A questão do controle

Por Joca Reiners Terron
BLOG DA COMPANHIA

Este foi o ano do centenário de William S. Burroughs (1914-1997), embora a efeméride pouco tenha repercutido no Brasil, na exata proporção em que sua obra mal é difundida e reconhecida entre nós. De sua vasta bibliografia, foram traduzidos apenas Junky, Almoço Nu, Cartas do Yage (com Allen Ginsberg), Cidades da Noite Escarlate, O Gato por Dentro e Os Hipopótamos foram Cozidos em seus Tanques (com Jack Kerouac).

Mas ninguém deve ser recriminado pelo lapso, pois a produção do escritor norte-americano é informe, no sentido de que lhe falta aparência reconhecível que satisfaça a maioria dos editores e o leitor tradicional (sempre tão afeitos ao familiar), resultando em leituras descontínuas e difíceis. Remetendo às cenas do Coiote com focinho chamuscado nos desenhos do Papa-Léguas, os livros de WSB são experimentos artísticos que invariavelmente explodem na cara do leitor, mas o fato de explodirem significa que o experimento deu certo, não o contrário.

Os textos de Burroughs não chegam a ser contos, nem poemas, e seus romances se estruturam (não creio que o termo se aplique ao resultado final) sobre uma alta frequência de justaposições. Almoço Nu, por exemplo, foi escrito em cartas enviadas a Ginsberg quando Burroughs vivia em Tânger nos anos 50, e batizado por Kerouac, suscitando anos depois em Martin Amis a crítica burlona de que WSB não passava de “um autor de bons trechos” (ou de boas passagens). De parágrafo a parágrafo de Almoço Nu, o leitor (como se o lesse sentado em um touro mecânico) quica dos antros de Interzona ao espaço sideral com uma mera quebra de linha.

(“Um escritor só consegue escrever sobre uma única coisa: aquilo que se apresenta aos seus sentidos no momento da escrita… Sou um instrumento de registro… Não tenho intenção alguma de impor ‘história’ ‘enredo’ ‘continuidade’… Na medida em que for bem-sucedido no registro Direto de certas áreas do processo psíquico, ainda posso desempenhar alguma função limitada… Não estou aqui para oferecer entretenimento…”, Almoço Nu, pg. 227, trad. Daniel Pellizzari.)

A paranoia junky de Burroughs e suas leituras de filosofia aliadas às ficções baratas que devorou em revistas pulp, mais dois anos de estudos de medicina em Viena o levaram a criar (assim que conseguiu se livrar da heroína) uma literatura de alta voltagem política e satírica: WSB compreendia a linguagem como um mecanismo de controle, desconfiava dela (Nietzsche embebido em morfina), e com sua técnica de colagem e montagem (o cut-up aprendido com Brion Gysin), para além de procurar desmontar essa bomba, inventou uma realidade.

(“Para viajar no espaço temos que deixar para trás o velho lixo verbal: Deus, pátria, família, amor, partido. Liberar-se por completo do condicionamento do passado é estar no espaço”, WSB.)

Daí que a forma literária em Burroughs se dá melhor com a miscelânea, pois seus romances se assemelham a panfletos anárquicos com ritmo e compasso ditados pelo combate ao inimigo (os fascistas, os comunistas, a direita, a esquerda, a mulher, o homem, o gay, o hétero, Deus e o Diabo, aliens e terráqueos, os viciados, os traficantes, a polícia, os bandidos). Algumas dessas melhores antologias (The Job, The Burroughs File, The Adding Machine) devem ser lidas como manuais de guerrilha escritos com “uma voz dura, zombeteira, inventiva, livre, cômica, grave, poética, inequivocamente americana, uma voz na qual é possível ouvir rádios transistorizados e filmes antigos e todos os clichês e todas as teorias conspiratórias e todos os jornais, um otimismo todo peculiar, o fracasso completo”, segundo Joan Didion.

(“Reparem no estado de coisas — investiguem do estado até o autor — Quem monopolizou o Amor, o Sexo e o Sonho? — Quem tirou o que é de vocês? — Alguma vez eles deram alguma coisa a troco de nada? — Não voltaram a se apossar daquilo que haviam dado a cada vez que foi possível e sempre o foi? — Ouçam: o Jardim das Delícias que lhes prometem é uma cloaca”, WSB.)

Grande admirador de Burroughs, J.G. Ballard afirmou que “ele via o mundo como uma perigosa conspiração dos grandes conglomerados de mídia, dos grandes establishments políticos de sua época, da medicina corrupta, na qual enxergava uma grande conspiração. Ele compreendia a maioria das profissões, a jurídica em particular, mas também a submissão da lei, tudo fazendo parte de uma enorme conspiração para nos manter sob controle, para nos manter para baixo. E os livros dele são uma tentativa de explodir com essa cômoda conspiração, de permitir que vejamos o que está na ponta do garfo.”

A propósito, um de seus ensaios mais provocadores se chama Control (está em The Job) e procura compreender como a antiga civilização Maia através de sacerdotes utilizou seu calendário como um eficaz método de manipulação das castas agrárias da sociedade utilizando-se de policiamento mínimo. Por meio da comparação da psicologia pavloviana com os métodos da Mente Reativa postulados por L. Ron Hubbard, o criador da Cientologia, WSB promove um arrazoado contra esta religião, além de estender os fundamentos do controle exercidos pelo calendário maia para a atualidade das grandes corporações midiáticas dos anos 70, onde os períodos cíclicos de colheitas e festivais maias (“Todos os sistemas de controle se baseiam no binômio castigo-recompensa”) são substituídos pelo complexo sistema de emissão de notícias ou ordens subliminares (“Do ponto de vista de um sistema de controle, a finalidade destas ordens é limitar e confinar”) compreendidos pelo jogo de mostra-esconde do processo editorial dos jornais e da publicidade.

Não é difícil imaginar para que alvo Burroughs apontaria seu rifle, se vivo fosse nos dias de hoje: com a derrocada de circulação da imprensa tradicional, o sistema de controle se transfere para novos setores mais aptos a praticar o jogo de castigo-recompensa, a internet e suas mídias sociais como forma de reclusão espacial e cadeias de previsibilidade, enquanto simultaneamente disfarça-se sob a promessa de liberdade temporal (pois, afinal, o computador pessoal é um aparelho que reúne em si ferramentas de trabalho e dispositivos de entretenimento, como professou Nicholas Negroponte).

Tomada por sua paranoia, a obra de William S. Burroughs é oracular. Nela, demonstrou que a pandemia da droga não é um problema policial, mas de saúde, e a Álgebra da Necessidade (outro de seus conceitos essenciais) que promove seu uso desenfreado é a mesma que nos conduz pelos caminhos do vício generalizado: em trabalho, informação, consumo, sexo e poder. A droga estaria no centro político de toda a sociedade, sendo o núcleo do verdadeiro sistema que controla este mundo. Nos anos 50, ao viver no caótico México, WSB percebeu a farsa social do American Way of Life. Lá, permaneceu encarcerado apenas 14 dias após meter uma bala no cérebro de sua mulher, Joan Vollmer. Para perceber como sua visão é acertada, basta-nos observar o papel aparentemente inextricável que Estado, políticos, polícia e narcotraficantes cumprem nos 43 assassinatos dos estudantes de Ayotzinapa em setembro de 2014.

(“Depois de uma só olhada neste planeta, qualquer visitante do espaço sideral diria: QUERO FALAR COM O GERENTE”, WSB.)

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua e Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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