O racismo reverso como contra-argumento da branquitude

O racismo é uma ideologia de raízes profundas, que histórica, cultural e economicamente foram construídas ao longo de mais de quatro séculos de exploração e escravização dos povos africanos e de seus descentes, que numa diáspora forçada, foram espalhados pelo mundo.

Segundo Wlamyra R. Albuquerque em seu livro Uma História do Negro no Brasil, publicado em 2006 pela Fundação Palmares, diz que a escravidão foi muito mais “[…] que um sistema econômico. Ela moldou condutas, definiu desigualdades sociais e raciais, forjou sentimentos, valores e etiquetas de mando e obediência. A partir dela instituíram-se os lugares que os indivíduos deveriam ocupar na sociedade, quem mandava e quem devia obedecer.” (p. 66).

Nos últimos dias, os reflexos dessa construção ficaram ainda mais evidentes diante da reação ao primeiro Programa de Trainee do Brasil, voltado 100% para negros/as da Magazine Luiza. Diante das muitas revoltas acerca dessa ação, a empresa é acusada de promover discriminação ao oferecer o programa especificamente para negros/as.

Leia “Quando a história única molda nosso modo de pensar”, de Nádia Farias

Diante de toda essa celeuma, é importante questionar o porquê de tanta contestação, revolta e inconformismo sobre esse programa de trainee. A reposta é bem direta.

Quando qualquer ação individual ou coletiva, no âmbito público ou privado abala os privilégios da branquitude, imediatamente surge a reação por diversas frentes e vozes, enfurecidas e indignadas, que se utilizam da acusação de racismo reverso para defender os espaços que “naturalizaram” como seus.

Desemprego e informalidade

Escravidão moldou condutas, definiu desigualdades sociais e raciais, forjou sentimentos, valores e etiquetas de mando e obediência. Ilustração: Costa/Leemage/AFP.

Já se perguntou por que não questionamos a ausência ou a quase imperceptível presença de negros/negras nos postos mais altos das empresas? E por que nós negros/as somos maioria nos postos mais básicos e menos remunerados?

Aliás, somos maioria no desemprego, subemprego e trabalho informal, na pobreza, na fome e na baixa escolarização, nas estatísticas de mortes e em tantos índices negativos.

Mas, isso não incomoda tanto quanto as oportunidades oferecidas que venham na contra mão dessa realidade e que se quer conseguem arranhar as estruturas da sociedade e da condição do povo negro em relação aos brancos no mercado de trabalho.

Ações como essas que buscam diminuir às distâncias entre negros/as e branco/as. São amparadas pelas Políticas de Ações Afirmativas e Estatuto da Igualdade Racial, uma vez que reconhecem a necessidade de reparações para a população negra que, devido ao período da escravidão, foi usurpada em sua dignidade enquanto ser humano, sem o direito a dispor de suas vidas, sua liberdade e a de seus descendentes, bem como impossibilitou ou dificultou o acesso à educação, a saúde, a posses e etc.

E como resultado dessa exploração, os negros estão entre os 75% mais pobres, e obviamente os brancos entre os 70% mais ricos. Então, frente a esses dados, quem sempre teve reserva de vagas nos melhores lugares, postos, profissões?

Branco sempre teve cotas

Se pararmos para refletir um pouco, podemos perceber que as pessoas brancas sempre tiveram cotas, pois suas presenças nos espaços de poder esteve assegurada, basta olhar para a história do Brasil e as diferenças abissais que existem entre a população branca e a negra.

O racismo é um sistema de opressão que tem a ver com as relações de poder. Ofertar um programa de treinamento para pessoas negras com o objetivo aumentar a participação nos cargos mais alto de uma empresa, não pode ser considerado racismo reverso, não mexe com a estrutura racial da sociedade, não retira da branquitude seu poder e privilégios.

Se entendermos isso, as acusações de racismo reverso, amplamente alardeadas e infundadas, se perdem no desconhecimento ou na distração do verdadeiro problema que é o racismo estrutural.

Pedagoga e professora do IFRN, campus Apodi. Mestra em ensino pela UERN e doutoranda em educação pela UFPB. Autora do livro "Entre Saberes e Fazeres Docentes: o ensino das relações étnico-raciais no cotidiano escolar". Tem contos e poesias publicados em antologias. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

treze − 10 =

ao topo