Re-lembrando uma tarde com Jácio

Jácio, sentado, na calçada do Cata Livros

Tarde quente de uma sexta feira, prenuncio daquele chope gelado para refrescar a semana que passou em cinzas. Milhares de livros queimados esperando a Fênix. Algumas mensagens sulcadas na marginália de tantos alfarrábios jamais serão recuperadas. O remorso por ter deixado aquele livro. Aquele disco. E os quadros de Assis Marinho? – Tantos pescadores e ceias magras!.

No meio daquela bagunça – só aparentemente – não tem nada de novo. Vou garimpando e encontro um livro sobre a minha querida Teresa de A´vila, com textos de Walter Migg e fotos de Helmuth Nils. O êxtase místico dessa mulher é a prova de algo para além de humano e físico. Só a arte consegue escorrer o mármore e nos levar ao sublime. Um anjo na transverberação transpassa o coração de Teresa com o dardo ardente do amor divino.
Encontro um outro livro da década de 50 em capa dura sobre a Teoria Atômica da Matéria do grande físico J. Leite Lopes. Colega que tive a oportunidade de conhecer e assistir conferencia. Tudo adverte e interessa. Vou enchendo a sexta e o sorriso do vendedor meu amigo.

Algumas pessoas eu vejo sempre. O galego que aparece todos os dias e conserta tudo. O rapaz calado que gosta de folhear as revistas, seleções e outros livros. Aquele homem que chega dizendo não conseguir concentração para ler |Proust ou filosofia.

O sebo é bom lugar para essas brechadas. A conversa se instala. Chega uma mulher para vender umas revistas e; conversa: – Fiquei doente de tanto trabalhar. Lecionava pela manhã, tarde e noite. Adoeci. O corpo não agüenta. De acordo!.

O meu amigo Jácio está meio lúgubre e quase vou embora com a sua conversa. Todo sebista é meio Helmuth! – Nietzsche nunca chorou, viu!

– João, será que a vida é só isso? Tudo é muito rápido, filosofa.

– Por isso, temos que deixar alguma coisa. Fazer algo antes de morrer.
– Você já fez, não é?

Sei não, meu amigo. Vou fazendo as coisas sem pensar muito.

A conversa esquenta mais, não bastasse o forno que está fazendo no mês de São José. Esses livros antigos que você gosta são muito carregado0s. Muitas vezes ouço vozes aqui dentro do sebo.

Devem ser os donos-mortos dos livros. Talvez se queixando da venda de seus livros acumulado durante tanto tempo, penso eu….já saindo para tomar meu chope. Tudo termina num livro e o livro termina num sebo. O fogo é inesperado.

A chuva não caiu e o arco-iris só vai parecer no outro dia. Irado, como diz o locutor dos surfistas. Vou embora impressionado com aquelas histórias. E agora, levo ou não os livros?

Ainda no bar, não me sai da cabeça aquela conversa do meu amigo. Não. Não sei se já fiz alguma coisa útil para deixar. Lembro do Bandeira e tomo mais um chope.

“Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . . ”

ps. Agora tudo apagado. Ainda não tive forças para passar no Cata-n livros da Xavier da \Silveira.

Receba meu abraço, amigo!

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