Reacionários lá e lô

Por François Silvestre

“Tolere-se, a bem da concisão, uma fórmula paradoxal: a morte do morto é a vida. Só há um modo de dominar o passado, reino das coisas fenecidas: abrir nossas veias e injetar seu sangue nas veias vazias dos mortos. Isto é o que não pode fazer o reacionário: tratar o passado como um modo de vida. Esta incapacidade de manter vivo o passado é o traço mais verdadeiramente reacionário”.

Não foi nenhum marxista quem disse isso. Nem Gramsci nem Erich Fromm. Não foi nenhum anarquista. Nem Proudhon nem Bakunin. (Nas Meditações do Quixote, de Ortega y Gasset).

Nunca o mundo foi tão reacionário. De tal forma que o opaco aposenta a luz. Há um dedo sujo em cada canto apontando sujeira no monturo do outro.

E o que menos há é a capacidade intelectiva de apontar rumos. Propor a reconstrução. Prevenir antes de reprimir.
E no meio desse tempo que enoja o mundo e o faz deselegante e insosso, pululam as honestidades medíocres ou a mediocridade honesta.

O que é um honesto medíocre? É aquele que, mesmo o sendo, faz dessa honestidade um trunfo e não uma obrigação. Esse tipo não reage quando acusado. Prefere bajular o acusador para atenuar a acusação. E ainda critica quem ousa “macular” a “superioridade intocável” dos acusadores.

Quem ousaria dizer que o Promotor Demóstenes Torres (FOTO), herói de capa da Veja, era reacionário ou ladrão? Um paladino da ética. Tal qual eram os próceres petistas, que só viam pureza nas próprias vísceras. Todo o resto era impuro.

A cada escândalo reprimido, um novo rombo aguarda vez na fila. Tem faltado repressão? Não. Falta prevenção.

Ocorre que a prevenção não motiva a mídia nem justifica as cavilosas remunerações. Na república dos concursos não há Quixotes, só Sanchos. Cada um governando sua ilha de vaidades.

Quem é reaça? O petismo cínico, que não faz autocrítica e ainda quer impedir a crítica. E também os que negam o petismo só pelo prazer de chutar o defunto. Reacionários lá e lô, como no dominó.

Descartes disse que a razão foi a única coisa bem distribuída, pois todos acham que a possuem de sobra.

O PT prometeu acabar o balcão da cultura e criou a cultura do balcão. A mais suja política de negociatas, que apagou a estrela da esperança. E quem se opõe está muito longe de ser o restaurador da esperança mutilada.

Há liberdade formal, política e de expressão; portanto não é ao passado que devamos voltar. Foram trágicos os momentos daquele tempo; na tortura, censura e morte. Mas houve beleza de candeeiros no meio da escuridão.

Hoje, vivemos o tempo livre da desconstrução. Cada lado, mesmo no pluriqueísmo, só quer a destruição do lado oposto. Lados heterogêneos, seguidores de Maniqueu.

Ninguém propõe a reconstrução do Brasil. As vozes do construir, afônicas, pedem-se nos ninhos inexistentes da “mãe da lua”. Té mais

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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