ENTREVISTA: Jorge Salomão, o poeta vermelho

Bom dessa entrevista foi que o email do próprio Jorge Salomão, dias depois, agradecendo a publicação, na edição de O Poti. “Ficou excelente”, disse o poeta. Confesso que temi enviar-lhe o material já publicado – a pedido dele. A classificação de porra-loca podia causar alguma sanha. Mas valeu. Fica uma ponta de inveja do poeta, feliz com tudo. Segue a entrevista:

Um poeta vermelho
Tem gente que tem o mundo como quintal. Nasceu pra fazer barulho, curtir até as dificuldades do cotidiano e viver como um… porra-louca, no melhor sentido da expressão. Parece coisa de baiano, que diz que não nasce, mas estréia. É assim com o multi-artista Jorge Salomão. Socialista convicto e agitador cultural, costuma seguir as letras do irmão Waly Salomão (1943 – 2003) e diz que também “não precisa de muito dinheiro, graças a Deus” – frase da célebre composição de Waly e Jards Macalé, ‘Vapor Barato’.

Jorge Salomão esteve no Encontro Natalense de Escritores (ENE). Trouxe o CD de poesias ‘Cru Tecnológico’ pra vender. O nome do CD representa mesmo a junção de conceitos e mídias. E, claro, o trabalho tem a assinatura do baiano e é totalmente fora do convencional. Traz um formato diferente de apresentar poesias (ou anti-poesias, como disse) com sonorizações que oferecem textura às palavras. O resultado são novas interpretações e sensações. Coisa nata da poesia, mas que agora recebe um empurrão da musicalidade.

E a música está na trajetória de Jorge Salomão. Ele tem composições gravadas por Barão Vermelho, Marina, Zizi Possi e outros grandes da MPB. Produziu cenários e capas de discos de Caetano Veloso, Lobão. A semelhança com o irmão Waly não está apenas na aparência física. Ambos participaram ativamente do movimento tropicalista na década de 70 e têm trabalhos consideráveis na música, nas artes plásticas e na literatura.

Aos 61 anos, Jorge Salomão ainda fala cantando. Talvez por já ter sido preso e torturado pela ditadura, se diz mais livre, mesmo sem ter muito dinheiro, “graças a Deus”. Encarna um pouco o jeito brasileiro: se há problemas, “deixa a vida me levar”. Se diz um malabarista da vida, em suas contradições e conceitos. Com ânsia de criança, ainda busca desvendar mistérios, sobretudo os da poesia e da música. Também de espírito jovial, ainda nutre o mesmo entusiasmo dos ideais estudantis socialistas que marcaram as décadas de 60 e 70.

Jorge Salomão concedeu a entrevista ao lado da deputada federal Fátima Bezerra. Ela esboçou sorriso leve quando o repórter perguntou ao entrevistado sobre o prazo de validade dos desejos de implantação do socialismo. O sorriso se alargou com a resposta do amigo Jorge: um dos “vermelhos” de uma época ainda presente na alma e nas palavras de Jorge Salomão.

Sérgio Vilar – O senhor trabalha com artes plásticas, música, poesia, ficção. Como faz para garimpar seu nome em cada segmento?
Jorge Salomão – Vejo tudo como um brinquedo, uma arte, um jogo. Eu detalho bem. Tenho uma capacidade de concentração ótima em qualquer trabalho. Já fiz cenários, capas de discos, poemas, livros, vídeos, o escambal. Acho que nos concentrando resolvemos o trabalho em si. Quanto à conceituação, sobre se você faz o quê, já deixei de lado isso. Eu me encontro como artista, um malabarista. Pra se viver no Brasil tem que ser malabarista. A arte manda no todo. Eu me concentro e detono.

Veríssimo perguntou a Zuenir qual profissão ele assinava no registro do hotel. Qual a sua?
Varia. Um dia boto uma coisa, outro boto outra. Gosto de brincar com os códigos. A burocracia oprime muito as pessoas. Com certa dose de humor vamos levando. Já coloquei tanta maluquice em recepção de hotel. Já botei que era bailarino, dançarino, malabarista. Enquanto há vida temos direito de exercitar o criativo ao excesso. O homem comum é travado. Não se interessa por exercer a liberdade e trabalha muito a dor. Os artistas trabalham mais o prazer.

Essa alegria é coisa de baiano, de artista ou um manifesto contra a intolerância?
Gostei da colocação. É, sim, um manifesto contra a sisudez. É uma coisa muito própria, desde criança. Também sou muito rebelde porque sou um lutador. Tudo que fiz até agora foi com muita luta. Agora, aos 61 anos, sinto-me mais livre. Não me preocupo com responsabilidades alheias. E as minhas são intrínsecas na minha alegria e na minha liberdade.

Como buscar a essência sendo contraditório?
O Walt Whitman, escritor americano e um dos meus ídolos, tem uma frase que me acompanha sempre: “Contradigo a mim mesmo porque sou vasto”. Temos o direito de exercer a liberdade.

Como inserir a poesia na música?
A poesia e a música são o máximo. O poema é igual a um parto. E a música, também. Eles coexistem por um acontecimento maior. Brotam de coisas que vão tomando a gente totalmente. São descobertas, conhecimentos. O pronto não interessa. O bom é o misterioso, a descoberta.

Qual o melhor intérprete?
Cada intérprete é o melhor em si. O bonito no ser humano são as diferenças. Tem gente que não tem voz nenhuma, mas tem uma preciosidade tão grande na expressão, no jeito.

O senhor já redescobriu uma poesia-música sua após gravada por outrem?
Sempre descobrimos coisas. Não podemos parar o ciclo das coisas. Gosto muito quando gravam coisa minha. Vou contar uma história: quando fiz a música ‘Noite’ – foi meu maior sucesso na voz de Zizi Possi e que me deu mais dinheiro – eu estava num momento super triste. Eu tinha me apaixonado por uma pessoa que não me deu a maior bola. Eu estava apaixonado e botei pra quebrar. E o bonito é o reflexo da música no sistema social da coisa. As pessoas me paravam na rua e diziam: “Ontem eu namorei tanto ouvindo aquela música”. É bacana isso. É o resultado de um trabalho criativo. Vira uma coisa independente da gente.

Poesia pode ser música e música pode ser poesia?
Acho que sim. São gêmeas, são irmãs, amantes. São próximas.

Seu irmão Wally Salomão (também poeta e compositor) escreveu em celebre canção que “não preciso de muito dinheiro, graças a Deus”. E o senhor?
Ninguém precisa de muito dinheiro pra criar, pra viver. Essa saga, essa coisa horrorosa de correr atrás de dinheiro o tempo todo é uma doença do homem; elimina o prazer, o gozar da existência. Conheço pessoas que têm muito dinheiro e são ocas. Não tenho muito dinheiro, mas vivo bastante. Minha felicidade é a do outro. Tenho uma mente socialista. Tenho 61 anos e me sinto um garoto.

Essa mente socialista tem prazo de validade?
Acho que dura pra sempre. É genético. Meu pai era assim. Minha mãe morreu ano passado com 96 anos e era uma mulher maravilhosa. Quem chegava lá em casa comia, andava, ficava. Eu gosto desse clima social. Minha casa é pequena, mas é aberta. Gosto de cultivar essa coisa de transformação do uno.

Gilberto Gil homenageou você com uma música e o chamou de Jeca Total, Jeca Tatu. Quem é Jorge Salomão?
Essa música nasceu de uma observação minha. Eu andava na rua do Neblon e caía uma chuva forte. Fiquei embaixo de uma marquise de cinema. Quando olhei pra cima passava um filme do Mazzaropi chamado Jeca Tatu. Nisso, vem correndo uma moça toda molhada. Era Sônia Braga. Depois, andei umas quatro quadras até a casa de Caetano (Veloso). Quando estou na sala sentado olhando a Sônia Braga na novela Gabriela e aquela cena de ela subindo o telhado, e aqueles quadris, eu falei: “Pô, esse Brasil é um jeca total”. O Caetano disse: “Essa frase é maravilhosa”. E contou pro Gil. Seis dias depois Gil chegou pra mim e disse que fez uma música que seria uma espécie de homenagem a mim. Tudo partiu de um acaso e ficou uma coisa legal.

E Jorge Salomão é fruto de acasos?
É tudo isso e uma pessoa concentrada. Gosto de estar em casa. Eu leio muito. Ouço muita música. Sou bem difícil, mas com coração mole. Gosto de ter amigos e compartilhar o que tenho com outros. Jorge Salomão é uma contradição em si. Mas uma contradição gostosa. Nunca estou próximo ao desespero. Gosto de acordar cedo e andar quilômetros, sempre com um caderno pra anotar detalhes.

Isso é coisa de cronista…
Ah, eu adoro observar. Nasci no interior do Brasil e quando fui pra Salvador estudar, tinha 11 anos, mas já tinha formação básica bacana. Eu lia muito. Eu e meu irmão sempre fomos muito agitadores. Não é à toa que éramos conhecidos como “os vermelhos”. Taí, acho que Jorge Salomão é um vermelho.

MÚSICAS DE JORGE SALOMÃO
NOITE
(Jorge Salomão e Nico Rezende)

Eu fico quieta, não canto
Penso, medito e me espanto
A vida dá voltas, mistérios
O que é que eu vou fazer?!
Sozinha num quarto fechado
Eu vejo a cidade ao longe
Procuro alguém que se esconde
Por onde começar?!
Noite, há horas te espero
E você não chega, ai meu coração!
Fogo aceso, corpo paixão
Sou toda explosão…

SUDOESTE
(Jorge Salomão e Adriana Calcanhoto)

..tenho por princípios
Nunca fechar portas
Mas como mantê-las abertas
O tempo todo
Se em certos dias o vento
Quer derrubar tudo?…

FÚRIA E FOLIA
(Jorge Salomão e Frejat)

Passeando pela cidade destruída bombas
Foram lançadas e tudo reduzido a pó
Na praça aberta sou um colar de livres pensamentos..
Quem quer comprar o jornal de ontem com notícias de anteontem?
Me chamo vento..me chamo vento…

SECO
(Jorge Salomão e Frejat)

Seco
Pareço um enxuto leito de rio
Sem chuva
Nem vegetação
Seco
Igual a carne seca
Fruta seca
Um som seco
Seco
Sem babados
DiretoDespojado
Informação seca
Como um canto
Sem acompanhamento
Com a goela seca
Seco
Batendo na terra
Buscando algo
Que não seja seco

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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