Repentes

newton

Arte: Newton Avelino

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Cheguei em São Paulo depois de um mês fora de casa, e ainda pisando um pouco o chão do Nordeste. Um largo mergulho no interior da Bahia, Recife, Fortaleza e praias recônditas do Ceará. Várias razões convergentes me levaram pra lá. Entre elas, o trabalho para o Museu Cais do Sertão Luiz Gonzaga que será inaugurado no Recife em dezembro. Será na verdade um museu sobre a cultura nordestina, sobre o sertão. Me cabe desenvolver uma das partes dele, sobre a expressão poética sertaneja, escrita e oral, declamada e cantada. Meus guias de cego nesse território fascinante têm sido Lirinha e Siba. Lirinha convive com os poetas cantadores do Nordeste desde os doze anos, Siba tem seguido com rigor a poética da cantoria em suas canções bem pessoais. Ambos moram em São Paulo. Através deles cheguei a Ivanildo Vila Nova, que veio de Gravatá, Rogério Meneses, de Caruaru, Mocinha de Passira, de Feira Nova.

Se engana quem pensa em cantadores nordestinos como pertencentes a um mundo arcaico, vestidos em roupas típicas, aves raras de um mundo que já voou embora. Esses cantadores que conheci, como muitos outros, circulam continuamente pelas cidades pequenas e grandes, solicitados por um ramo florescente de entretenimento tradicional, bastante profissionalizados e informados. Mocinha não tem conta bancária nem recebe cheques, mas tem uma agenda agitada. Ivanildo, na casa dos setenta anos, sério e bem conservado para a idade, é o mestre reconhecido, a “cascata de versos”, a enciclopédia da cantoria. Rogério, de uma geração mais nova, poderia ser confundido à primeira vista com um professor universitário. Repentistas de última geração praticam o gênero pela internet.

O artesanato do repente é complexo e tarefa de uma vida. Há inumeráveis modalidades estróficas, intrincados esquemas de rimas, variações métricas, improvisos sobre motes, refrães convencionados, jogos verbais de vários tipos, versos que andam pra frente e pra trás. Essas formas decantadas pela tradição são introjetadas pelo cantador e efetuadas em tempo real, com acompanhamento de violas, sob a provocação do desafio em duplas, de temas propostos na hora, seguindo a deixa obrigatória do verso do parceiro. O tempo é a variável fundamental. A transcrição perde uma dimensão essencial do acontecimento, que é o bate e rebate instantâneo de versos cantados que têm que corresponder à métrica, às rimas e ao esquema estrófico da modalidade adotada, seja a sextilha, a décima, o mourão, o quadrão ou uma infinidade de outras. É algo assim como um jogo de tênis em que a quadra é a estrofe, e onde essa mudasse de tamanho e forma a cada set. Ou como um jogo de xadrez que não pode parar no tabuleiro de palavras entoado pela melopeia nordestina. Vista de perto, soa inacreditável a destreza que faz a bola andar seja com fluidez, seja no limite momentâneo do tropeço, do erro, do vazio, do esquecimento. Que fazem parte do jogo e só alimentam o suspense, como na corda bamba do circo.

Mário de Andrade observou, em sua viagem pelo Nordeste em 1927, narrada em “O turista aprendiz” e depois desenvolvida n’“A vida do cantador”, que o repentista não vai desarmado para o combate: faz parte da sua formação decorar previamente listas de nomes, livros de sabenças, conhecimentos enciclopédicos, dicionários de rimas, e formar um extenso repertório de soluções pré-prontas que ele vai acionar em situação. Seria ingênuo pensar que não. Como seria ingênuo pensar então que tudo não passa de uma encenação pré-ensaiada de um improviso ao vivo. Como em todo jogo, a cantoria dispara um processo em parte previsível, e em grande parte imprevisível, em que o cantador, já conhecedor de um grande número de picadas e atalhos, tem que responder em ato ao desafio dado. Ato em que desponta de repente, e é claro que nem sempre, o acontecimento poético único.

Nas duas horas de gravação, Ivanildo e Rogério glosaram durante doze minutos comentários enciclopédicos sobre museus de todo mundo, na modalidade das sextilhas, exaltando por outro lado a criação do Cais do Sertão. Rogério: “O museu é como um muro / pra cultura não pender / por tudo que a gente escuta / e tudo que a gente vê / Gonzagão está mais vivo / do que antes de morrer”. Ivanildo: “O museu é um saber / é remédio é lenitivo / é um barco e é a arca / é gaveta e é arquivo / que lembra quem já morreu / e informa quem está vivo”.

Que uma requintada tecnologia da inteligência oral, como essa, continue em vigor, com plateias que se envolvem na disputa figurada entre os cantadores, juntamente com forrós, com a sua elétrica música pop e o seu impactante cinema atual, tudo fala da extraordinária densidade cultural de Pernambuco.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo