Repressão e recalque

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Em artigo publicado no caderno “Aliás”, do “Estado de S. Paulo”, no domingo passado, o jornalista, escritor e professor Bernardo Kucinski defende a ideia de que os trabalhos da Comissão da Verdade devem ser abertos ao público, ao invés de se investirem de um caráter reservado e praticamente sigiloso. Concordo com ele.

Kucinski argumenta que, já que a Comissão não se investe de um papel judicial, com horizonte punitivo, mas, em vez disso, se constitui numa “ferramenta de conscientização e elaboração da nossa memória histórica”, é importante que ela assuma plenamente o seu valor pedagógico. Entender esse lugar é condição para a força do seu simbolismo: os trabalhos da Comissão se dirigem à consciência nacional, ao esclarecimento coletivo sobre uma era sombria que permanece na sombra, sobre atrocidades de uma máquina paraestatal que resistem a vir à luz, e sobre o destino de mortos e desaparecidos cujo luto não pode se completar.

Kucinski sugere que as sessões não persistam no regime de portas fechadas, mas que predominem as sessões abertas e televisadas, como são as da Câmara, do Senado e do Supremo. Considera, a meu ver com razão, que seja um arriscado contrassenso a Comissão adotar o segredo de Estado como estratégia, tomando como clave os “procedimentos de inquérito policial, que tem por objetivo fundamentar indiciamentos em tribunal”, quando o seu objetivo não é o julgamento criminal, mas o juízo histórico, não a penalização estatal mas a expressão plena da sociedade civil.

Em outras palavras, Kucinski alerta, a meu ver com sobriedade, para o risco de que a Comissão restrinja para si, no teatro público brasileiro, um papel simbólico que não é propriamente o seu, isto é, o da judicialização que não se deu, e produza com isso um relatório final, acompanhado ou não de relatórios parciais, que acabe por produzir um impacto localizado, de efeito instantâneo e mais facilmente neutralizável. A proposta alternativa, segundo entendo, é a de combinar o produto final dos relatórios com a visibilização do processo que traz à cena pública brasileira a grande questão recalcada, aquela que faz da figura do torturador a forma mais perversa do “desaparecido” político,isto é, a rasura não admitida que persiste como um nó irresolvido na nossa vida republicana.

Passado o tempo da repressão, da ditadura, permanece o regime do recalque, que consiste em camuflar os fatos conflitivos numa zona inexpressa. Sabemos bem que a isso corresponde a tendência brasileira à conciliação, que tem seus méritos relativos, mas que eu não vou discutir aqui. O que está em questão, como hora da verdade, é o custo insustentável do silenciamento vergonhoso da História, e o fato de que, além de tudo, ele contamina a vida contemporânea, contribui para perpetuar formas de violência crônica e atrapalha qualquer projeto nacional de verdadeiro protagonismo político.

Diferentes nações viveram os traumas da violência obscura instalada no Estado, e engendraram diferentes formas de elaborá-los. Os argentinos, que gostam do drama, que cultivam um vezo mórbido peculiar mas também, ao contrário de nós, o gosto da explicitação, puseram os julgamentos dos criminosos da ditadura no foco do seu teatro político. Os sul-africanos chegaram a uma forma mais original: não o julgamento punitivo, mas uma espécie de psicodrama nacional que trouxe à cena as violências do apartheid, confrontando catarticamente seus agentes e suas vítimas.

Entendo o artigo de Bernardo Kucinski como uma valiosa contribuição para que se encontre a forma brasileira de nomear as verdades recalcadas do nosso passado recente. Para tentar evitar que ela recaia numa síndrome muito nossa conhecida, a da indiferenciação e do seu rápido escoamento pelo ralo televisivo, que acaba equivalendo ao silêncio. Em vez disso, que esse trabalho de luto e de clarificação vire também novela, só que uma novela inédita, que o país nunca presenciou, e que possa cumprir o seu sentido pedagógico, de arejar o nosso autoconhecimento e de incluir esse tema político crucial no repertório das novas e velhas gerações.

Eu não diria nada disso se não considerasse antes de tudo a alta qualidade da Comissão. E se não tivesse lido “K.”, o sóbrio, agudo e comovente romance- documento de Bernardo Kucinski sobre a experiência do desparecido político na própria família. Fala nele o sentimento trágico de Antígona, o direito a enterrar seus mortos contra o impedimento do Estado. (Eu também o tenho, e já o declarei desde uma das minhas primeiras colunas.)

Mais do que a expressão da tragédia familiar, no entanto, o livro já é ele próprio uma elaboração dolorosa e madura, e um extraordinário exemplo antidogmático de busca da verdade — pessoal e histórica.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 16 de setembro de 2012 19:55

    No Brasil, criou-se e cria-se muitos mitos a respeito do que realmente aconteceu na fatídica ditadura. Artistas, políticos e intelectuais, levam a fama de terem dado suas vidas pela Nação. O que realmente aconteceu? Muitos desses continuam aí na Mídia às vezes como herois, outros se envolveram e/ou voltaram para a política, esses em sua maioria, (pelo menos os que eu ouvi falar terminaram se envolvendo em corrupção). Enquanto isso, os cidadãos que realmente foram para a luta (sem “panos para as mangas” como diz o ditado popular) e destruíram suas vidas pelo ideal da democracia e liberdade continuam no anonimato sem ao menos serem citados pelos meios de comunicação. Eu conheço vários que até hoje são excluídos e deixados de lado. Mas as feridas que a ditadura deixou como: perda de parentes e amigos, saúde mental afetada e uma vida de certa forma indigna, continuam abertas e esquecidas. Fica a pergunta : Onde estão os verdadeiros homens e mulheres(vivos ou mortos) que lutaram por um Brasil melhor?

  2. Jarbas Martins 16 de setembro de 2012 5:29

    Não tive parentes que foram vítimas da ditadura militar. Amigos, sim, e pessoas próximas como o meu ex-professor de Geografia, no Colégio Estadual do Atheneu Norte-rio-grandense, Luiz Maranhão Filho..Até hoje ainda não se sabe quem o submeteu às mais terríveis torturas, quem o assassinou e em que condições tiraram a sua vida. A sociedade exige que isso seja de conhecimento público. Como quer saber, também, tudo que diga respeito às torturas e morte do meu amigo e poeta Emmanuel Bezerra dos Santos. Penso como José Miguel Wisnik, comentando o artigo do jornalista e professor Bernardo Kucinski. Que a Comissão da Verdade, aqui, no Rio Grande do Norte, funcione, como de resto em todo o país, esclarecendo-nos sobre tudo o que ocorreu nos porões da ditadura.

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