Relato de um náufrago: a história real de um personagem mágico

O jornalista é um contador de histórias.

Algumas vezes, como testemunha ocular da história, as encontra por acaso.

Em outras, é a história, com uma junção de destino e escolha certa, quem elege o jornalista.

Quando Luis Alejandro Velasco entrou na redação do jornal “El Espectador”, em Bogotá, perguntando quanto o jornal pagaria para ele relatar a verdadeira versão sobre a queda de oito tripulantes da marinha de guerra colombiana no mar do Caribe, em fevereiro de 1955, foi a história quem buscou o jornalista.

E o encontrou.

O repórter, com menos de 30 anos, já tinha buscado esta história tentando dar outro viés ao original contado pelo sobrevivente ao naufrágio e pelos militares que governavam a Colômbia, em regime militar.

O náufrago, transformado em herói, acabava de se apresentar.

Gabriel Garcia Marquez.Las Ramblas, Barcelona 1970
Gabriel Garcia Marquez em Las Ramblas, Barcelona, 1970; o escritor colombiano escrevia no jornal El Espectador (desde 1954), de Bogotá, como repórter e crítico, ao saber da história do único sobrevivente de uma tragédia no mar

O jornalista era Gabriel García Márquez.

Ao oferecer seu relato por um pagamento do jornal, Velasco recebeu a negativa como resposta e voltou por onde entrou.

Porém, um jornalista sabe quando está diante de uma história comovedora e ruidosa.

Àquela altura, “tudo” se sabia da queda dos oito marinheiros, mas aquele sentimento que corrói a alma de um repórter quando está diante da história que esperou por muito tempo, é e foi mais forte.

O que alguns chamam de “faro jornalístico”, nada mais é o que as mulheres chamam de “sexto sentido”.

Eu e alguns preferimos dizer somente que é o instinto e a sensibilidade.

E isso não se ensina.

“Aquele rastro esgotador havia de nos conduzir a uma nova aventura que causou um certo reboliço no país, que a ele custou sua glória e sua carreira e que a mim quase pôde custar minha pele. A Colômbia estava então sobre a ditadura militar e folclórica do general Gustavo Rojas Pinilla (…) A imprensa estava censurada, e o problema diário dos jornais de oposição era encontrar assuntos sem genes políticos para entreter aos leitores. No “El Espectador” os encargados desse honorável trabalho de padeiro éramos Guilherme Cano, diretor; José Salgar, chefe de redação, e eu, repórter. Nenhum tinha mais de 30 anos”, contou Gabriel García Márquez.

Aquele relato, publicado em 14 edições seguidas do jornal ‘El Espectador’, escrito em primeira pessoa e assinado por Velasco em comum acordo com García Márquez, foi publicado 15 anos depois em livro, quando foi reconhecida a verdadeira autoria daquele relato magistral do homem que, em um pequeno bote, ficou dez dias à deriva no mar do Caribe, sem beber água e nem comer, alçado pelo regime militar a herói e garoto propaganda.

“Havia sido condecorado, havia feito discursos patrióticos pela rádio, lhe mostraram na televisão como exemplo das gerações futuras, e o passearam entre flores e música por meio país para que assinasse autógrafos e lhe beijassem as rainhas da beleza”, conta García Márquez na introdução do livro, edição de 1970.

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Relato de um Náufrago é considerado por muitos como primeiro romance de Garcia Marquez, Prêmio Nobel de Literatura em 1982; narrativa conta a história verídica do naufrágio de Luis Alejandro Velasco

A série de reportagem causou alvoroço entre os leitores.

O ‘Espectador’ duplicou a tiragem e os leituras faziam fila na entrada do jornal para comprar as edições anteriores e conservá-las no original.

Em princípio, os relatos alegraram o governo, porque imortalizava, através da imprensa de oposição, a formação de um herói nacional e exemplo de homem e militar, com perseverança e uma vontade imensa de viver.

Porém os problemas vieram depois de algumas edições do relato.

García Márquez tomou o testemunho do náufrago, único sobrevivente entre os oito que caíram no mar, em 20 sessões de seis horas diárias.

Aí aparece o Gabo jornalista, verificando fatos e tentando armar contradições do discurso de Velasco.

Afinal, 80% do trabalho jornalístico se resume à verificação, ainda mais no caso de uma história fantástica, digna do realismo mágico.

“Em 20 sessões de seis horas, durante as quais eu tomava nota e soltava perguntas trapaceiras para detectar suas contradições, alcançamos reconstruir o relato compacto e verídico dos seus dez dias no mar”, afirmou o autor de ‘cem anos de solidão’.

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História do sobrevivente do naufrágio no Mar do Caribe foi publicada, inicialmente, em 14 reportagens do El Espectador, da Colombia

A história

O buque “Caldas”, da marinha colombiana, saiu de Mobile, Alabama, Estados Unidos, em fevereiro de 1955, depois de oito meses fundeado para reparo.

O relato começa descrevendo os companheiros de Alejandro Velasco, em uma reconstrução exata e literal à noite anterior vivida pela tripulação.

A ditadura revelou que havia uma tormenta no dia em que os oito tripulantes caíram ao mar.

Porém, em fevereiro é tradicional a calmaria no mar do Caribe, e os institutos de meteorologia confirmaram isso.

O “Caldas” estava sobre carregado e o peso da embarcação foi a responsável pelo não retorno da mesma para resgatar os marinheiros.

Além disso, havia alguns contêineres soltos e ventava forte, o que levou a carga a deslizar e desequilibrar a embarcação.

E, assim, oito marinheiros que estavam no convés foram lançados ao mar.

A revelação de Alejandro Velasco, novidade até aquele momento, causou a inquietude do governo de Pinilla, sem que este evitasse a publicação dos relatos até o seu final.

Tentou, é verdade, subornar o marinheiro, coagir o jornal e os jornalistas.

Velasco mesmo com a ameaça de expulsão da marinha colombiana, fato que aconteceu posteriormente, manteve a versão dos fatos.

O governo e todo seu aparato tentou desmentir e desqualificar o sobrevivente e a publicação.

Não conseguiu.

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“Em 20 sessões de seis horas, durante as quais eu tomava nota e soltava perguntas trapaceiras para detectar suas contradições, alcançamos reconstruir o relato compacto e verídico dos seus dez dias no mar”, disse Gabo

De acordo com García Márquez, aquela revelação continha três problemas.

Um: era proibido transportar carga em um buque militar; dois: foi o sobrepeso da embarcação que impediu a manobra para resgatar os náufragos, e três: a carga era de contrabando: geladeiras, televisões, lavadoras.

“Estava claro que o relato, como o buque, levava também uma má amarrada carga política e moral que não havíamos previsto”.

Ossos do ofício.

Ao final das quatorze edições consecutivas, o “El Espectador” deu o golpe final na mentira do governo e do conto conhecido até então.

Foi feita uma edição especial com as fotos dos equipamentos contrabandeados tiradas pelos marinheiros, e compradas pelo jornal.

A ditadura havia negado e posto em dúvida o relato do sobrevivente.

O governo acusou o golpe e tomou diversas medidas contra o jornal, até fechá-lo.

A ditadura caiu, mas o regime colombiano seguiu melhor vestido, mas igual de injusto, nas palavras do autor.

Alejandro Velasco caiu no anonimato, expulso da marinha, foi encontrado anos depois trabalhando em um escritório de uma empresa de ônibus.

García Márquez ganhou o exílio como “prêmio” por seu trabalho, precisão e relato.

“Eu iniciava em Paris este exilio errante e um pouco nostálgico que tanto se parece também a uma balsa à deriva”.

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Livro é desprezado por cursos de jornalismo no Brasil e no exterior

Aula de jornalismo

O livro Relato de Náufrago devia ser obrigatório na grade curricular em todos os cursos de Jornalismo do mundo, especialmente no Brasil, cujo modelo estandardizado pelo jornalismo americano não tem a mesma qualidade.

Tal qual O velho e o mar, de Ernest Hemingway, o texto realça a força de vontade de viver, a solidão de marinheiro ou pescador no meio do mar; a fome e a sede insuportáveis que acompanham o protagonista da história – e você, ao ler o Relato.

Quando o li, fazia frio em Madri, e eu sentia calor.

Bebia água de maneira incessante.

Parecia que eu tinha comido bacalhau sem ser dessalgado.

Em uma das passagens, Alejandro bebe água do mar.

Quando ele consegue capturar um peixe e arrancar sua pele com os dentes, o gosto salgado e de escama estão na boca do leitor que de um tiro só conclui o relato.

Já comeu couro de sapato? Não? Nem eu.

Gabriel Garcia Marquez_EL Espectador
Jornal tem 129 anos, o mais antigo em circulação na Colômbia

Quando Alejandro tentar comer o seu, você vai provar o gosto de couro seco torrado pelo sol e salgado na boca.

O gosto não é bom.

A humanidade da obra está na força de vontade de viver que acompanha personagens marcantes da vida real, como Władysław Szpilman, em “O pianista” por exemplo.

“Meu heroísmo consistiu em não deixar-me morrer”, afirmou o náufrago.

Suas agonias e seus pensamentos viram os seus.

A sua fé e esforço para não cair ao mar já desidratado e sem forças, o que poderia lhe custar a vida, e quase custou e requereu um esforço sobre humano, será o seu esforço.

Para mim, Relato de um Náufrago é um dos melhores textos de García Márquez.

Uma aula de jornalismo em 60 páginas que devem ser exploradas por profissionais e principalmente estudantes, assim como Crônica de uma morte anunciada e seu lead métrico, certeiro e poético.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ Ver todos os artigos ]

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