Radical pop

NA FSP

CRÍTICA

O ecletismo previsível de Slavoj Zizek

RESUMO

Em dois livros recém-lançados no Brasil, o esloveno Slavoj Zizek faz uma crítica à teoria do “fim da história” de Francis Fukuyama, defende um “terror revolucionário anti-humanista” e interpreta as reações à crise econômica de 2008; esbarra, no entanto, em simplificações e numa visão do poder político sombria e violenta.

Por Joaquim Toledo Jr.

SLAVOJ ZIZEK É, hoje, a figura mais pública entre os intelecuais ligados à “esquerda radical”. O entusiasmo em torno de seus livros e de suas aparições ao vivo lhe rendeu o apelido, a princípio irônico mas -numa torção de sentido bem a seu gosto- hoje assumido, de “Elvis Presley da crítica cultural”.

Zizek (pronuncia-se “jijék”) recolocou a filosofia e a crítica social marxista na atenção do público e da mídia -e parte desse sucesso pode ser atribuída, como em todo popstar, a seu carisma, mas também à sua insistência em provocar seus interlocutores independentemente do lugar que ocupem no espectro político. Sua incrível capacidade de dar respostas às questões mais atuais e urgentes -dos filmes mais recentes de Hollywood à crise econômica mundial, passando pelos fatos e factoides que enchem os jornais- colocou-o no centro das atenções de um público ávido por explicações que desvelem a intricada natureza do capitalismo global.

Para Zizek, tudo sob o sol é, segundo a expressão de Claude Lévi-Strauss, “matière à penser” – tudo é material para o pensamento e tudo esconde (e revela, para o bom observador) as contradições da modernidade capitalista.

MARX E LACAN Zizek pôs em circulação uma abordagem crítica que combina marxismo filosófico e psicanálise lacaniana.

Essas perspectivas teóricas o habilitam a questionar discursos e realidades da sociedade capitalista como apenas uma parte de uma história mal contada: as promessas de liberdade e igualdade, inscritas na imagem que a sociedade burguesa construiu de si mesma desde a Revolução Francesa, são antes uma promessa jamais cumprida ou uma dádiva distribuída desigualmente entre exploradores e explorados.

Da mesma forma, democracia liberal e Estado de direito são antes formas de bloquear as energias utópicas liberadas pela revolução de 1789 e por outros “Eventos” (segundo a expressão de Alain Badiou empregada por Zizek) revolucionários do que sua realização institucional. A história da sociedade moderna é, assim, uma história de usurpação de potenciais de emancipação, e cada volta no parafuso significa mais uma vitória do capitalismo.

A HIPÓTESE COMUNISTA É por isso que, para Zizek, a derrota histórica do comunismo não é a prova definitiva de que seu conteúdo utópico estivesse equivocado. Seu fracasso é antes sinal de que a ideia de comunismo carregasse consigo o potencial emancipador definitivo.

Assim, a “hipótese comunista” (expressão de Badiou) é atual: numa época em que a natureza, o código genético da espécie humana e as energias criativas dos indivíduos estão sob ameaça de apropriação pelo Capital (na forma de catástrofes ecológicas, da biotecnologia e da propriedade intelectual), é necessário recuperar a ideia dos “comuns”, a cuja privatização devemos resistir a todo custo.

O preço de abandonar a hipótese comunista à lata de lixo da história, defende Zizek na coletânea de ensaios “Em Defesa das Causas Perdidas” [trad. Maria Beatriz de Medina, Boitempo, 477 págs. R$ 69], é transformar em realidade a profecia de Francis Fukuyama, para quem a derrota do bloco comunista sinalizou a vitória definitiva do capitalismo.

TERROR REVOLUCIONÁRIO Assim como a hipótese comunista precisa, para Zizek, ser recuperada, também a ideia de “terror revolucionário anti-humanista” precisa ser salva de seus detratores modernos. Historiadores conservadores como Edmund Burke viram na Revolução Francesa uma erupção de violência inumana. Essa imagem contaminou a própria ideia de revolução, colocando-a fora do espaço da política -legitimando a “democracia liberal” como única forma possível de ação na esfera política.

Mas é nesse “lado de fora” da política que o “terror” precisa se manter. A convergência completa de interesses entre o sistema político moderno -na forma atual das democracias liberais de massa- e o sistema econômico neutraliza o potencial transformador da democracia.

O terror, para Zizek, é a imposição “violenta” da vontade do povo sobre as esferas sociais que se autonomizaram e renovam eternamente as relações de dominação (em especial, a esfera econômica). Sem esse momento de imposição radical da vontade não há terror; sem terror não existe revolução e, sem revolução, não há emancipação.

A capacidade do sistema capitalista de reinventar-se, de domesticar energias utópicas e eternizar-se faz com que suas crises sejam apenas mais uma forma de se fortalecer, assim como o personagem Jason da série de terror “Sexta-Feira 13”, que é sempre (aparentemente) morto ao final dos filmes, para alívio dos personagens que escaparam da carnificina, apenas para retornar com sede de violência redobrada.

CRISE A perspectiva de recusa radical, no entanto -a desconfiança total das instituições do mundo moderno-, prejudica o alcance e o interesse da própria crítica.

Em seu breve comentário da crise de 2008, recém-lançado no Brasil, “Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa” [Boitempo, trad. Maria Beatriz de Medina, 136 págs., R$ 39], Zizek ironiza as propostas (“liberais”) de reformar as instituições de regulação da economia a fim de evitar que crises como essa se repitam.

Para ele, crises econômicas são manifestações das contradições estruturais do capitalismo e nem a indignação moralista (a denúncia da “ganância” de Wall Street) nem as boas intenções liberais (maior regulação dos mercados financeiros) são capazes de evitar que voltem a acontecer. O fato, no entanto, de o sistema capitalista ainda estar sujeito a essas instabilidades mostra que, mais uma vez, as profecias e celebrações sobre o “fim da história” estavam equivocadas.

LIMITAÇÕES Mas a repetição parece dar-se também em outro nível, no interior da própria crítica. O entusiasmo, o ecletismo e o vigor intelectual de Zizek nem sempre compensam as limitações de uma perspectiva crítica que parece cada vez mais autorreferente.

Como nos exemplos mais pedestres do universo do pop, Zizek adquiriu o hábito de dar à sua audiência exatamente o que ela quer: uma repetição dos motivos (elaborados, na maioria das vezes, num jargão marxista pouco original) pelos quais devemos adotar a recusa radical e exigir nada menos do que a revolução total.

O caráter “totalizante” da crítica resulta em uma perspectiva que nivela tudo: a relação de Heidegger com o nazismo é redimível quando consideramos que ele estava impressionado com a radicalidade da recusa ao mundo moderno que parecia ser, ao menos a ele, Heidegger, o centro da agenda do partido nacional-socialista alemão. Para Zizek, ele andou certo, mas na direção errada, ao entusiasmar-se com a promessa de um “Evento” revolucionário -que, por ironia da história, se revelou assombrosamente o oposto.

Como muitos ídolos pop, Zizek sabe colocar diante de si uma imensa máquina de promoção que coloca em segundo plano o que deveria ser o centro de seu espetáculo: suas intervenções são infelizmente cada vez mais previsíveis, quando não superficiais (em seu livro, há pouca ou nenhuma novidade que ajude a compreender e enfrentar a crise de 2008).

VISÃO SOMBRIA Acima de tudo, a crítica da democracia e a defesa do “terror” colocam Zizek no campo oposto àquele em que se esperaria encontrá-lo. Não é de hoje que a esquerda radical flerta com teorias de poder conservadoras que, de Thomas Hobbes (1588-1679) a Carl Schmitt (1888-1985), dispensam noções de legitimidade, participação e autonomia em nome de uma visão sombria do poder político como uma força que emana de si mesma e que opera não a partir de processos intersubjetivos racionais, mas segundo a imposição de uma vontade soberana.

Não é à toa que Zizek encerra “Em Defesa das Causas Perdidas” elencando as exigências igualmente sombrias que se impõem a nós se quisermos evitar a catástrofe ecológica. Além da justiça igualitária, que deverá exigir sacrifícios de todos, e de um “voluntarismo” que confere legitimidade a “decisões coletivas em grande escala”, devemos recuperar as figuras do “terror”, na forma da “punição impiedosa” dos que violarem as medidas impostas (com “controle tecnológico dos que desrespeitarem as leis”, se necessário), e da “confiança no povo” -cuja manifestação, segundo Zizek, é a reativação de “uma das figuras do terror igualitário-revolucionário”: o informante.

É irônico, para não dizer decepcionante, que as energias críticas do pensamento radical estejam voltadas à defesa da agenda totalitária e policialesca da delação e da punição violenta. O fantasma de Carl Schmitt parece rondar a esquerda radical, e não necessariamente na forma de assombração.

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DO EDITOR

Leia entrevista com Slavoj Zizek:  aqui

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