Relato de um parto: Ernesto vive!

Dia 05 deste maio, eu e Carol saíamos do hall dos elevadores aqui do prédio, na hora em que uma moradora falastrona nos abordou:

“Mulher, que barrigão! E vai parir onde, agora que o Papi fechou?”.

A figura de voz rouca, sempre no volume máximo, vez ou outra, fica por ali, de olho na vida alheia, língua frouxa para funcionários e vizinhos en passant, desesperada para preencher o vazio que a tortura nos fins de tarde.

Creio que a saúde debilitada seja o motivo de seu sumiço, nos últimos tempos.

Mas naquele dia ela estava boazinha da silva, mais ferina do que colunista social contrariado ao pedir ajuda para um regabofe.

O tom simulava preocupação verdadeira.

Algo entre “Pois é” e “Vamos ver”, foi a resposta de Carol, na véspera de completar a 40ª semana de gestação.

Para mim, aquele instante representou muito, mal sabe a medonha.

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Fotografias: Anna Jessy

Assim como uma mensagem de uma sujeita num desses grupos do Whatsapp que participamos sem saber direito por quê – ela reproduziu a lenda do tema Flor de Lis, de Djavan, na qual ele teria escrito a letra ao perder mulher e filho durante um parto.

Tudo desmentido pelo músico alagoano.

Brinquei no grupo ao dizer que seria a canção de ninar de Ernesto, mas a pulga e o percevejo coçaram minha orelha.

Qual o motivo da postagem?

Ela sabia que queríamos a coisa o mais natural possível – pelo menos em um hospital.

Alias, as duas inconvenientes pareciam adivinhar o que tínhamos decidido cerca de dois meses antes: termos nosso filho, Ernesto, em casa, em um parto humanizado.

O anuncio da suspensão do atendimento em um dos locais onde mais se realizam cesáreas no Rio Grande do Norte tinha sido no dia anterior ao encontro com a futriqueira do edifício – desfeito 48h depois, após negociação do hospital privado com um grupo empresarial.

Mais um emblema rubro da vergonha para a rede de assistência médica potiguar, seja pública ou privada.

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Sem preparação psicológica, através de leituras, encontros com gestantes e seções de terapia com uma doula, eu teria amarelado na hora do parto, como quase todo mundo acostumado a fugir da dor

Desde o começo do pré-natal, sentimos dificuldade com as três médicas procuradas.

A primeira, por trabalhar em regime de total desrespeito com pacientes, naquele velho esquema de ‘ordem de chegada’ que faz você esperar seis, oito horas por uma consulta de cinco minutos.

Minha vontade era perguntar para a sujeita se ela, e os demais que adotam a prática, tem essa paciência em seu cotidiano fora da clínica.

A segunda, Dr. Stênia Lins, um doce de pessoa e sincera como deve ser, nos alertou para dificuldades que enfrentaríamos em um parto natural em um hospital, todas de ordem estrutural e logística.

Ela estava com viagem marcada durante o provável período do parto.

Já a terceira foi quem nos acompanhou durante o pré-natal – evito citar o nome por ser amiga de uma pessoa próxima, esta de uma indelicadeza atroz, ao vir em nossa casa no dia seguinte ao nascimento de Ernesto, e também dois dias depois, armada até os dentes para demonstrar sua discordância quanto ao parto humanizado, domiciliar.

Desconfiávamos que a rejeição à ideia fosse grande, por isso optamos guardar silêncio até de familiares, pois qualquer ansiedade poderia jogar tudo por água abaixo.

Dizem que alimentar mágoa é dos piores venenos.

Concordo.

Nesta introdução alongada de uma publicação com jeitão de selfie, no entanto, quis revelar alguns dos perrengues que enfrentei nas últimas semanas, antes de ser pai de um menino.

Talvez sirva para curiosos por algo tão importante, algo criado pela própria natureza – ou por Deus, como sugerem cristãos.

Fica o registro.

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Doula paraense radicada em Natal, Nicole Passos acompanhou Carol meses antes e foi fundamental com seu conhecimento em naturoterapia para o parto humanizado

Preparação

Antes que desavisados atirem pedras, digo que moro a três minutos da Promater, nosso refugio, caso Carol precisasse de uma intervenção cirúrgica.

Em todas as monitoragens e ultrassonografias (cinco, só no último mês) a saúde da mãe e do bebê estavam em perfeitas condições.

Então, pensamos: por que enfrentar o terror psicológico de parir de forma natural diante de meia dúzia de estranhos, com pressão para adiantar o processo de dilatação do colo do útero, quase sempre sob efeito de ocitocina sintética e anestesia, ou uso do fórceps (ferramenta medieval), se poderíamos tentar em casa, em meio a amigos, com nossos cheiros, recantos e maior folga no tempo para tudo acontecer numa sequência tranquila?

Sabe-se que numa cesárea a mulher perde três vezes mais sangue, se expõe ao risco de infecção hospitalar, passa por uma recuperação pós-parto mais lenta, dolorida, além de uma série de violências obstétricas quase criminosas.

A morbidade é duas vezes maior em uma cesárea do que em um parto natural e casos de insuficiência respiratória também são mais frequentes, pois, na maioria das vezes, os bebês precisariam de alguns dias ou semanas a mais para estarem prontos.

Como o Substantivo Plural foca na cultura, paro por aqui a listagem de benefícios e malefícios das duas práticas.

Para tudo sair da melhor maneira possível, buscamos duas profissionais capacitadas, ambas retratadas aqui neste portal.

Meses atrás, iniciamos conversas e seções terapêuticas com Nicole Passos, uma doula paraense com formação superior em naturoterapia – grosso modo, uma especialista em medicina oriental, yoga, aromaterapia e psicologia, fundamental na preparação física e emocional da mãe.

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Parteira tradicional Anamaria Valcácia, a Donana, veio de São Gonçalo do Amarante com seus 47 anos de experiência em partos naturais, muitos em condições precárias, para fazer mágica na hora da fase expulsiva, além de descontrair ambiente com sua simpatia

A outra profissional envolvida foi Anamaria Valcácio, a Donana, parteira tradicional de São Gonçalo do Amarante com 47 anos de experiência em partos naturais. Uma mulher destemida, com vasto conhecimento da fisiologia feminina e segurança típica de quem já partejou em condições precárias em distritos e comunidades remotas.

Jamais houve morte ou sequelas com mães e recém-nascidos sob seus cuidados, após gestações tranquilas – como a de Carol, cuja pressão arterial correu 10-7 da primeira a última aferição. Raríssimas vezes ela precisou encaminhar a parturiente para uma cesárea.

Ao lado de Nicole e Donana, as amigas e jornalistas Rebeca Correia e Anna Jéssica, esta mãe da pequena Maya, nascida há três anos em um parto normal no supracitado Papi.

Foi a equipe armada para nos acompanhar na chegada de Ernesto.

Dia D

Eram 04h20 da última terça-feira (10).

Carol me acordou entre tensa e sorridente, disse que o tampão caiu e que sentia cólicas diferentes.

Levantei sobressaltado e logo minha mente resgatou episódios dos meses de preparação.

“Chegou a hora”, pensei.

Foram meses de leitura (livros, teses acadêmicas, portais sobre o tema), conversas com outras mulheres que tiveram filhos da mesma forma, participação em rodas de gestantes.

Posso dizer que Carol fez uma especialização em parto humanizado.

E isso me ajudou a manter a tranquilidade na hora do trabalho de parto, sobretudo em sua terceira e crucial fase expulsiva.

Nós, homens, de modo geral, ficamos alheios ao processo de gestação e entramos na onda generalizada de entregar o controle nas mãos de um médico – como algo ‘moderno’, do século XXI.

Fugimos da dor como o Diabo foge da cruz, e apoiamos a companheira que resolve seguir pelo mesmo caminho.

Da madrugada até o pulo do gato que Ernesto deu para a vida, foram 14 horas de sorrisos, angustias, incertezas e um sentimento de plenitude que até agora circula em meus pensamentos.

Nossa filha do meio, Lis, nove anos, viu tudo – a mais velha, Ana Beatriz, a Bia, com 16, preferiu evitar.

Fogos de artifício espocavam, gritos de “Não vai ter golpe” ecoavam lá embaixo na avenida, e um grupo de pessoas concentrado em trazer Ernesto ao mundo estava reunido em volta de uma piscina inflável, montada na sala de estar.

Ainda brinquei ao dizer que ele nasceria no instante em que os contrários ao impeachment passassem aqui em frente.

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Após nove horas de trabalho de parto, meses com medo da zika, Ernesto nasceu com 3,4kg e 54cm, quase na hora em que os contrários ao impeachment passavam em frente a nossa casa

Errei por pouco – simbologia demais para quem tem o primeiro nome de um líder revolucionário latino-americano.

A valentia de Carol, minha baixinha Carol, neta de Severina que pariu 17 dentro de casa, foi determinante.

Em um dado momento, cansada em meio à luta contra a dor, falou:

“Eu não aguento mais”.

Ela tinha me pedido várias vezes que, se chegasse a esse ponto, eu segurasse a onda e a incentivasse a continuar.

Foi o que fizemos todos, já em nosso quarto, em nossa cama, para explodirmos em um choro coletivo ao vermos Ernesto sadio e a mãe em êxtase.

Releve esta nota íntima, tão pessoal, caro leitor, se o assunto lhe desinteressa.

Talvez quem acompanhe o Substantivo Plural mais de perto tenha percebido minha ausência, nas últimas três, quatro semanas.

Eu precisava largar tudo e me entregar por inteiro ao plano traçado junto com minha companheira Carol meses antes, sob pena de sucumbir diante de uma cena tão intensa.

Temos ciência de que fizemos a escolha certa.

Fomos acompanhados por profissionais únicas, que souberam explorar a bravura de Carol e ratificar nosso desejo sobre a melhor maneira de um ser humano nascer.

Encerro este relato com um sentimento de gratidão e atento à militância feminina para diversas causas, dentre elas, a do parto humanizado.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 7 comments for this article
  1. Virgo 15 de Maio de 2016 20:27

    chorei! incrível

  2. viviane medeiros 15 de Maio de 2016 21:07

    Chorando. Parabéns Conrado e dá um beijo em Carolzinha! E um cheiro no cucuruto de Ernesto.

  3. Alessandra Bernardo 15 de Maio de 2016 21:37

    Que lindo, Conrado. E que maravilha ver um homem envolvido e comprometido com o parto natural humanizado. Parabéns a todos e a Carol, que deu esse presente ao Ernesto. Também pari o mais natural possível, mas no Papi.

  4. Conrado Carlos
    Conrado Carlos 15 de Maio de 2016 22:25

    Oi, Alessandra! Realmente, como casal, beira a sacanagem deixar a mulher tocar a situação sozinha. Sem contar que o cara fica muito mais nervoso e propenso a sugerir desistência, achando que algo dará errado. Parabéns também pelo parto. Abraço!

  5. Conrado Carlos
    Conrado Carlos 15 de Maio de 2016 22:26

    Obrigado, Vivi! Darei, sim, pode deixar…rs. Abraço!

  6. Ariadne Lima 16 de Maio de 2016 0:17

    Carol, parabéns pela família que cresce… E por deixar a natureza agir neste momento! O papai também merece todo apreço, pois chegou junto segurou as rédeas.

    Nosso corpo foi feito para isso… É natural!

    Beijos e abraços a família .

    Att,

    Ariadne Lima

  7. Daysi 17 de Maio de 2016 23:09

    Lindo relato, experiência ainda mais linda e profunda, daquelas de carregar vida afora. Parabéns e que Ernesto seja sempre guiado pela Luz e pelo Amor. Tenha muita saúde e que toda a familia, seja muito feliz. Precisamos de mais pessoas como vocês neste mundo!

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