Razões e desrazões da norma que se quer culta

O português falado no Brasil é, conforme se sabe, língua em que a fala e a escrita apresentam grandes discrepâncias. Basta que se atente para as intermináveis discussões havidas entre brasileiros e portugueses em busca de um ponto de vista comum que anulasse as diferenças de timbre e de grafia que separam cada vez mais os falares deste e daquele lado do Atlântico. O acordo ortográfico firmado em 1990 e já em prática no Brasil continua a esperar que os portugueses decidam adotá-lo. Mas as perspectivas parecem cada vez mais adversas a essa unanimidade.

Independentemente disso, a fala brasileira continua a se distanciar da escrita, principalmente da norma culta, tal como é praticada entre escritores, jornalistas, advogados, enfim entre pessoas que receberam uma educação regular e contínua. Há, porém, um grande contingente de brasileiros que não conseguiu seguir uma educação nos moldes referidos acima. Devido a essa lacuna, adotam práticas linguísticas distanciadas dos padrões normatizados. Como não poderia, num passe de mágica, trazer esses falantes para o padrão culto, o Ministério da Educação decidiu por abolir as diferenças que os separam da norma culta da língua decretando que todas as formas em uso estão corretas.

No centro da polêmica está a cartilha “Por uma vida melhor”, aprovada por uma comissão formada por professores da UFRN, os quais, à guisa de seguidores de Marcos Bagno, autor de um livro intitulado “Preconceito linguístico” considerou correta a forma: “os livro” e análogas, sob a alegação de que, em contrário praticaria preconceito linguístico, pouco importando que estivessem ideologizando um debate que cabe, sim, nas discussões acadêmicas e que tais, mas dificilmente se acomoda à moldura escolar.

Quem colocou essa questão em seus devidos termos foi o professor Evanildo Bechara, em entrevista que concedeu à Veja da semana que passou, e o articulista Gaudêncio Torquato, em seu artigo “A ‘espertocracia’ educacional”, nesta TN no domingo passado. Conforme disse o autor da “Moderna gramática portuguesa”, “ninguém de bom-senso discorda de que a expressão popular tem validade como forma de comunicação” […] mas “não apresenta vocabulário nem tampouco estrutura gramatical que permitam desenvolver ideias de maior complexidade ―tão caras a uma sociedade que almeja evoluir. Por isso, é óbvio que não cabe às escolas ensiná-la”.

Já o jornalista Gaudêncio Torquato desancou o que classificou de “espertocracia educacional” ao denunciar o equívoco de que, para melhorar a autoestima e ter uma vida melhor a população menos alfabetizada pode escrever como fala. Esse argumento, aliás, casa à perfeição com a análise do professor Bechara: fazer apologia da expressão popular é contribuir para perpetuar a segregação de classes pela língua, “pois é justamente o ensino da norma culta […] que ajuda na libertação dos menos favorecidos”.

Quando o professor Bechara soma à sua argumentação gramatical um segundo de natureza econômica, quer deixar claro que a questão da norma culta transcende os círculos linguísticos e toca as fronteiras do mundo do trabalho. Não é demais lembrar que, de uns tempos para cá se tornou impossível a alguém ascender a um emprego público ou fazer carreira no setor privado sem apresentar um bom conhecimento de língua portuguesa. Da mesma forma, carreiras que exijam diálogo e argumentação. Como advogados, jornalistas e… professores.

Por outro lado, é fácil ver que a questão da língua culta está ligada umbilicalmente à disponibilidade de boas escolas que a transmitam, ao lado de outros saberes fundamentais, renovando o código comum que identifica os diversos grupamentos linguísticos. Por que, ao invés de canonizar as formas populares, o MEC não desenvolve políticas visando à democratização ampla e irrestrita da educação o que, aliás, é tarefa sua? As expressões do tipo: “os livro, as cadeira” etc., nascem e crescem justamente onde a escola está ausente ou se revela despreparada para cumprir seu papel de educadora. O mais que houver, serão ideias tortas ou fora de lugar.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Alex de Souza 7 de junho de 2011 8:48

    Pra quem quer ter opinião própria sobre a questão, em vez de acompanhar a imprensa e os luminares da imortalidade, segue o link para o capítulo do livro.

    http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/V6Cap1.pdf

    Ah, esse papo já tá qualquer coisa, hein?

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