Reouvindo Chico – Deus lhe pague

Conheço a canção “Deus lhe pague”, de Chico Buarque, desde que foi lançada, em 1971. No mesmo disco (Construção) constam duas versões: uma com arranjo orquestral, de Rogério Duprat, que se sucede a “Construção”; e outra com arranjo para grupo instrumental menor, piano e sopros mais percussão, de Tom Jobim.

Voltei a ouvir as duas, com preferência pela segunda devido ao destino de minha escuta: uma pequena apresentação de canções feitas por Chico, no lançamento do livro “Intérpretes do Brasil” – a música será cantada com um toque fúnebre de surdo e só.

Não há novidade alguma em constatar a riqueza textual de Chico Buarque como letrista. Percebi isso na primeira vez em que ouvi “Olê, olá”, no rádio, cantada por Nara Leão – acho que em 1966.

“Deus lhe pague” reconfirma essa qualidade, usando um bordão da cristandade, além de ser título de uma peça sentimental de Joracy Camargo. Chico coloca pelo avesso a submissão daquele mote para mostrar faces do mundo onde ele vivia e compunha – o Brasil da ditadura. A miséria aparece, tragicamente, como se fosse dádiva de quem manda, uma ditadura que se comporta como um Deus carrasco. As migalhas distribuídas entre os dominados, enganadoras desenganadas na canção, surgem cruelmente: pão, chão, nascer, sorrir, respirar, existir, piada, bar, futebol, crime alheio, samba, praia, saia, mulheres (homens pra quem gosta de homem), amor malfeito, domingo, cachaça, fumaça, andaimes (trabalho que mata), agonia diária, grito demente, fuga – alívio na morte.

Não entendo essa canção como louvor do morrer, ela é uma desesperada luta por outra vida, longe daquela opressão dadivosa. Embora Chico não tenha sido tropicalista, certamente, ele dialoga com a paródia trágica que essa tradição tanto cultivou, mantendo voz própria.
O tom monocórdico da canção (dois acordes?), num autor de outras composições tão melodiosas, é evidentemente intencional: discurso irado, prece desencantada; obra-prima.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 21 de abril de 2014 14:26

    Clássico!

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