República de retalhos

O Brasil não teve ainda uma República alicerçada na estabilidade ou duradoura em continuidade. Se o Império foi superficial, frágil e mais pomposo do que consistente, a nossa República tem sido um cipoal de fragmentos históricos que oscilam entre o populismo e o autoritarismo. Hoje, vivemos uma experiência de falsidade institucional. E não há república sólida com instituições líquidas; ou em liquidação de credibilidade.

Sem desmerecer por completo a historiografia, o estudo de História perde muito nessa área por conta da interferência do poder político, que faz da história um elemento de propaganda, associado à produção cultural. E aí falece um mínimo de verdade histórica e desvirtua a fisionomia da cultura. Um só interesse, dois males.

As fontes historiográficas precisam ser coletadas com parcimônia e cautela; pois a historiografia perde muito da compreensão dos fatos na mediada de seu comprometimento com a visão do poder temporal. Sua força e seus interesses.

Daí porque a colheita de informações nos depoimentos de contemporâneos de cada época; pensadores, políticos, jornalistas, relatos de memorialistas, textos literários, reportagens ou registros documentais merecem mais atenção do que os historiadores oficiais ou oficiosos. Daqueles que prestam serviço à grade curricular oficial.

A cátedra de história, no Brasil, sobre a vida política brasileira, ainda patina na adolescência da idade teórica. Mesmo que seja um país riquíssimo, como poucos, em contrastes e convulsões na sua história. A historiografia confunde muitos desses episódios com revoluções. Um erro crasso que merece pronto reparo. Até Hélio Silva, o maior historiador da República, comete esse equívoco. Não tivemos revoluções. Houve levantes, golpes, convulsões. Revolução, nenhuma.

A inexistência de Revolução, aqui constatada, não significa diminuição de importância histórica. Pode-se afirmar que as revoluções sociais, na história da humanidade, não trazem um currículo de respeitabilidade humana. A Revolução Francesa caiu em Napoleão e numa monarquia pior do que a outra. A Revolução Russa deu no stalinismo e nas ditaduras do Leste europeu. A Revolução Chinesa produziu a Revolução Cultural e um genocídio fratricida. A Revolução Cubana, bela e justa, caiu na cilada do personalismo ditatorial. Prestaram serviço ao capitalismo. Portanto, ao se falar que não tivemos Revolução, é apenas uma constatação histórica e não um juízo de valor sobre a nossa formação política. Nunca fomos capazes sequer de enfrentar os riscos da História. Menos por fraqueza e mais por escassez de instrução, que produz valentia no varejo e covardia no atacado.

Enquanto a educação, a segurança, a saúde e a cultura continuarem na bacia de esmolar, longe da consolidação estrutural, a República do Brasil será a farsa da tragédia que não houve. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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