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Racine Santos: era uma vez o homem e seu tempo

Dramaturgo, poeta, escritor e jornalista, Racine Santos tem um longo histórico de dedicação à cultura e à literatura.

Atuando desde meados dos anos 60 na cena literária, já publicou inúmeras peças de teatro, poemas, revistas culturais, e mais recentemente dois romances.

Dentre seus inúmeros prêmios culturais, destaca-se a Medalha de Mérito Alberto Maranhão, outorgada pelo Governo do Rio Grande do Norte, em 1998.

Racine Santos também é o nome de uma das salas do Teatro de Cultura Popular, da Fundação José Augusto.

Abaixo, destacamos alguns dos melhores momentos de uma entrevista que ele nos concedeu para o livro Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos, Vol. 2.

1-Racine Santos você nasceu em Natal, mas morou um período em Macaíba? Relate-nos um pouco de sua infância.

Não seria o que sou se não tivesse tido a infância que tive. Correndo livremente pelas ruas de Macaíba do final dos anos 1950, construí um mundo de sonhos que carrego comigo até hoje, como um trancelim pendurado no pescoço. Foi lá e nessa época que vi pela primeira vez um Pastoril, meu primeiro alumbramento, como diria Bandeira. Circos mambembes, João-Redondo, cantadores de viola, vendedores de folhetos, festa da Padroeira e filmes de “cowboy” no cinema da cidade, tudo isso junto formou o painel dos meus tempos de menino. Duas coisas no entanto destaco nesse universo irresponsavelmente feliz: a igreja de N.S. da Conceição, com seu silêncio e seus mistérios, onde eu fazia parte da Cruzada Eucarística e doido para que seu Adelino, o sacristão, deixasse um dia eu tocar o sino. Coisa que um dia pude fazer, para minha suprema alegria. E a feira, aos sábados, barulhenta, cheia de cores e cheiros, por onde eu passeava como se estivesse num parque de diversão. E assim, entre o sagrado e o profano, vivi minha infância em Macaíba, pecando e comungando como todo bom cristão.

2-Quais foram suas primeiras leituras literárias?

Minhas primeiras leituras, quando eu menino, foram os folhetos de literatura popular em versos. A literatura erudita só vim conhecer mesmo no Seminário Marista, em Apipucos, Recife. Ali, numa primeira fase, li um autor francês de inspiração católica chamado Gilberto Cresbon (“Cães Perdidos Sem Coleira”) e A.J. Cronin (“A Cidadela”, “A Árvore de Judas” e “As Chaves do Reino”). Hoje eu tenho a impressão de que só quem os leu fui eu. Não conheço ninguém que tenha lido Cresbon ou Cronin. Se leu não diz. Bem, numa segunda fase, ainda no Seminário, conheci a poesia de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto (poetas que me marcaram profundamente, pelo que diziam e como diziam) e Carlos Pena Filho. Como essa poesia me marcou. Principalmente os dois primeiros. Foi nessa época, entre 1963 e 1964, que conheci o teatro de Ariano Suassuna. Quando li “A Pena e a Lei”, dei um pulo da cadeira e disse: “é isso que quero fazer”. E procurei ler tudo que ele tinha escrito. Num terceiro momento, descobri Dante e os gregos Homero (“Os rubros dedos da aurora” eu considerava a imagem mais bela já escrita por um poeta!), Sófocles, Ésquilo e Eurípedes. Quando li “Édipo” e depois “Antígona”, de Sófocles, passei a ter por aqueles textos o mesmo respeito que tinha para com a Bíblia. Eram, para mim, sagrados e mereciam todo o incenso do mundo.  Shakespeare veio depois, quando eu já estava em Natal. A primeira peça do bardo que li foi “Otelo”, que comprei numa edição de bolso, com tradução de F. Carlos de Almeida e Oscar Mendes. Já em Natal, fora do Seminário, em 1968 descobri Hermann Hesse, J. Salinger. Quem não leu “O Lobo da Estepe” e “O Apanhador no Campo de Centeio”, naquela época?  Eu, que vinha da leituras dos clássicos e de autores canônicos, de repente me deparo com a contracultura, com o movimento hippie, começo a ler o “Pasquim” e um amigo meu me apresenta Maiakovski. Ouvi Joe Cooker cantar “With a Little Help From My Friends” em Woodstok, depois Caetano, Gil e Chico, e vi que o mundo era bem maior do que pensava e que, naquele momento, muitos jovens estavam morrendo por uma causa. O Vietnan existia e a ditadura brasileira cada dia se fortalecia, estendia mais seus tentáculos. Foi nessa época que sofri um acidente de automóvel e tive que passar um ano e dois meses internado num hospital, no Rio de Janeiro. Lá fora o AI-5 e o homem chegando à lua me chegam pela televisão. E eu lia, alimentado de livros pelo amigo Osório Almeida, que me visitava toda semana..

3-Na sua volta para Natal você se filiou a um grupo de teatro, foi nessa época que você também escreveu sua primeira peça?

Em 1966 eu já estava em Natal. Conheci Sandoval Wanderley e no ano seguinte entrei para o grupo que ele fundara e dirigia, o Teatro de Amadores de Natal. Com ele fiz várias peças como ator, inclusive “A Viola do Diabo”, da pernambucana Ladjane Bandeira.

Antes de sofrer o acidente que me deixou fora de circulação, eu havia escrito um arremedo de peça, um texto totalmente baseado na Via Sacra de Ghéon, que cheguei a encenar algumas vezes em Natal. Depois recriei para o palco o folheto “A Chegada de Lampião no Céu”, de Rodolfo Coelho Cavalcante, um poeta alagoano. Mas tudo sem consequências. Minha primeira peça encenada, aquela que considero o início de minha carreira dramatúrgica, foi “A Festa do Rei”, levada ao palco do Alberto Maranhão em 1976.

4-Quantas peças você tem publicadas?

Você sabe que no Brasil quase não se publica peças de teatro, não é? Imagine em Natal. Tirando Meira Pires e eu, poucos autores têm peça publicada no Estado. Talvez eu tenha sido quem mais publicou, pois das minhas 18 peças, apenas “Bye Bye Natal”, “A Festa do Menino Deus”, e “A Ópera do Malazarte” não estão em livros. “A Farsa do Poder” já mereceu duas edições. Uma em 2001 e a outra em 2010.

5-Fale-nos um pouco do seu primeiro romance, “Macaíba em Alvoroço”.

Geralmente, tudo o que faço em termos de ficção, parte de um fato, de uma situação, ou mesmo um personagem. E em cima desse “embrião” vou desenvolvendo a história. Foi assim com todas as minhas peças, com o romance inacabado “O Quarto Rei Mago” e, agora, com “Macaíba em Alvoroço”. Nesse caso, o romance nasceu de um personagem, que eu batizei de Xexéu de Macaíba, poeta desaforado e cheio de malícia, autor de glosas safadas e irreverentes. Na verdade primeiro vieram as glosas, que eu havia feito para gozar uma situação vivida por um amigo, que faz parte de um grupo que frequentava determinada livraria da cidade. Eram várias glosas em torno do mesmo assunto, que provocaram muito riso no meio do grupo. E disse que o autor era um tal de “Xexéu de Macaíba”, um poeta popular amigo meu. Nei Leandro de Castro quando leu as glosas e soube que Xexéu era uma criação minha, me deu a ideia de escrever sobre esse personagem pícaro, dar-lhe vida, envolvê-lo em outras aventuras. Foi a faísca que faltava para incendiar minha imaginação. Como carrego Macaíba de minha infância dentro de mim, situei a ação do romance no final dos anos 1950, naquela cidade. Aliás, a maioria de minhas peças tem essa Macaíba como cenário, como ambiente ficcional. Quando crio uma narrativa de ficção, minha imaginação corre pelas mesmas ruas que corri quando menino. Nomes de alguns personagens, tipos e lugares, tanto de minhas peças como no romance, foi lá que fui buscar. Em “Macaíba em Alvoroço”, com o qual ponho um ponto final em minha carreira de dramaturgo, criei uma situação onde coloco pessoas do baixo estrato social e as autoridades da cidade diante do mesmo fato gerador de ações e reações. Comecei a escrever em dezembro de 2011, mas, somente agora, depois de reelaborá-lo várias vezes, é que achei que estava pronto para ser publicado. Apesar de nunca pré-conceber uma obra, depois que termino, reescrevo muito. Não creio na coisa espontânea, no improviso, no insight, literatura é trabalho, ourivesaria. Nesse ponto estou com Flaubert, é preciso encontrar a palavra certa, le mot juste. A quem eu dei para ler os originais, me deu um sinal positivo para publicação. E o que tenho a dizer sobre ele, é que é um romance aparentemente engraçado. Digo aparentemente porque no fundo ele trata de assuntos que merecem reflexão. A linguagem, e até mesmo o ritmo, tem muito do meu teatro. Me deu muito trabalho, pois reescrevo muito. Espero que gostem.

6-São quantos textos encenados até hoje?

Todas as minhas peças foram encenadas, algumas delas, inclusive, fora do Brasil, como é o caso de “À Luz da Lua, os Punhais”, “Elvira do Ypiranga” e “Pedro Malazarte”. E minha peça “Chico Cobra e Lazarino”, curiosamente, foi encenada primeiro em Portugal. Depois em Recife.

7-E como poeta, já são quantos livros lançados?

O primeiro trabalho poético que lancei foi em 1972. Chamava-se Anti-Roteiro da Cidade do Natal. Era, na verdade, uma plaquete contendo poucos poemas sobre a cidade. Coisa de principiante. Depois, em 1984, publiquei A Casa Nordestina, um trabalho bem mais consequente, que gosto muito e que pretendo reeditar. Uma Cidade Vestida de Sol, belissimamente ilustrada por Newton Navarro, lancei em 1986. Sou muito comedido em termos de poesia. Publiquei pouco em forma de livros. Tanto é que somente agora estou com um novo livro pronto para ser lançado: “Breviário de Canudos”. Um trabalho ilustrado por Ciro Tavares, onde mergulho poeticamente na história do arraial de Canudos.

8-Em meados dos anos 1990 você publicou um livro muito representativo que é o Romance da Fortaleza da Barra do Potengi, de que tratavam os poemas?

Na verdade, o livro contém um único poema, um longo poema sobre a Fortaleza dos Reis Magos. Como tenho os pés fincados na cultura nordestina, trabalho o poema na métrica e versificação da poesia popular. É um longo poema dividido em cinco capítulos, que chamo de Folhetos. Segundo Diógenes da Cunha Lima, que apresenta o trabalho, é a primeira narrativa em versos sobre a Fortaleza. Foi lançado em 1995, ilustrado com fotos de Carlos Lyra.

9-Você está incluso em uma das antologias poéticas mais importantes do Estado, que é a Antologia de Assis Brasil. Como se sente sabendo que faz parte de nossa história cultural?

Taí, eu nunca tinha pensado nisso. De fazer parte de nossa história cultural. O que tenho a dizer é que a cultura, a literatura, sempre fizeram parte de minha vida. Então, tudo isso pra mim é natural. Parodiando Bandeira, eu diria que faço teatro como quem vive e faço poesia como quem chora. Se dou minha contribuição para a história de nossa literatura, ótimo. Mas, lhe afirmo, não tenho vaidade, nem essa pretensão. Nunca corri atrás de padrinhos para publicar meus livros ou encenar minhas peças. Produzo pelo impulso natural do artista. E se não publiquei mais, foi por falta de empenho meu nesse sentido. O interessante é que faço parte dessa antologia como poeta, quando muito pouco publiquei nessa área. Minha maior produção é na dramaturgia e no romance, e tenho convicção de que nesse campo pude oferecer a nosso Estado um significativo trabalho. Uma produção consciente e consequente..

10-Racine Santos está para o teatro potiguar como Navarro está para as artes plásticas. Qual o motivo de você não ter sido incluído na antologia de Diva Cunha e Constância Duarte em 1999?

Não sei. Na verdade não sei. Aliás, para os “antologistas” potiguares o escritor Racine Santos não existe. O único estudioso da literatura potiguar que me cita é Manoel Onofre Jr. Para os demais, não existo. Embora com peças encenadas em Portugal, Espanha, Chile e em quase todo território brasileiro, esse povo não me conhece. Às vezes eu quero crer que seja pelo fato da dramaturgia ser marginalizada no Brasil, pois é uma escrita que incomoda o poder, o estabelecido, o bem posto. Veja que a Igreja, na Idade Média, censurava o teatro. Todas ditaduras, de Stalin aos generais brasileiros, tentaram calar o teatro. Foi violenta a repressão ao teatro durante a ditadura militar no Brasil. Essa postura, claro, faz com que, talvez inconscientemente, os estudiosos oficiais e acadêmicos, fechem os olhos para a literatura dramática. Fora isso não tenho outra explicação. Veja que coisa curiosa: em 1998 a FIERN e a Fundação José Augusto lançaram, em dois volumes, “Navarro, Obra Completa”. Reunindo crônicas, contos, poemas e tudo que achavam que seria suas obras completas. Mas ali não estão as peças que Navarro escreveu. E as peças que ele escreveu, como “O Caminho da Cruz” e “Um Jardim Chamado Getsêmani”, são grandes obras teatrais. Como se vê, se os dramaturgos dependessem de antologistas, estavam todos mortos. Ainda bem que nosso público é outro. Já pensou se Pirandello, Eugene O’Neill e Beckett tivessem nascido em Natal? Jamais teriam recebido o prêmio Nobel.

11-Se você fosse para uma ilha deserta e pudesse levar apenas dez livros potiguares, quais seriam eles?

Para ficar apenas no campo da ficção, eu levaria: Gizinha (Polycarpo Feitosa), Macau (Aurélio Pinheiro), Os Brutos (José Bezerra Gomes), Os Mortos São Estrangeiros (Newton Navarro), O Rio da Noite Verde (Eulício Farias de Lacerda), As Pelejas de Ojuara ( Nei Leandro de Castro), O Dia em que Tyrone Power  Esteve em Natal (Geraldo Edson de Andrade), Chão dos Simples ( Manoel Onofre Jr.), O Mensageiro del Rey ( Iaperi Araujo) e, claro, Prelúdio e Fuga do Real (Câmara Cascudo).

12-Quem é o escritor Racine Santos?

Sou o que escrevi. O escritor é o resultado de sua obra. Agora, quanto a meu teatro, ele é apenas o resto do banquete de Ariano Suassuna. Depois de beber nos gregos, Shakespeare e Molière, foi em Ariano que encontrei o caminho para um teatro comprometido com minha aldeia.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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