A questão do apocalipse

Por Joca Reiners Terron
BLOG DA COMPANHIA

A ideia de apocalipse se insinuou em minha imaginação ainda na infância, ao ler histórias em quadrinhos da revista Métal Hurlant. Naquele tempo, o apocalipse chegava acompanhado de fogos de artifício, era espetacular, inclusive desejável (eu tinha muito tempo para dedicar à leitura de gibis e livros cujas tramas quase sempre tinham algo de apocalípticas — a explosão da Terra, fuga do planeta, a colonização de outras galáxias, viagens no tempo), e o apocalipse passou a ser também uma ideia de diversão.

Uma tarde, creio que em algum artigo da mesma Métal Hurlant, li um fragmento de entrevista com um autor regular da revista, não recordo se Druillet ou Dionnet, em que o entrevistado sugeria que na realidade talvez o apocalipse fosse algo bastante diferente da visão veiculada pelos quadrinhos e pelas histórias de ficção científica, e que muito provavelmente não haveria nada de fabuloso nele, não passando de um evento cinzento, sem brilho nem luzes, e que talvez nem o notássemos.

O apocalipse adquiriu para mim uma dimensão inquietante: de repente já o vivíamos e, quem sabe, entre as aulas de Organização Social e Política Brasileira e Educação Religiosa, ele tivesse se instalado sorrateiramente, correndo livre sob as manhãs de sol do mundo sem que ninguém lhe prestasse a mínima atenção — sendo assim, o apocalipse talvez já tivesse começado, mas ninguém dava por isso —, meu pai continuava a ir para o banco trabalhar, minha mãe preparava o almoço e a janta todos os dias, meu irmão andava de bicicleta e enchia o saco, enquanto eu pensava no apocalipse.

Na adolescência, descobri que havia coisas piores que o apocalipse, a falta de namorada e de afinidade com tudo em volta, ou ser desclassificado na semifinal do campeonato regional de voleibol após treinar quatro horas diárias por um ano inteiro. Esses fatos podiam ser apreendidos muito mais urgentemente que o apocalipse, logo notei, pois doíam pra burro como toda coisa imediata e cabal. Tudo o que o apocalipse e suas infinitas prorrogações não eram.

Depois disso, meus apocalipses particulares se tornaram frequentes, quase diários, e nunca deixei de compreendê-los como parte daquilo que Druillet ou Bilal (ou teria sido Moebius?) dissera: cada derrotazinha pessoal não deixava de ser um episódio do apocalipse sem efeitos especiais e desprovido de charme da realidade cotidiana, cenas dos próximos capítulos de uma vida que seguia.

Então as dificuldades da existência adulta se tornaram evidências de que até São João se equivocou: o santo evangelista, autor do “Apocalipse” original, último texto do Novo Testamento, parece ter sido o próprio responsável pela ideia de juízo final mais parecida a um show de tango para turista ver no bairro de San Telmo, com globos iluminados, luz estroboscópica, melodrama e lágrimas fingidas, imagem apropriada bem depois pelas distopias literárias, pelos quadrinhos e o cinema.

No entanto, o apocalipse sugerido pelos autores da Métal Hurlant continuou, descolorido e impiedoso, atingindo seu auge na virada do século: aos 32 anos eu não considerava que a situação poderia piorar. Não bastasse o fato de estar ficando careca, agora o apocalipse prometia destruir meu mundo pessoal, acabando com revistas e jornais: os arautos da extinção do livro impresso soaram suas trombetas. Eu também era pai, o que costuma acelerar o fim.

Daí a começar a faltar fôlego na subida foi um pulo, e a não conseguir mais correr atrás de ônibus, a enxergar cada vez menos, a perder amigos (dois suicídios, um acidente de carro, um desentendimento, duas overdoses), a não ter mais tempo. E então cheguei à metade do caminho desta vida.

Economize o antidepressivo, caro leitor: aos 47 do primeiro tempo, enfim percebi que nossa compreensão do tempo é realmente falha, e não houve um só instante de minha existência — e da sua, caso tenha nascido após a Primeira Guerra Mundial —, desde os mais felizes e insubstituíveis, dos nascimentos e celebrações, das vitórias e leituras, que não tenha sido parte da marcha incessante em direção à aniquilação total e irrestrita deste planeta e dos seus habitantes, aniquilação cujo simples prelúdio foi o século 20 e que a grande literatura — a do século passado, mas também a de Roberto Bolaño, W.G. Sebald e László Krasznahorkai, e a de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Bernardo Carvalho — não cessa de testemunhar. A partir de então, nunca houve literatura que não fosse de testemunho, e não há outro tema possível senão o apocalipse.

Agora podem trazer os fogos de artifício.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua e Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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