Raibrito e o cheiro do tempo

Peço licença ao editor para republicar o texto seguinte, publicado há alguns anos nesta e noutras bandas da imprensa potiguar. Trata-se de um relato que fiz acerca de visitas a Raibrito, expoente intelectual/cultural ímpar de Mossoró e do RN, falecido nesta semana em Natal. É a maneira como o homenageio.

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O trabalho que desenvolveu, há anos e anos ininterruptos, fez com que Raimundo Soares de Brito (ou, simplesmente, Raibrito) se tornasse conhecido, em todo o Rio Grande do Norte, e fora dele, como um expoente da historiografia. E privar de uma conversa por entre os seus milhares de documentos é, de fato, uma experiência rica, viva e empolgante, com absorção de conhecimentos angariados no tempo profícuo de sua vida.

Foi assim que tive o imenso prazer de encontrá-lo pela primeira vez, anos atrás, em sua casa na rua Henry Koster, número 23, endereço que já chama atenção pela importância histórica do topônimo; por sinal, bem descrito na obra Ruas e Patronos de Mossoró, importante livro, em dois volumes, escrito pelo nosso homenageado e publicado na Coleção Mossoroense.

Estive na sua residência, nesse primeiro encontro, na companhia dos escritores Cláuder Arcanjo, David Leite e José Nicodemos, além de Misherlany Gouthier, inseparável colaborador, à época. Alguns meses depois, sobreveio uma nova visita. Dessa feita, se associaram à conversa os amigos Antônio Capistrano e Leonardo Guerra, juntamente com gente boa da Petrobrás, responsável pelos trabalhos de digitalização e divulgação eletrônica dos documentos, levando à criação da Biblioteca Virtual Raimundo Soares de Brito. Numa terceira visita, estivemos eu e Antônio Capistrano, grande amigo.

Nessas oportunidades tive a felicidade de presenciar a busca obcecada de um homem em realizar uma obra imaterial importantíssima: contar a história de sua terra, de seu povo, de sua gente.

Passeei por entre os seus livros e documentos, extasiado com o frescor – apesar do tom esmaecido dos papéis e objetos antigos – da inteligência do formador daquele amplo acervo de humanidades. Livros, fotos, documentos de toda espécie, e a voz do homem que narrava, como num tema cinematográfico, a sua própria história de vida e de como trabalhou tantos anos na coleta e organização de todas aquelas peças.

Entendi sua obsessão. Descobri que o sentido da vida daquele homem, dedicado que sempre foi em entender e “radiografar” os outros homens, era a busca da essencialidade do próprio ser-no-mundo. A curiosidade imensa, a labuta incessante, como a de um escultor talhando uma obra-prima, eu as vi em Raibrito. Um olhar feliz. Olhar de quem jamais desperdiçou o tempo e construiu, dia a dia, um retrato humano exato e profundo.

Sua hemeroteca é – não há dúvida – um organismo vivo, alimentado como se alimenta um filho, para que não pereça. Alimentado de papéis, principalmente. O papel dos livros que preenchem as estantes. O papel das cartas e documentos diversos, suas pastas de recortes de jornais, e o cheiro de vida.

Raimundo Soares de Brito nasceu em Caraúbas, mas o Rio Grande do Norte é sua dimensão mínima, quando se escapa das fronteiras de sua terra escolhida, Mossoró. A dimensão máxima desse amante do conhecimento, esta, poucos nomes podem alcançar. Só mesmo um pesquisador de sua marca para entrar nos complexos caminhos investigativos que trilhou.

Raibrito buscou pistas que levam sempre a soluções. Nesse caso, a solução é a de se conhecer a alma do homem, o retrato do homem e de sua terra, como este a vive no correr dos anos, dos séculos, nas voltas do mundo sobre seu eixo.

As suas fichas, hoje devidamente digitalizadas, e os recortes e documentos reproduzidos na grande rede da internet (através do projeto da Petrobrás), fazem com que se espalhe ao mundo esse cheiro peculiar que se sente quando se ingressa na casa de Raibrito: cheiro de vida, de gente, cheiro do tempo.

Recentemente eu soube por um amigo comum que Raibrito estava cuidando da saúde aqui em Natal. Espero que esteja bem para continuar suas obra e vida. Ambas exemplares.

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P.S. Fui avisado da morte deRaibrito através de mensagem eletrônica da escritora Lúcia Rocha, que também prestou uma homenagem ao grande homem das letras que perdemos (conferir em: http://www.luciarocha.com.br/).

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