Religião e política na periferia

Por Edmilson Lopes Júnior
NO TERRA MAGAZINE

Em uma região situada na fronteira da zona urbana da região metropolitana de Natal, em uma pequena comunidade de afro-descentes, vive F. com a sua família. Quando de minha última visita, enquanto preparava um café, para o seu sogro e para mim, ela explanava sobre a sua conversão a uma igreja evangélica.

A conversa surgira devido ao fato de essa sua opção religiosa ter provocado alguns atritos com outros membros da comunidade, até então composta apenas por católicos. O atrito ocorrera devido a uma observação sua a respeito de uma procissão católica. É que, na comunidade, durante o mês de maio, desenvolve-se o “novenário de Maria”. Um mês inteiro de procissão de Maria pelas casas da comunidade. F., eu havia observado, não participara dessas atividades, as quais, após o término da parte religiosa, transformavam-se em momento de sociabilidade, regados a café e bolo. Daí a sua preocupação em fundamentar a sua conversão religiosa, a qual relato abaixo.

É óbvio que, quando inquiridos sobre acontecimentos que impactaram a nossa existência, todos nós somos levados a racionalizar as nossas escolhas (nem sempre tão “escolhas” assim, dado que, não raro, a “força das coisas”, de forma doce ou dolorosa, “faz” aquelas escolhas que os atores pensam ter resultado do seu livro arbítrio). F. começou indagando: “o que a Igreja Católica tem para oferecer?”. Ela mesma respondeu: “olha, eu ia com as minhas meninas para a Igreja. Depois da missa, todo mundo ia prá suas casas. A gente não se entrosava com as outras pessoas. Tem encontro de casais e grupos de jovens, mas a gente, que é daqui, que é pobre, era deixada de lado. Além do mais, tem a festa do padroeiro, não é? Pois bem, depois que termina a festa, o que é que tem? A tal da festa pagã. É só música falando de cachaça e rapariga. Esses forrós aí… E muita bebida. Eu morria de medo de minhas meninas nesse mundo. Quando eu me tornei evangélica, fui bem recebida. Minhas filhas vão estudar a Bíblia no domingo… Eu não tenho raiva deles (católicos), não. É tudo da minha família, não é? E é tudo filho de Deus também… Eu quero que eles se encontrem na Palavra, mas eu também respeito eles…”.

No meio de nossa conversa, adentra a casa M., o marido de F., que havia passado toda a tarde em um boteco situado nas proximidades, conforme o seu pai já avisara, resignado, a F. Após ordenar, e ser atendido com presteza, que F. lhe servisse um café e “mais alguma coisa”, M., enquanto mastigava fatias de batata-doce e macaxeira, monopolizou a conversa. Após reivindicar a primazia na conversão familiar à igreja evangélica, contou os seus percalços: “eu aceitei Jesus aí uns oito meses antes de F. Eu é que comecei. Quando eu… Quando eu não fui mais, ela se convenceu. Foi assim: eu era crente e tudo, mas não deixava de beber. Acho que uns irmãos me viram no bar e falaram para o Pastor. Até que, num domingo, aí pelas onze horas, o Pastor apareceu aqui. E eu já estava bem… Eu já tinha ido ao boteco. O Pastor me disse: ‘irmão, com a Palavra não se brinca; você se comprometeu com Jesus’. E eu respondi: ‘é, com a Palavra não se brinca, mas eu não estou conseguindo, então, eu desisto’. O Pastor chorou e foi embora. E eu fui pro bar. Eu queria ficar com Jesus, mas a cachaça não deixou…”. Após o seu desabafo, M. não quis continuar a conversa e foi se deitar. F., entre constrangida e esperançoso, retomou a conversa e, olhando para o sogro, falou: “Jesus há de ter um plano prá ele…”

F. tem 43 anos, cursou até a 8ª série e foi, até o início do Programa Bolsa Família, empregada doméstica. Recebe R$ 140,00 mensais do programa governamental. Ainda faz um ou outro serviço doméstico, pelos quais recebe R$ 70,00. O marido, apesar da dependência, trabalha (“pesado”, como ela enfatizou) como ajudante de pedreiro. Mobilizando esses parcos recursos, M. acha que dispõe do mínimo para ficar em casa e acompanhar mais de perto a vida de suas três filhas adolescentes. Segundo ela, todo o dia agradece a Deus por Ele ter lhe dado apenas meninas. Uma prima sua, mãe de dois, já os “perdeu”. “Envolveram-se com o crack e foram mortos antes de completarem 18 anos”, diz M., resignada.

F. acha que a política, que “é coisa dos homens”, não é “para os pequenos se meterem com”. Diz . Para ela, “até hoje, só o Lula olhou prá gente”. E a Presidente Dilma, eu questiono-lhe. E ela: “enquanto ela estiver fazendo aquilo que o Lula indica, ela vai bem…”.

O maior sonho de F. era o de que sua filha mais velha passasse no vestibular. A menina gostaria de ser aluna do “Cursinho do DCE”, pré-vestibular oferecido pela entidade estudantil da UFRN, mas faltam-lhe condições. Não dispõe do dinheiro para as passagens e para o pagamento da contribuição mensal de R$ 45,00. No seu município, existe um cursinho pré-vestibular gratuito, mas funciona na Casa Paroquial. E, lá, sua filha não vai.

Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo