Razões para ler Machado de Assis

Por Ivan Maciel de Andrade
TRIBUNA DO NORTE

Quais as razões que podem levar alguém à leitura de Machado de Assis? O fato dele ser um clássico, no melhor sentido da palavra, ou seja, um escritor fundamental para a formação, desenvolvimento e consolidação de nossa literatura? Essa razão histórica, tanto quanto a afirmação bombástica de que se trata de um gênio reconhecido em toda sua plenitude e grandeza pela crítica nacional e estrangeira, criariam uma compulsoriedade, tornando sua leitura obrigatória. Mas essa honrosa característica de autor canônico não combina com Machado de Assis, conflita grave e incontornavelmente com o verdadeiro, demolidor, revolucionário significado da obra que ele construiu. Pode-se recorrer até a uma fórmula sintética: lê-se Machado pelas mesmas razões por que se lê Shakespeare – para se conhecer melhor os sentimentos mais íntimos, recônditos, essenciais do ser humano. Ou para devassar o que existe por trás da máscara afivelada pelas convenções sociais e, ao mesmo tempo, para compreender e interpretar o jogo de poder e de dominação socioeconômica, bem como os interesses históricos subterrâneos, que determinam o nascimento e o império dessas convenções. Talvez, a esta altura, surja para muitos uma dúvida? Tudo isso, por melhor que seja, faz de Machado um autor de leitura difícil, chata, desestimulante. Poderia responder dizendo que Joyce, Kafka, Proust, Thomas Mann, Faulkner e muitos outros gênios da literatura são escritores que nada têm de fácil, não podendo sua leitura servir de mero entretenimento, descomprometido passatempo.

Mas, com relação a Machado de Assis, devo lembrar que, mesmo para aqueles que viram o rosto – com indiferença ou tédio – para os romances geniais que ele escreveu na maturidade (de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ao “Memorial de Aires”), restam os contos publicados a partir de “Papéis avulsos” (1882). Os contos têm as mesmas qualidades estéticas das obras ficcionais longas e, no entanto, são de leitura bem mais acessível, descomplicada, de uma sedutora simplicidade. Muito embora se saiba que, por ser apenas aparente, essa simplicidade exige um esforço de percepção de sentidos ocultos, dissimulados e tortuosos, que estão muito abaixo da superfície dos fatos narrados.

Qual a opinião da crítica sobre Machado de Assis contista? Augusto Meyer: “Machado achou seu limite ideal de expressão no conto, em que só Anton Tchekhov pode emparelhar com ele”. Lúcia Miguel-Pereira: “Foi como contista que o escritor deu toda a sua medida”. O português Abel Barros Baptista: “O gosto da história breve é perfeitamente visível nos romances de Machado”. O inglês John Gledson: “Machado foi um dos melhores contistas da história da literatura brasileira, digno de comparação, em muitos momentos, aos maiores contistas de sua época – Tchekhov, Henry James ou Maupassant”. Luís Augusto Fischer: “Se só conto houvesse escrito, Machado já seria um escritor superior”. Por mais que valorizemos seus contos, não devemos esquecer, entretanto, que ele é autor de obras-primas – “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Quincas Borba”, “Dom Casmurro” – que merecem figurar certamente entre os melhores romances da literatura universal de todos os tempos.gerar paráfrafos

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