Relembranças

Apesar do medo e do cansaço, a vida segue. Tem horas de tanto cansaço, de ele ser tão intenso, que dá medo de entronizar o senhor cansaço. Não gosto de me dar o direito de cansar. Como um poema muitas vezes fustigado, também eu limei as unhas, aparei arestas, arranquei adornos e rompi com a segurança do politicamente correto. Como um poema sem acolhida, fiquei à intempérie. Como um poema perjuro, e todo poema é perjuro, neguei a ti três mil vezes, fragilidade. Não te dei nome, porque não se nomeia o pecado. O pecado fica, oleoso e amorfo, dentro. Não tem nome. Mas, como uma rêmora, eu me apeguei a ti, aproveito os teus restos, as tuas involuntárias doações.
Ah, fragilidade… Neste momento há um filho chorando a morte de sua mãe, e isso, que é tão grande, não é nada diante da mãe chorando a morte do seu filho. E neste instante, chora uma mãe a morte de seu filho. És tão grande, fragilidade!
Hoje eu abri todas as portas, mas não como Fernando Pessoa. Não por força eu haveria de passar*. Eu as abri por necessidade alheia, havia pessoas na casa que precisavam passar coisas por elas; porém no dia em que abri as portas, percebi uma proximidade maior nas pessoas da rua. É como se uma espécie de intimidade se formasse repentinamente, embora a intimidade tenha natureza demorada.
O carroceiro passou, olhando o movimento de móveis e gente. O carteiro fez mais: veio varanda adentro, veio à sombra, seu sorriso pedindo licença para abrigar-se um minuto. O entregador de marmitas também colocou a moto na garagem.
No geral, tenho medo de estranhos e de assaltos. Por isso, não abro portas, a não ser quando chega alguém e se identifica. Mas nesse dia de portas abertas, deu-me uma saudade de outros dias, quando não havia medo nenhum de abrir as portas.
Há muitos anos minha casa era outra e era aberta constantemente e constantemente inundada de sol e de gente. Entravam pessoas o tempo todo e tão acostumados estavam a entrar sem bater que até pareciam moradores. Frequentadores diários, faziam parte da rotina da casa. Ajudavam a manter a personalidade coletiva do meu lar, doce lar.
Havia os ajudantes e os agregados dos ajudantes. Havia os vizinhos. Havia os amigos dos meninos. Havia também a vendedora de tudo. Essa arranjava coisas para vender e vinha à nossa casa. Não é que precisássemos dos seus produtos, mas ela precisava vender, então, inventávamos alguma necessidade. Uma vez veio vender limões, dentro de saco que tinha de ser esvaziado para ela colocar mais produtos. No momento, não havia vasilhas à vista e ela não contou conversa: deu de garra do cesto de papéis do banheiro, que no momento estava vazio, e se não fosse a agilidade de mamãe, os limões seriam jogados lá dentro. E ainda justificou: o cesto estava lavadinho.
Havia o vizinho que todos os dias, às cinco da manhã, vinha tomar o café coado por mamãe. Muito pouca gente batia à porta, naquele tempo e naquela casa. A maioria entrava, e só víamos quando estava dentro, já bem acomodada em cadeiras e corredores.
Hoje, deu-me uma saudade do impensável. Deixar portas abertas, para que gente entrasse, de um jeito farto, como só o sol pode.

* O poema a que aludi é “Saudação a Walt Whitmann”, da “pessoa” Álvaro de Campos.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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