Renovação do frevo em Recife


Por Guilherme Gatis
Colaboração para o UOL, de Recife

Quem passa por volta das 19h pelo número 137A da rua Pastor Benobi pode ouvir o rufar da caixa percurssiva, o baque forte do surdo e a melodia dos trompetes, trombones e saxofones. Juntos, os instrumentos fazem ressoar pelo bairro da Bomba do Hemetério, subúrbio do Recife, o frevo Cabelo de Fogo, uma das marcas da Orquestra da Bomba do Hemetério, fundada em 2002 e comandada pelo Maestro Forró.

No espaço de cerca de 30m², improvisado na casa do maestro, se reúnem, duas vezes por semana, os dois grupos formados pelo maestro – além da Orquestra Popular, os Hemetéricos da Bomba também desfilam no Carnaval pernambucano. “A diferença dos nossos grupos é que ensaiamos o ano todo, duas vezes por semana”, explica Forró, se referindo ao movimento natural das orquestras de frevo, que normalmente começam a ensaiar em dezembro para tocar durante os meses de janeiro e fevereiro.

Já que o período para explorar o frevo é curto, é comum os músicos tocarem em vários grupos diferentes, garantindo assim várias “oias” ou “tocadas” – como são chamados os cachês, que são pagos geralmente na dispersão dos blocos ou momentos antes da apresentação. “No meu primeiro Carnaval, para adquirir experiência, resolvi levar meu caixa e as baquetas nas costas e encarar as ladeiras, mesmo sem orquestra fixa para tocar. Arrumei várias oias lá, na hora. Nas ladeiras tem sempre alguma orquestra precisando de um músico”, explica o designer e percussionista Philipe Camarão, que neste Carnaval vai tocar na Hemetéricos e em outro grupo, formado por amigos da Bomba. “Já cheguei a acompanhar dez blocos em um único dia”, comenta.

As ruas estreitas e o sobe e desce de ladeiras é um obstáculo para os músicos, que tentam levar o frevo disputando o espaço com a multidão. “No meio do bloco, com gente para todos os lados, fica difícil enxergar o regente, então basicamente nos comunicamos por mímicas. Cada música é representada por um gesto. Se o maestro decide tocar o frevo “Rasgando o Pé”, por exemplo, os músicos da frente apontam para os pés e os de trás vão repassando a informação. A batida do caixa e do surdo, que são os únicos instrumentos que nunca param durante o desfile, também servem para guiar os instrumentos de sopro”, explica Camarão.

Além da comunicação por sinais, os músicos também têm seus truques para não se atrasar entre uma “tocada” e outra. “Toda orquestra tem ensaiada uma marcha mais rápida, que usamos para acelerar o passo e ganhar algum tempo, já que geralmente as apresentações são fechadas por trajeto, não por tempo”, explica o músico.

Renovação
Uma das preocupações de quem vive de frevo é com a vitalidade do ritmo, que completou cem anos em 2007. Apesar de reinar absoluto durante o Carnaval, as marchas e canções que arrastam multidões no Recife e em Olinda não conseguem reverberar com a mesma força durante o restante do ano. O frevo é refém de sua própria festa – se não há Carnaval em Pernambuco sem as tradicionais notas de Vassourinhas, o ritmo parece gastar todo o seu fôlego em fevereiro.

O Maestro Spock e a sua Spockfrevo Orquestra procuram demover o frevo desta idéia de mesmice. A proposta é levar o ritmo do calor acelerado das ladeiras para espaços fechados, com público sentado. Nessa nova roupagem, o ritmo flerta com o jazz. “O frevo está para o Capibaribe (rio que corta a capital pernambucana) como o jazz para o Mississipi”, define. A fusão transcende os limites do Carnaval, com shows durante todo o ano e já foi vista por públicos de vários continentes e palcos, como o Barbarican, de Londres, uma das principais casas de show do planeta. Em 2009 o grupo conquistou o título de melhor grupo instrumental e melhor disco instrumental no Prêmio da Música Brasileira.

Se a mistura de frevo com jazz parece ousada, o que dizer das Vassourinhas misturadas com Strauss? “Nosso trabalho consiste em uma pesquisa constante, manutenção dos músicos com os ensaios e na aposta em releituras do frevo, com a interação de ritmos de qualquer parte do mundo, da música clássica ao maracatu, passando pelo hip hop. Tudo pode entrar na nossa mistura.”, explica o Maestro Forró. “Mais do que pernambucano, o frevo é universal. Já toquei em vários países e a reação das pessoas é sempre muito parecida. É uma música que dialoga com diferentes culturas. A alegria é sentida da mesma forma, da Turquia a Nova Orleans”.

Para Forró, estas misturas e releituras do frevo são apenas o início da renovação do ritmo. “Queremos que nosso trabalho sirva de exemplo e que a partir dele sejam criadas várias orquestras, que o frevo seja ouvido durante todo o ano em Pernambuco. Assim a música poderá cumprir a sua função social, com o empoderamento de uma linguagem estética que promoverá uma maior qualidade social”, teoriza.

Do blogueiro: Enquanto buscamos uma identidade cultural musical para o nosso período carnavalesco, em Recife eles tentam se renovar. Essa é só uma mostra do nosso atraso. Na edição desta terça-feira, no DN, o compositor e guitarrista Kiko Chagas, premiado em Salvador, enumera algums motivos.

(foto: Eduardo Queiroga)

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