Raridade em sebos, “Avenida Paulista” ganha edição revisada

Imagem do álbum “Avenida Paulista”, de Luiz Gê, da editora Quadrinhos na Cia.

Por Rodrigo Levino
EDITOR-ASSISTENTE DA “ILUSTRADA” – FSP

Luiz Geraldo Martins, 60, ou Luiz Gê, virou lenda. Desde 1991, quando publicou a biografia gráfica da avenida Paulista “Fragmentos Completos”, o desenhista e arquiteto parou de publicar quadrinhos autorais.

Mas é por sua última criação, que retorna às livrarias nesta semana, republicada pela Quadrinhos na Cia. sob o título de “Avenida Paulista”, que Gê voltará à tona. Não era sem tempo.

O afastamento e a dificuldade de encontrar exemplares da obra –publicada originalmente em uma revista institucional, de circulação limitada– aguçou a curiosidade dos leitores e inflacionou seu valor em sebos.

“Foi tempo suficiente para uma geração pôr essa obra na cota das raridades e surgir outra que nem sequer sabe quem eu sou”, diz ele em entrevista à Folha.

Gê, cofundador da revista “Balão” e editor da “Circo”, que reuniam a nata dos quadrinhos nacionais nos anos 70 e 80, é professor de desenho industrial e quadrinhos da Universidade Mackenzie, em São Paulo, desde 1994.

Em julho do ano passado, quando acertou a reedição de “Avenida Paulista”, o quadrinista voltou aos originais da obra, que estavam guardados em imensas gavetas do seu ateliê.

NOVOS TEMPOS

“Os modos de produção mudaram muito de lá para cá. Os originais são fotolitos enormes, que caíram em desuso. Digitalizá-los foi um trabalho meticuloso e exaustivo”, conta ele, que se adaptou forçosamente ao uso do computador para desenhar.

As cores foram retrabalhadas, e o texto, revisado e atualizado. O traço revela a forte influência da arquitetura na obra do autor, detalhista e esmerado.

“‘Avenida Paulista’ é fruto da minha relação afetiva com a cidade e do meu interesse pela preservação da sua história”, explica ele, que se dedicou a uma rigorosa pesquisa antes de criar sua versão para a trajetória do que chama “a espinha dorsal da cidade de São Paulo”.

Concebida como uma espécie de bulevar, por iniciativa do engenheiro Joaquim Eugênio de Lima, e inaugurada em dezembro de 1891, a Paulista passou por transformações drásticas.

Estão na obra os casarões dos barões do café do começo do século 20, a chegada dos imigrantes, a explosão demográfica, a transformação em centro financeiro do país e, sobretudo, o surgimento de uma arquitetura que deu à avenida uma face cosmopolita, atulhada de arranha-céus.

“Mas ela é desordenada e sem identidade. Com exceção do Masp (Museu de Arte de São Paulo), não há uma construção na avenida que sirva de símbolo para a cidade”, reclama Gê.

“Por outro lado, a Paulista nos oferece uma perspectiva histórica da cidade. Vias como a Berrini e a Faria Lima nasceram como um arremedo da Quinta Avenida em Nova York. Quer dizer, sem passado”, pondera.

PASSADO E FUTURO

Embasado por documentos históricos e pitorescos, como o folheto que anunciava a inauguração do Conjunto Nacional, o enredo pende para a ficção científica na segunda metade. É quando Luiz Gê traça perspectivas sobre o futuro da Paulista.

Esse futuro chegou, e os executivos usando celulares, laptops e circulando em uma área urbanisticamente hostil é uma realidade que em 1991 parecia devaneio.

A tudo isso está somado um viés ideológico que ele situa entre o humanismo e o nacionalismo. Nos parágrafos que contextualizam alguns períodos dessa história, há críticas contundentes ao liberalismo e referências à crise econômica de 2008.

“De certa forma, a dependência brasileira do capital estrangeiro durante tantos anos influenciou a nossa arquitetura”, diz ele, que depois de muito tempo à sombra, agora parece ter tomado gosto pela volta.

Até o final de 2013, Luiz Gê deve concluir uma novela gráfica de ficção científica. O começo dessa história foi publicado em 12 páginas na última edição da revista “Chiclete com Banana”, em 1995.

“Mas vou sem pressa”, avisa ele.

AVENIDA PAULISTA

AUTOR Luiz Gê

EDITORA Quadrinhos na Cia.

QUANTO R$ 39 (80 págs.)

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