Refratário

Ainda menino, essa palavra me atraía pela sonoridade e ausência do seu sentido. Ela punha-se estampada nas caixinhas de fósforos, da Fiat Lux ou Luminar, na seguinte frase: “Refratário à umidade”.

A mim, o significado não era o verdadeiro. Eu imaginava que “refratário” fosse como se assim dissesse: “evite a umidade”. E não “resistente a”… Posto que ainda criança, já dera pra notar que o fósforo úmido não produzia a chama.

Mas o anúncio queria dizer exatamente o inverso, isto é, que podia molhar e mesmo assim o bicho riscava. É que na minha inocência eu ainda demoraria a descobrir que nascera num país refratário à verdade.

Digo inocência porque é condição de criança. Ignorante eu só vim a ser muito depois, que é condição de adulto.

Assis Châteaubriant, criador e dono dos Diários Associados, tentou conquistar a conta publicitária de uma dessas empresas que produziam os palitinhos de fósforos. Não deram bola pra ele.

O Velho Capitão era rancoroso e vingativo. Num dia qualquer, na Redação de um dos seus jornais, ele ouviu um empregado comentando que nas caixinhas de fósforos, além do “refratário”, havia a informação de que continham cinquenta palitos.  E que, informava o rapaz, ao contar os palitos, nunca encontrara os cinquenta. Havia sempre menos, e vez ou outra, até mais. Mas só raramente havia os “cinquenta” informados.

O que fez Châteaubriant? Mandou comprar várias caixinhas de fósforos e determinou que parassem os serviços de impressão, dedicando todos à contagem dos palitos. Não deu outra. Não havia cinquenta palitos. Aí foi um alvoroço. Político e social. As redações dos Diários Associados, do país todo, passaram a contar os palitinhos. Foi assunto nacional. Todo mundo de todos os lugares, também contando, e constatando a mentira.

A empresa fez o quê? Agiu brasileiramente. Contratou os serviços publicitários dos Diários Associados, ao valor estipulado pelo Velho Capitão, e pôs na caixinha: “contém aproximadamente quarenta e cinco palitos”.

Ambos os lados satisfeitos, como se diz, o assunto morreu. E o consumidor? Ficou como sempre esteve: enganado. Entenda-se aqui consumidor como sinônimo de eleitor, contribuinte. E se for mulher, contribuinta. Pois o Brasil também é refratário à boa linguagem. Ou se perde na viagem da palavra, da larva no casulo, da prosa de Everton Dantas.

Nariz de cera, pra não dizer outra coisa, do órgão excretor, aqui, na cara do palhaço, que eu sou, fico ouvindo o poder falar de reformas e diálogo.

A Constituição diz fundar-se na “dignidade da pessoa humana”. Mentira! Todos os direitos e garantias contidos na Constituição, refratária à cidadania, são de ficção. Palavras defuntas. Fosse vivo Châteaubriant e mandasse contar nossos direitos, nem os aproximados quarenta e cinco palitinhos seriam encontrados.

Este é o Brasil. Refratário à honestidade. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 9 de novembro de 2014 15:46

    Na nuca! É isso aí, mestre!

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