Queria reler Vaqueiros e Cantadores, de Câmara Cascudo, mas fui obrigado a ouvir Jorge de Altinho

O relógio marcava 00h08 deste sábado, no fim de semana imprensado ao feriado de Tiradentes.

Eu seguia acordado por uma dose de cafeína tomada três horas antes.

Aqui ao lado, na TV Cabugi, afiliada da Rede Globo em Natal, um sujeito castigava o gogó e o violão em baladas, xotes e forrós, em ritmo lento, cadenciado, ao gosto dos quinze, vinte indivíduos contabilizados numa rápida mirada.

Vez ou outra, sua voz declinava, como se pescasse num cochilo e a restabelecesse ligeiro.

“Eu tenho um segredo menina cá dentro do peito que a noite passada quase que sem jeito vendo a madrugada eu ia revelar”, ressoou em um momento mais animado.

Jorge de Altinho parecia estar dentro de minha casa, se é que você me entende.

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Sertanejo da Civilização do Couro desenvolveu cantoria e literatura de cordel, sobretudo na Serra do Teixeira (PB) e no Vale do Pajeú (PE)

Mas sabe como é que é, canal de televisão poderoso, madrugada no começo, quem danado vai bater na porta da tevê dos Alves para pedir silêncio?

“Uma hora acaba”, pensamos nós, infelizes vizinhos.

Tentar frear esse tipo de zoada é como tentar parar um meme nas redes sociais.

Impossível.

O jeito é se acostumar.

Deve ter sido mais ou menos o que Luís da Câmara Cascudo fez ao perceber a mudança na dinâmica social interiorana, cerca de 80 anos atrás, na escritura de Vaqueiros e Cantadores.

Eu tentava reler meus grifos, para direcionar este rascunho, enquanto o som comia solto lá embaixo.

Câmara Cascudo falava de um tempo em que se gastavam seis dias para ir de Natal a Caicó.

Uma época de estradas abertas na pedra lascada do Agreste e do Sertão, em que a luz elétrica, o rádio, o cinema e bebidas geladas aproximavam interior e litoral.

Isso trouxe diversos benefícios, é inegável.

Da mesma forma, a balbúrdia moral e administrativa, a falta de planejamento endêmica no Brasil puxaram malefícios no pacote desenvolvimentista.

A supressão de certas culturas nativas pela avalanche de produtos para consumo imediato veio com tudo.

A cantoria e a literatura de cordel foram duas delas.

Duas artes, hoje, mal compreendidas, quase restritas à academia e colecionadores.

Moro no epicentro das obras faraônicas para a Copa do Mundo.

Até outro dia, um lugar tranquilo, com ares bucólicos, nos finais de semana.

Agora preciso negociar para sair de casa, nos horários de pico, após a transformação de minha rua de bairro em uma avenida movimentada – para piorar, meu prédio fica na parte mais estreita da Autobahn Raimundo Chaves, vítima da malandragem de invasores de terrenos públicos.

Neste dia 23 de abril, selecionado como o Dia do Livro, registro as inúmeras dificuldades impostas a este obscuro objeto de desejo – preços elevados; raras publicações, a depender do tema; barulhos e mais barulhos durante a leitura; e por aí vai.

E escolho um título de assunto tão específico para buscar entender a raridade e relevância do mesmo.

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Ordenamento e métrica são fundamentais na cantoria; quem erra, “apanha”, sai humilhado, com reputação manchada e sem dinheiro

O desafio

Li Vaqueiros e Cantadores, pela primeira vez, de uma tirada só, tamanha a riqueza de informações históricas e técnicas sobre a cultura poética do nordeste brasileiro.

Publicado em 1939, foi tratado por Mário de Andrade como o ponto de partida para as obras clássicas cascudianas.

“É um dos livros indispensáveis em nossa literatura folclórica”, escreveu o paulistano no Diário de Notícias, edição de 11 de fevereiro de 1940.

O amigo distante e influente seria duro com oito passagens do livro, ao sugerir erros em dados e afirmações.

As principais recairiam sobre a tendência “perigosa” de o potiguar utilizar em demasia os fatores raça e geografia e mencionar a pobreza melódica e de efeitos musicais da cantoria – Mário de Andrade priorizava a psicologia individual e as exigências sociais para decretar semelhanças entre os homens daqui e do além-mar.

Depois, em artigo veiculado n’O Estado de São Paulo (“O desafio brasileiro”; 23/11/1941), o pai de Macunaíma refutaria a proposta de Câmara Cascudo sobre o desafio ser um fenômeno típico do Brasil, sem correlação com as tradições africanas trazidas pelos escravos.

Cita inúmeros exploradores e viajantes para garantir que existia, sim, a improvisação textual, a batalha poética entre cantadores na África e bascos europeus – toma emprestado estudos de Roger Bastide, André Gide, Newman White e Geoffrey Gorer.

Nada que desmereça as virtudes de Vaqueiros e Cantadores, vale a pena dizer.

A sentença é do próprio Mário:

Vaqueiros e cantadores.Enrico Bianco_Retrato Mário de Andrade _Divulgação
Mário de Andrade apontou oito ‘falhas’ em Vaqueiros e Cantadores

“Para compensar tão diminuto número de afirmações discutíveis, o livro é de uma excelente riqueza de verdades, de documentos importantes, notas críticas e indicações hábeis”.

Dentre as ‘verdades’, está a honestidade do intelectual potiguar em assumir desconhecimento sobre a origem da vaquejada, esta, sim, cultura típica nordestina – ele aponta que as touradas foram trazidas pelos portugueses no século XVIII, sem sucesso por estas bandas.

Na cultura do gado, surgiu o sentido de riqueza e força social do sertanejo, ser vivente de uma aridez intimidante, cuja diversão era estar numa fazenda para ver a desenvoltura de cantadores.

Sem necessitar de tantos trabalhadores como na lavoura, a pecuária permitia distrações líricas, focadas em temas caros, como bois, vacas, onças e veados.

Bastou o fim do Civilização do Couro, para a natureza perder protagonismo nas poesias e abrir espaço para o homem e suas paixões.

Chega a vez da valentia, da coragem, embaladas pelo cangaço.

Toda cultura enaltece seus vilões, os foras-da-lei.

Para Cascudo, Padre Cícero nunca melhorou o nível moral do povo, mas merecia loas em verso e prosa, sem ataque algum a sua índole.

Vaqueiros e cantadores
Publicado em 1939, livro virou um clássico nos estudos da música brasileira, com detalhamento da dinâmica da cantoria, pequenas biografias e dados históricos

Isso me fez lembrar o rap atual, em que a proximidade dos artistas com a marginália é suavizada nas letras tão virulentas contra o status quo.

Naquele nordeste de então, 30 anos de vitórias, de ‘pisas’ nos oponentes de cantoria, escorriam pela bota em questão de segundos, caso uma engasgada saísse em público.

A fama do coqueiro Chico Antônio, caboclo com ares místicos e hollywoodianos, era de ‘dar’ em quem o desafiava.

Se fosse preciso, o analfabeto cantaria horas de poemas de melodias monótonas, sem tons graves, sem errar uma sílaba.

Nota-se que o desafino é irrelevante na cantoria ou no coco de embolada.

O timbre áspero da voz enfatiza a agressividade do desafio, do corpo a corpo.

Já a arritmia, deforma o ar declamatório característico.

Pois o ritmo, a rima e a métrica são a base da cantoria, encaixada em fatores extralinguísticos, em vez de apenas conteúdo e melodia.

O tema engatilhado pode ser improvisado, mas as armas, ou seja, um martelo-de-dez-pés, um martelo agalopado, a carretilha, a sextilha ou a parcela têm ordenamentos obrigatórios.

É segui-los ou passar vergonha.

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Artistas medievais exploravam praças e feiras publicas com sua música; tradição cruzou o Atlântico e ganhou novos contornos nos trópicos com a mescla das culturas indígenas e africanas

Bardos, menestréis e trovadores

Ao contrário de gêneros mais palatáveis no cardápio contemporâneo, a cantoria (ou repente) põe a palavra adiante da sonoridade instrumental – só o blues ‘roots’ tem algo similar.

Concentrada em cidades da Serra do Teixeira, na Paraíba, e no Vale do Rio Pajeú, em Pernambuco, a tradição floresceu entre o final do século XVIII e começo do XIX.

Cascudo pergunta quem são os cantadores.

E fala em descendentes dos aedos gregos, dos rapsodos helenos, dos bardos armoricanos, dos menestréis e trovadores da Idade Média.

Eram pequenos plantadores, mendigos, cegos, aleijados, que caminhavam léguas à procura de um adversário – cantadores são desafiantes e parceiros, ao mesmo tempo.

Um depende do outro para a coisa funcionar em público.

A história do desafio entre Inácio da Catingueira e Romano de Teixeira, em 1870, na feira livre de Patos-PB, é emblemática dessa rivalidade simbiótica.

Corre a lenda de que foram necessários três dias e três noites, à base de cachaça e dinheiro apostado, para um dos dois sucumbir ao cansaço – o vitorioso foi Inácio, considerado o maior cantador negro de todos os tempos.

Duelava-se pelo orgulho de dominar as palavras, vejam só.

Ou para ganhar a liberdade, como Fabião das Queimadas, o escravo ignóbil cuja alforria foi comprada com dinheiro levantado em apresentações em feiras livres e nos salões nobres de Natal, na virada do século XX.

Seu Romance do boi na mão de pau está todinho lá no livro de Câmara Cascudo.

Se o Sertão adaptou histórias de colonos portugueses e espanhóis, originadas do mundo árabe, rico em lendas, seres fantásticos e bravura, Vaqueiros e Cantadores nos obriga a pensar em novos formatos para revivermos essa herança cultural ainda presente em recantos do Rio Grande do Norte.

Cantoria e literatura de cordel deveriam ser obrigatórios como instrumentos de ensino em diversas disciplinas escolares, tanto na rede publica, quanto na particular.

P.S. O show canhestro aqui ao lado terminou uma hora da manhã.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ View all posts ]

Comentários

There are 4 comments for this article
  1. Virgo Aurora 23 de Abril de 2016 21:09

    fiquei uma pessoa melhor depois de ler esse texto!

  2. Odára 25 de Abril de 2016 12:07

    Fiquei com vontade de ler o livro do Cascudo! Gostei muito da prosa e poesia de seu texto! 🙂

  3. Conrado Carlos 25 de Abril de 2016 16:59

    Odara, o livro é importante pra caramba. Vale o investimento. Abraço!

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