Rareiam as sombras

Por François Silvestre

 

Se no sertão, em pleno inverno,

a sombra é rala,

imagine o sol espantando a sombra

na seca farta.

Do juazeiro nem se cobra,

pois juazeiro já não há.

A oiticica, sempre de sombra escassa,

descasca agora o sol das folhas.

E nem as folhas da jaqueira,

cá na serra,

escondem os retalhos da sombra

que se rendem à luz do sol.

Pior que a seca das nuvens de ontem

só a secura dos homens de hoje.

Cuja sombra é sujeira da luz

E cuja luz é mentira das sombras.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Sueleide Suassuna 15 de Novembro de 2015 19:45

    “Secura dos homens, sujeira da luz e mentira das sombras”
    Paradoxo do poeta: versos generosos para expressar uma paisagem esquálida.
    Só uma poesia frondosa feito copa de juazeiro pode agasalhar tanta asperidade que há no mundo. Tua poesia, véi, é um pé de juazeiro no inverno, derramando sombra, oferecendo abrigo; mas ao mesmo tempo é um aboio no horizonte, seguido pelo assovio estridente da cigarra ao meio-dia.
    Vai véi, plante sempre um pé de poesia
    aqui acolá, ver se reflora o sertão
    pra que a gente coma do fruto
    e beba da seiva dos versos
    da casca ou da rama da rima
    façamos chá, garapa ou aluá
    a ver se nos tornamos menos maus
    e mais dignos de sermos humanos

    Abraço admiroso!
    Sueleide

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