Reflexões em torno do Eu

Por Laurence Bittencourt

Não foi só com as razões que o coração desconhece que o filósofo Blaise Pascal se angustiou na aurora do mundo moderno.

É dele também a frase pergunta famosa: “O que é o Eu?”. Pascal não encontrou uma resposta satisfatória nos seus mergulhos interiores ao abandonar o mundo e entrar para o convento de Port Royal assumindo o cristianismo, porque sabia que o que chamamos de “eu” pode ser apenas uma máscara e não uma “realidade” puramente racional como queria Descartes.

Incrível que esta percepção do filósofo que inventou a primeira máquina de calcular, ou seja, Pascal, terminou encontrando eco no pensamento psicológico moderno através de Freud e em especial com Jacques Lacan. É na verdade Lacan quem irá problematizar essa idéia de um “eu” racional ou ideal como o lugar de uma máscara e mais ainda como um lugar imaginário, sede das repressões, preconceitos ou auto-repressões. Para o psicanalista francês, o ser humano na tentativa de querer captá-lo, isto é, captar um “eu”, termina por identificá-lo a uma imagem ideal fruto do olhar de um outro que julga ou seduz.

A idéia de um eu ideal é para Lacan uma construção inicial imaginária que nos aprisiona e nos mantem cativos. A tentativa de manter esse eu ideal na medida em que crescemos é também a busca por uma imagem de perfeição. Lacan em alguns textos admiráveis, sempre nos lembrou que toda uma teologia arcaica, do velho testamento judaico, se pautou por quebrar as imagens dos idólatras.

O judaísmo, bem diferente do cristianismo católico (o cristianismo luterano segue muito mais de perto os ensinamento judaicos) não cultiva imagens, e sim a fala para com o sagrado, o que é totalmente diferente. Lacan foi sensível em perceber na herança judaica o erguimento ou soerguimento da palavra como algo mais importante para a sanidade psíquica do que a idealização da imagem pessoal virtual.

Para o mestre francês só a palavra pode rasgar o véu do encantamento especular e ideal, fazendo surgir a verdade do sujeito. Pode até ser, como queria o suíço Jean Piaget, que no desenvolvimento do individuo a(s) imagens venham em primeiro plano. Mas será com o aparecimento da linguagem ou da palavra que o individuo pode ascender ao social, deixando sua marca no mundo, fazendo laços.

Para Lacan, bem entendido, se o homem toma a imagem de perfeição como o espaço mental e social a ser conquistado, isso poderá culminar com a idéia de uma imagem como o representante da lei. E a lei não pode ser colada a uma imagem. Quando isso prevalece temos, por exemplo, no campo político, o nascimento social de doutrinas totalitárias. Foi isso que ocorreu (e sempre pode ocorrer novamente) com o nazismo, o stalinismo, o maoismo, ou qualquer doutrina personalista em que uma imagem passa a ser a própria lei.

Nada se torna eficaz quando o individuo permanece ele mesmo cativo das imagens culturais ou miragens psicológicas asfixiadora. Toda teoria lacaniana se dará em torno da ruptura com o narcisismo, efetuando uma passagem para o logos, para a linguagem, único caminho que nos coloca na condição de falíveis e por isso mesmo humano. O “eu” de cada um não deve ser adaptativo, pregou Lacan, e sim, ser o espaço por onde o desejo consegue encontrar vida e voz. O que também em política, pode ser caracterizado muito bem como um gesto de cidadania. Um bom caminho para um país como para o individuo.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Laurence Bittencourt 7 de maio de 2011 17:24

    Obrigado Danclads e parabéns pelos seus acréscimos.

    Laurence

  2. Danclads Lins de Andrade 7 de maio de 2011 16:03

    O culto à imagem na seara política é anterior às teorias personalistas do século XX. Os egípcios, principalmente na época de Akhenaton, criou monumentos que retratavam as glórias do Egito. Na Pérsia, Ciro fez a mesmíssima coisa. E muito antes os pré-históricos relatavam as conquistas da vida quotidiana (matar um mamute, por exemplo) em suas pinturas rupestres.

    As imagens entranharam-se, pois, desde sempre, na vida social e, quase por osmose,na vida particular de tal maneira que a ruptura do indivíduo para com a imagem é uma tarefa árdua. A independência do “eu” em relação aos padrões culturais vigentes requer do indivíduo uma consciência maior do que o mero senso comum, uma consciência de si.

    Talvez seja mais fácil romper com a imagem na seara social do que na seara individual. Exemplos históricos disso são: a questão iconoclasta ocorrida em 1054, fato que originou o cristianismo ortodoxo; a queda do nazismo; a queda do comunismo, etc…

    A imagem e a educação terminam por colocar obstáculos a que o indivíduo exerça (ou melhor: saiba exercer) o seu “eu”, para que possa por em prática os meios de realização dos seus desejos.

    Laurence, parabéns pela abordagem deste tema que é atualíssimo.

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