Relembrando o escritor gaúcho Vianna Moog

– O Conceito de raça e a diferenciação BRASIL – EUA
Qual a razão do nosso atraso?

O escritor Vianna Moog ainda é pouco conhecido no Brasil. Gosto muito dele e um dos seus livros que mais aprecio é o excelente “ Heróis da Decadência”, um belo estudo sobre tres grandes e eternos humoristas: Petrônio, Cervantes e Rabelais.

Gosto mais do Moog ensaista que do romancista. Um grande escritor sem dúvida.

Com ele se deslumbrou Monteiro Lobato. Diz Lobato em carta de 1938, endereçada a Moog: “ nem sempre esconder o leite dá certo – e enquanto estive aí você egoisticamente escondeu o leite. Só aqui, ontem, domingo, descobri o seu valor. Bandido!”

Um homem de uma cultura européia e cosmopolita. Seu livro Eça de Queiroz e o Século XIX é maravilhoso. Também se deixou contaminar pelo Ulisses e escreveu “ Uma Jangada para Ulisses”. Em Bandeirantes e Pioneiros ele traça um paralelo entre a Cultura Brasileira e Americana. Uma crítica não impressionista como era costume em seu tempo. Um país dominado pelo catolicismo ( Brasil) e o outro pelo protestantismo ( EUA).

No Brasil, a luxúria e a cobiça levaram o país a uma vil tristeza (ver a tese do Paulo Pardo em Retratos do Brasil). Os portugueses ao propagarem e espalharem a fé cristã estavam mais interessados na cobiça. O contraponto às grandes navegações é dado pelo Velho do Restelo em os Lusíadas: Oh glória de mandar, ó vã cobiça… A colonização portuguesa no Brasil, apesar dessa grande herança dos grandes descobrimentos, foi uma colonização predatória. O livro não podia ser impresso no Brasil e ele só começou a ser impresso no Brasil no início do século XIX.

A tese da raça também é muita defendida por alguns historiadores, como é o caso do Oliveira Viana. O Brasil foi colonizado por portugueses enquanto os Estados Unidos foram conquistados pelos anglo-saxões. A tese arianista da mestiçagem brasileira é combatida por Moog. Tese muito presente em outros pensadores brasileiros da época. Tese que para mim não se sustenta e contra a qual combato veementemente. Os ibéricos quando nos conquistaram eram uma grande civilização. Os donos dos mares e de um grande conhecimento científico e náutico.
Os Lusíadas, de Camões, e o Dom Quixote, de Cervantes são os livros mais importantes para a nossa genealogia cultural e literária. Dois livros que participam pari e passo do grande concerto literário mundial e são orgulhos da raça. Portanto, não concordo com essa herança maldita par droit de conquête et par droit de naissance.

Além de não acreditarmos em dogmas da pureza racial, recusamo-nos a aceitar a interpretação das diferenças de civilização nos vários países na base unilateral das diferenças étnicas. A antropogeografia pode muito mais do que a etnografia (Bandeirantes e Pioneiros, pp 65 Obras VM Ed. Delta 1966).
A Orografia, a potamografia, a geologia, o clima, são considerados por Vianna, mas não são determinantes para diferenciar as duas civilizações. Papel mais relevante desempenha a religião. Com Calvino é que a história do capitalismo toma corpo e alento. Com Calvino é que os camelos começam a passar pelo fundo da agulha (sic). O Calvinismo e protestantismo casam perfeitamente com o capitalismo ( ver Max Weber).
O livro do sr Moog coloca alguns elementos pertinentes na diferenciação entre essas duas civilizações. Um debate que está longe de ser concluído e que ajuda muito na compreensão da nossa herança cultural e científica. Para terminar o seu brilhante livro, Vianna Moog lembra da figura emblemática do Aleijadinho. Um artista absolutamente genial e único. Um artista dos tristes tópicos. Concordo com o Darcy Ribeiro que essa mistura, miscigenação de raças pode dar uma grande civilização em um futuro próximo.
Embora eles sejam mais horizontais geograficamente, nós temos menos terremotos e tufões. A natureza é menos severa conosco. E melhor, não temos o ódio de boa parte da humanidade.
Desculpe brevidade desses comentários, mas é só um começo de uma longa discussão que muito me interessa.

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