Quinto capítulo do romance “O Dia dos Cachorros” (reeditado), de Aldo Lopes

CINCO

CALUZINHA ACORDOU-SE COM O TROPEL DOS cavalos enchendo as ruas, ocupando as calçadas e as praças e tudo quanto era lugar onde podiam se meter. E relinchavam agoniados e batiam com os cascos no calçamento e o suor fedido se despendia de seus corpos e formavam poças nas fendas das pedras. Quando Caluzinha abriu uma das janelas que davam para a rua, pulou para trás, porque um cavalo enfiou a cabeça e não mais teve como recuar. Agora, se quisesse sair, que abrisse a porta dos fundos, atravessasse todo o pátio do quintal, até o portão dos muros.

– A rua de trás também está tomada – gritou Minervina.

Caluzinha correu para os fundos da casa. Os cavalos tinham invadido o quintal e pisoteado a horta e o jardim. E ela sem nada poder fazer, a não ser se trancar em casa e esperar. E já era insuportável aquele mau cheiro de urina e suor. Os bichos roíam o reboco do muro para lamber o sal e bebiam a água das talhas e dos tanques e comiam as roupas do varal.

Os cavaleiros foram entrando e se aboletando nas casas, porque contavam, de cara, com a boa vontade de quem os mandava entrar e se arranchar, numa hospitalidade comovedora. Para se ter uma noção da quantidade, só na casa de Zé Nazário se hospedaram para mais de quarenta homens. No correr do dia, beberam o leite de uma dúzia de vacas, comeram um porco, um bode, sem contar as galinhas, os patos e ainda um veadinho novo capturado na armadilha que Zé Nazário instalara na mata de Leôncio Bonifácio.

Depois de se fartarem, caíram nas redes que armaram nos alpendres, debaixo das castanholas e das mangueiras. Enquanto isso, as mulheres lavavam e passavam as roupas e preparavam chás e caldos e refrescos para eles, de olho nas crianças que engraxavam as botinas, besuntavam com nata as cartucheiras e as bainhas e os arreios dos animais. A mando dos pais, cada menino adotou um animal, ficando no dever de dar-lhe banho e leva-lo para pastar. E assim as ruas foram ficando desimpedidas, com os animais indo para as mangas e os homens se arranchando como podiam. Aos poucos a situação foi se normalizando e Caluzinha se viu, enfim, em condições de sair à rua.

Havia homens por todos os lugares, muito educados e sempre tão gentis, se derretendo em mesuras à passagem de qualquer senhora, mulher, moça ou anciã. E Caluzinha logo percebeu isso quando passou em frente ao Vapor Velho e quatro homens se aproximaram para cumprimentá-la.

– Este aqui é o nosso comandante!

O comandante depressa aprumou o espinhaço, chupou a barriga e assoprou o peito num só movimento respiratório. Ele fitou-a longamente. Tinha diante de si uma moça de muita formosura que, pelo visto, procurara se vestir da roupa mais bem composta que possuía.

– Em breve farei uma visita ao seu pai – disse ele, pausado, fleumático, se demorando de maneiro no falar.

Caluzinha acenou com a cabeça, respondendo ao cumprimento, pediu licença e saiu.

Depois de José Rafael, nunca mais sentira homem algum chegar tão perto. Todo fim de tarde ela se postava no parapeito da janela, em silêncio. Foi numa tarde dessas, há quase cinco anos, que ela viu um chapéu branco voando pelos ares e ficou olhando aquele chapéu. O vento assobiou nas fachadas das casas, revirando as copas das árvores. Aquilo lhe fizera lembrar-se do sonho da noite anterior, numa festa de casamento, quando chegou a hora da noiva jogar o buquê e um vento forte soprou e revirou os santos e as cortinas e carregou o buquê para longe, deixando as moças só na vontade. Caluzinha ainda saiu na porta esfregando os olhos, mas só avistou os pavios de poeira no céu. Interrompeu o sono com a tia Minervina lhe sacudindo pelos ombros.

– Acorda, menina!

– Hã?

– Acorda.

Depois da morte de Rafael, ela passou a deixar de lado os afazeres para sair em busca de saudades pequenas, um modo de ir suportando a dor maior que era aquela saudade entranhada. Se a verdura da idade só com experiência amadurece, então o amor está fora disso, pois ele não faz curvas, não é velho nem é novo. O amor é e ponto final.

Quando a bala do revólver de Salviano Lourenço varou os peitos de seu noivo e ele se estendeu na calçada, Caluzinha começou a sentir algo sendo semeado lá dentro dos seus interiores, pelos debaixo de todas aquelas saias e anáguas. Sempre que o mormaço do desejo vem e dá o comando, elas se desfazem muito rapidamente desses panos.

Da sua gravidez imaginária nasceram os gêmeos mais bonitos do mundo: José Rafael e Rafael José. Ela começou a contar o tempo do bucho riscando a parede com a ponta de uma tesoura. Cada dia era um risco. O primeiro risco surgiu por acaso, no exato instante em que a avisaram da desgraça. No desespero, ela trancou-se no quarto, pegou a tesoura e afastou a mão e veio com toda força para metê-la no pescoço, mas um anjo apareceu a tempo e deu-lhe um safanão que a ponta da tesoura resvalou para a caliça da parede. Então ela espiou atordoada para aquela enorme criatura que num piscar de olhos aparecera diante de si.

– Bendita és tu entre as mulheres! – disse-lhe o anjo esfregando uma mão na outra para remover a poeira do reboco.

– Vosmecê fala isso para todas! – rebateu Caluzinha, com uma ponta de ironia.

O anjo ficou vermelho.

– Eu não me chamo Gabriel nem sou tão antigo quanto você pensa – atalhou ele, numa referência ao colega da velha guarda escolhido para anunciar à Maria que em breve ela teria um filho.

Arrependida de ter sido inconveniente com o anjo, Caluzinha pediu desculpas. O anjo não só a desculpou, como disse que se dava por satisfeito de haver executado plenamente sua tarefa. Só então foi que ela se ajoelhou, se benzeu e cantarolou uma modinha da juventude. O anjo torceu o nariz, desaprovando a cantoria, mas a moça dessa vez não disse nada, apenas pediu a ele que sentasse um pouco. Dava-lhe agonia ficar espiando aquela criatura enorme, com as costas encurvadas para não roçar a cabeça nas tábuas do teto, e ainda aquele par de asas compridas que denunciavam os desgastes naturais do tempo, certamente das muitas horas de voo de uma vida toda a serviço do Senhor. Chamava-se Alexandre.

Desajeitado, com as asas arrebentadas, parecendo um frango velho expulso do galinheiro, o pobrezinho nem encostou direito os fundilhos na cadeira para o deforete, um colega passou voando. A moça viu só o vulto branco através da janela e o bafo de vento quente produzido pelo movimento de suas asas.

– Vambora, Xandão! – gritou o outro lá do alto.

O anjo mal-amanhado num átimo se transformou, armou-se todo como se possuísse aspas de guarda-chuva dentro das asas. Ágil, afeito a longas alturas e imensas distâncias, o senhor dos céus desapareceu no azul numa rapidez impressionante.

Dias depois, Caluzinha passou a ser vista com uma cestinha de crochê no colo, agulha vai, agulha vem, e mete linha, e cose aqui e cose ali, e chuleia e pinta e borda, e lá estavam os sapatinhos dos bebês, as camisinhas e os lençóis, o enxoval todo prontinho. Ao fim das regras, viera o que ela achava que seria a barriga, seguida dos enjoos, sintomas típicos da gravidez. E o povo de casa já achava normal aquele comportamento. O coronel Barbaciano se comovia quando entrava no quarto e lá estava ela com as mãos tateando os ares, como se estivesse cuidando das crianças.

– A cara do pai! – dizia sorrindo e olhando longamente para um canto vazio do quarto.

Minervina e Barbaciano se entreolhavam.

Sempre às tardes começava o aperreio. Caluzinha gritava, chamava um e outro. E, depois que banhava os filhos, colocava um chapeuzinho de feltro na cabeça de cada neném e saía a passear pelo pátio interno de casa ou no quintal.

E vieram-lhe as crises de choro. Quanto mais se aproximava o dia do casamento, mais ela chorava. Uma angústia sem explicação comprimia-lhe o peito. Caluzinha remoia outras esperas, situações ainda não de todo desanuviadas dos ares de sua cabeça. Ela sabia que aqueles arrepios na alma seguidos de calores repentinos e choros silenciosos, ruminantes, eram coisas do terreno das premonições.

Um dia antes de matar o doutor José Rafael, Salviano Lourenço o procurara, porque sua mãe não andava bem. O doutor correu lá e medicou a velha. Ela teve pesadelos a noite inteira, espumou bastante pela boca, golfou, escarrou, obrou, cuspiu, vomitou, lançou tanta matéria pelos orifícios do corpo, que de manhã a empregada foi levar-lhe o café e deu um grito. Salviano correu para o quarto, mas não teve coragem de se aproximar do imenso cogumelo de espuma que ia da cama ao telhado. Somente depois de removerem toda aquela sujeira foi que ele acreditou que a mãe estava morta.

O padre deu ordens para sepultarem a velha no cemitério ao lado da igreja. O doutor Rafael, para quem a bubônica fora a causa da morte da mulher, interferiu energicamente contra. Havia risco de contaminação. O cemitério da Moça Branca tinha sido reconstruído exclusivamente para os empestados.

O padre chamou Salviano ao confessionário. Sabedor dos maus bofes do primo, o vigário deu o golpe decisivo quando declarou que a velha acabara não resistindo aos efeitos colaterais do remédio aviado pelo doutor Rafael.

– Então minha mãe morreu envenenada?

O padre pretendia dizer sim, sim e não a um só tempo, ou talvez muito pelo contrário. Daria uma explicação, a mais razoável que fosse, contanto que deixasse o primo com o coração envenenado.

– Ele sempre desconfiou de tua paixão por Caluzinha – segredou o padre, sem se segurar, de peçonhento.

– Vou matá-lo! – jurou Salviano, jogando um bafo de alho na tela por onde vazavam os pecados até o ouvido do sacerdote.

Um recado do coronel Barbaciano, recado curto e sem rodeio: a defunta ia ser enterrada no cemitério da Moça Branca.

Na noite anterior Caluzinha tinha tido um sonho. Não um sonho propriamente, porque ainda estava acordada e escutou uma voz sonolenta que os bofes empurravam para fora com certa dificuldade, talvez por conta dos chiados do peito e a falta das dentaduras:

— “Enterrem a minha comadre atravessada”.

— “Vovó Anastácia?

— “Eu me chamo Laurentina”.

A primeira coisa que Caluzinha fez ao levantar foi procurar saber da tia quem era Laurentina. A tia colocou a mão no queixo e ficou espiando o teto, remexeu a memória e disse que não tinha lembrança, mas procuraria saber e lhe daria uma resposta. Em todo caso, sabendo ou não, era conveniente que rezassem juntas pela alma dona da tal voz, para que não voltasse a se intrometer nos assuntos dos viventes. Rezaram.

Caluzinha foi ao cemitério naquele dia junto com Minervina e as amigas, mas permaneceram do outro lado da estrada, de olho nos afazeres do coveiro, que já estava a par das recomendações. Ele fez tudo conforme o determinado: cavou a cova na soleira do portão, de modo que o corpo da velha ficasse atravessado, impedindo a saída dos de dentro e, bem mais importante, a entrada dos de fora.

Terminado o trabalho, o coveiro lacrou a sepultura, fechou o portão, deu três passos à frente, fechou os olhos e sacudiu a chave num capão de mato onde se via ao fundo imensos pés de angicos em meio ao entranhado das juremas, espinhos-de-judeu e cardeiros. E no instante em que o homem atirou a chave, uma pancada de vento, desses enviesados, vento mau, de desgraça, arregaçou o mato lá de longe e apitou nas cercas de avelós. Era a peste, enfim, se indo para sempre. Pois daquele dia em diante nunca mais se abriu o cemitério, nunca mais se soube de um só morto de bubônica em Princeza e nas trinta léguas ao derredor.

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