Quinta-feira

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Hoje é quinta-feira, dia em que entrego esta coluna.

Tudo o que eu disser estará emudecido pelo silêncio que há em mim diante do que eu vejo na tela da TV.

Na cor de cada pele, no ser de cada pessoa, no jeito com que o inominável se expressa nelas em cada poro. Ouço Guingas em cada voz de cada homem do povo. Tudo grita meu amado Rio de Janeiro. Quando eu soube da notícia, por alto, dita por alguém, detestei a sensação de que a imitação de um certo estilo norte-americano de ser, com seu preço armamentista e seu show macabro de assassinato suicida em escola, tivesse feito a sua primeira aparição entre nós. Imagino que essa seja quase a reação padrão. É cruel a ideia de que estamos iniciados nesse mal, que tenhamos que vir a suportar esse modelo de comportamento criminal, e detestável ainda a ideia de que seja de segunda mão.

Leio que o criminoso levava uma vida solitária, sempre na internet, e que, segundo parentes, falava em “muçulmanos”. Passo a imaginar agora uma confusão louca, bem brasileira, de tiros em Columbine com homembomba islâmico, tudo sem a espessura do capitalismo de ponta rombuda nem a dos fundamentos dogmáticos da guerra santa.

Agora vejo o rosto de Wellington Menezes de Oliveira, leio a carta suicida, e a personagem vai ganhando uma figura de literatura russa do subúrbio, de “pobre diabo” maluco dostoievskiano do Realengo, com todos os componentes subterrâneos de terrorismo, niilismo e a tortura infligida à criança como o índice supremo do mal universal.

Vocês veem que estou derivando de hipótese em hipótese, para não ter que suportar o puro horror. Mas prefiro ir assim, tateando a literatura, do que me apegar ao discurso psiquiátrico de plantão policial, onde a palavra psicose é repetida como se ela dissesse muita coisa.

Numa primeira leitura , certamente apressada e impactada pela força dos fatos, o porta-voz da PM terá dito, segundo leio, que a carta confusa do assassino em massa denunciava que ele era portador do vírus HIV e que via as crianças como impuras, indicando-se aí a possível razão mental do extermínio. Lida com frieza a carta se mostra mais articulada que isso em sua articulação louca.

Com a firmeza dos que falam já do ponto de vista da própria morte, ela começa sem rodeios no meio da coisa, tomando o fato consumado como seu ponto de partida: “Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem usar luvas.” Não se trata de uma advertência hospitalar sobre HIV. Num discurso cheio de ressonâncias litúrgicas, o que o sujeito está fazendo é uma espécie de testamento em que entrega seu corpo a um tratamento ritual. Neste, ele não pede, mas ordena, com indicações minuciosas, que seu corpo não seja profanado.

Não são as crianças que são chamadas de impuras. Os impuros para ele são os seres sexuados, os não virgens e não castos, os fornicadores e adúlteros. O vírus do sexo (por isso as luvas) não deve tocá-lo nem morto (ou nem morta — se quisermos jogar mais com os perigos obscuros que o sexo traz em si). A não profanação da suposta virgindade absoluta corresponde a uma sagração do próprio corpo, que o autor da carta pretende impor com a autoridade da morte.

Pelo menos é o que diz a carta maluca. Loucos têm mais fé cênica, isto é, mais crença na força que os comanda, do que nós, os chamados normais. Este não brincava em serviço, porque aprendeu a destreza das armas e construiu a cena da sua sagração em que, para que o mundo e ele mesmo não fossem profanados pelo sexo proibido, profanou o templo maravilhoso da escola pública popular e atirou antes de mais nada nas meninas.

O discurso da criminologia conhece bem o tipo. São fechados, arredios, carregam surdamente o peso de sua não inserção no grupo social e se vingam espetaculosamente, de uma vez só, num salto mortal do anonimato para a eternidade dos 15 dias de fama póstuma. A escola é o teatro preferencial dessa exclusão silenciosa e dessa revanche.

Mas o discurso da criminologia é o discurso tipológico, em busca do padrão psicossocial reconhecível, que quer amarrar as características genéricas para melhor capturar o tipo. Há sempre, não fosse o ser humano “a parte mais complexa de uma organização” (como me disse um empresário desconsolado), a singularidade daquele um.

A loucura desse infanticida em massa foi capaz de inventar o seu próprio estratagema. Se o pária, segundo uma antiga figura do direito romano (ver Agamben, “Homo sacer”), é aquele que pode ser morto impunemente e sem direito a ser celebrado num rito, ou seja, aquele que está fora tanto da esfera jurídica quanto da religiosa, esse pequeno pária do Realengo destruiu mundos na confiança louca de inverter esse mandado, de se matar matando e de ser consagrado num rito fúnebre determinado por ele mesmo.

Para nós que ficamos, é crucial atentar para aquela questão mal resolvida de fundo: a tentação de matar (real ou simbolicamente) ligada à relação complicada com o sexo e seus tabus. Diferentes índices põem esse tema em cena, em diferentes gradações, em acontecimentos que espocaram quase todos juntos nesses últimos tempos, das falas preconceituosas de Bolsonaro às vaias em massa para o jogador de vôlei gay, da ostentação de seus crimes pelo bandido Pimpolho, suspeito de matar travesti, ao da adolescente morta pela família da namorada.

O meu silêncio está dizendo: viva a vida.

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