desjejuamos, almoçamos
e lanchamos, jantamos e ceamos
a professora;

agora que dormimos e acordamos
em estado de Amanda, podemos
dizer que a deciframos?
Sabemos quem é, o que quer e
aonde vai Amanda?

Ela é um fato crucial, capaz de
gerar refl exões e ações, ou é só outro
factóide passageiro – um item
a mais no estoque de irrelevâncias
que nutrem nossa incapacidade
de distinguir o acessório do
essencial?

Amanda vai prosseguir na
doce vida de celebridade ou vai
dar conseqüência prática ao seu
discurso transformador?

Vai posar nua para a Playboy
ou vai continuar a desnudar nossa
incapacidade de melhorar a escola
pública?

Vai ser mais do Faustão ou
mais da educação?

Vai voltar à sala de aula, para
trabalhar para mudar por dentro o
que parece imutável, ou vai se eleger
presidente do Sindicato dos
Trabalhadores na Educação, apostando
na “via institucional”?

Vai renovar de verdade o movimento
engessado pelo aparelhamento
partidário ou vai simplesmente
mudar a cor do gesso?

Vai se candidatar a vereadora
ou a prefeita, dando ao PSTU o
fôlego eleitoral que nunca teve, ou

vai resistir à mosca azul da política,
quebrando a tradição fi rmada
por amandas e amandos hoje
aposentados?

Vai sumir na poeira da virtualidade
ou continuará a cricrilar
em nossas consciências já anestesiadas
pela banalização dos grilos
falantes?

Afi nal, deciframos mesmo a
Amanda ou foi ela que, tendo nos
decifrado previamente, nos devorou,
e agora rumina entre risos os
restos da nossa perplexidade?

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. edjane linhares 23 de junho de 2011 12:27

    O por quê da revolta (copiei do blog de Sérgio Vilar):

  2. Jarbas Martins 26 de maio de 2011 9:41

    E tudo deu certo.O título do texto de Adriano (“Queremos tanto a Amanda”) que soa, na memória, como uma canção musical perdida.O olhar e os sete sentidos antenados de Adriano.Duro,meigo,mestiço.Bonito até demais.O poema de Adriano é mais bonito que Amanda.Transformou-se o amador na coisa amada.

  3. Elayne Cristinne 24 de maio de 2011 21:27

    Não vejo nenhuma novidade na fala da colega de profissão a profª Amanda Gurgel, ela não relatou nada mais, nada menos que a dura realidade vivida pelos professores nas escolas públicas do Brasil e particularmente no nosso estado e município. Fico pasma na verdade, é com aquela mesa tão bem representada por todas aqueles autoridades, especialistas, mestres doutores, preocupados em culpar o professor pelo caos na educação, que em seus discursos ficaram “dourando a pílula”, botando “panos quentes”, tapando o “sol com a peneira” (para justificar o total descaso), quando na verdade, sabemos que absolutamente nada será feito em prol de uma educação de qualidade em nosso país, quiça no nosso estado.
    Parabéns PROFESSORA Amanda Gurgel, pela sua coragem, não em falar tudo que falou, mas em continuar acreditando no que faz apesar das diversidades.
    Não se sinta incomodada com as sugestões de alguns poucos ignorantes que dizem para você mudar de ofício, talvez eles queiram que você seja nas próximas eleições candidata a algum cargo político, afinal para algumas profissões não é necesssário estudar, passar no vestibular, dedicar horas de estudo, ser aprovado em concurso público, acordar cedo, pegar ônibus lotado…

  4. João da Mata 24 de maio de 2011 13:18

    Desconcerto em Dó sustenido maior para dia de chuva

    1- Amanda Gurgel e o salário de três dígitos é um retrato fiel de quanto ganha um professor no Brasil . O salário base de um professor 20 horas numa universidade estadual, particular ou federal não é muito diferente.
    2- Professor bom é professor em sala de aula. A maior revolução, acredito, é dentro da sala de aula. Reivindicar é importante, mas ministrar uma boa aula e atualizar-se é mais s importante ainda. A desmotivação dos professores na prefeitura e no estado é grande, com um grande remanejamento de professores de suas atividades em sala de aula. O SALÁRIO EM SI NÃO MELHORA A EDUCAÇÃO.
    3- Greve do transporte público. Escuta! O transporte em Natal não é um dos mais caros do Brasil e outro dia não teve aumento? Aumentaram para R$ 2,00 arredondando para cima. Depois R$ 2,20. E ainda querem mais. Humm!. Sei não. Sou contra até que me justifiquem. .
    4- As ruas estão todas alagadas e esburacadas. A cidade está um caos completo. O TSUNAMI Micarla é devastador.
    5- A prefeitura continua burocrática e inoperante. Paguei uma taxa no banco e fui pegar o documento. Não pude receber porque não levei o boleto de pagamento. Escuta! E quando a gente paga uma conta não vai a comprovação para a prefeitura.
    6- Um mês de um recibo extraviado da COSERN teve como conseqüência cortar minha luz. Para religar mais de sessenta reais. Que estado é esse? Onde estão nossos direitos?
    7- A cidade de Natal está intransitável e proibida de se morar. Só não avisaram aos seus moradores que pagam contas de iluminação publicas sem iluminação. IPTUs altíssimos para nada. Praias poluídas. Bichos mortos nas vias de pedestres.

  5. Edjane Linhares 24 de maio de 2011 12:07

    Eit’Adriano arretado!

    Será que reiniciaremos o sistema no Brasil através do movimento 10% do PIB para a educação? Fiquei pensando no que podemos fazer nesse sentido. Se um dos problemas é a lei de responsabilidade fiscal, por que não iniciarmos a campanha FORA MORDOMIA em todas as esferas do governo, começando em ‘nossa’ Casa Maior (Brasília)? O político que não concordar em renunciar TODAS as vantagens pessoais (inclusive a de votar o aumento de seu próprio salário) terá o seu nome divulgado na mídia e boicotado nas próximas eleições.

    P.S. Fiquei curiosa em saber onde foi parar o dinheiro arrecadado na votação sobre o discurso de Amanda no Faustão.

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