A representação não me representa

Cunha é um mafioso; a oposição parlamentar é um punhado de golpistas corruptos, sonegadores, desviadores de dinheiro público, traficantes de drogas, exploradores de trabalho escravo, machistas, fascistas, homo e transfóbicos, integralistas religiosos, grileiros de terras, milicianos, representantes do agronegócio geno e ecocida, da indústria das armas, das máfias dos planos de saúde, do capital rentista e especulativo e um longo etcétera; as bases sociais da direita parlamentar brasileira são um bando de nazitrogloditas urrantes. Apesar disso, não tenho o mais leve tesão de lutar pela manutenção de Dilma no poder e não consigo me animar sequer pensando que não se trataria de uma luta pela permanência de Dilma, mas pelo respeito à democracia. Quer saber por quê? Porque a “democracia” supostamente ameaçada pelo impeachment, encarnada no atual sistema político “representativo”, não existe.

A culpa disso não é de Dilma, é claro, mas de um modo de funcionamento do estado, da representação, do sistema de governo e da forma partido que fazem com que, de fato, estes não representem absolutamente ninguém a não ser as oligarquias financeiras e corporativas que os patrocinam e os interesses de poder daqueles que os gerenciam. Dilma, o PT e o atual governo são apenas mais umas peças desse regime de práticas e mecanismos: não o criaram, mas participam dele acriticamente. Um impeachment seria golpe? Do ponto de vista da atual “democracia” sim, pois não tem bases constitucionais e legais dada a não participação da presidenta em quaisquer atos ilícitos. Mas a questão, para mim, é: é essa a “democracia” que vale a pena defender?

Que fique claro: mesmo não me sentindo representado nesse sistema, repudio o golpe. Mas acredito que uma luta contra o impeachment ilegítimo de uma governante só faz sentido quando se repudia sem meios termos e se combate sem trégua o impeachment primordial: o que destituiu o poder do povo. Para que a luta contra o impeachment governamental seja crível e coerente, é preciso lutar contra o fato de que a Vale determina as decisões do governo federal – e as do Congresso, dos governos e assembleias legislativas estaduais, etc. – mais do que o povo de Mariana, de Governador Valadares e de Colatina; de que o agronegócio latifundiário, ecocida, grileiro e genocida manda no executivo nacional mais do que os povos indígenas que o primeiro extermina; de que empreiteiras e bancos privados definem as políticas nacionais mais do que a juventude negra das periferias. Sem reconhecer que esse impeachment, essa desautorização do governo do povo  aconteceu e sem um repúdio intransigente dessa situação, qualquer luta contra o impeachment formal de uma presidenta se torna vazia, inconsistente.

Então, sinceramente, o genocídio dos adolescentes negros da periferia, o assassinato do Rio Doce (contra o qual o governo não tomou nenhuma medida que responsabilizasse de fato as empresas culpadas), o machismo e a LGBTfobia à solta, o extermínio dos povos indígenas, o terrorismo de estado de Alckmim contra as ocupações das escolas e etcétera me preocupam, sensibilizam e mobilizam muito mais do que a possibilidade do PT sair do poder. Lutemos para que o mandato de Cunha seja cassado e esse criminoso esmagador de direitos de mulheres, LGBTs, jovens pobres e inúmeras outras categorias seja julgado e vá para a cadeia; mas, sobretudo, lutemos para que a democracia exista para mulheres, negros, indígenas, adolescentes das periferias, homo e transsexuais, praticantes de religiões de matriz africana, ciganos, etc. ao invés de nos desgastarmos defendendo os mecanismos de legitimidade de um sistema “representativo” que não representa ninguém.

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