[RESENHA] “Madame Xanadu”, de Aureliano Medeiros

Ilustração: Aureliano Medeiros

Tecido ao longo de quase uma década, Madame Xanadu é um drama de ficção que apesar de mórbido, não se limita a ser triste. Muito menos enfadonho. Pelo contrário, é rebelde, intenso e uma (ótima) má influência. É, sim, um livro para gente atenta e inteligente.

Em vez de entregar uma história mastigada e óbvia, Xanadu vai se soltando em blocos aparentemente desconexos, mas só de início. Logo a pessoa vai pegando o fio e conectando falas e acontecimentos até ter uma boa ideia da história que se desenrola¹. 

Alternando entre narradores, Aureliano abrilhanta seu peculiar enredo ao omitir seus nomes — quase como se partisse do pressuposto de que a gente já sabe quem está falando. Acontece que não sabemos (claro). Porém, reparem: com isso, Aureliano permite que nós nos tornemos detetives de sua história. Deixando buracos abertos, clarões narrativos, o Autor confia na inteligência de quem o lê. E aposta certo.

Confesso que Xanadu não me pegou logo de cara. Não é um livro de arrebatamento imediato. Quando comecei a ler, me senti perdido e confuso. 

Revendo de agora, acho isso incrível, porque me permitiu ir criando uma relação com o livro à medida em que ia relendo. Não sei dizer até que ponto era intencional despertar essa confusão na gente, mas sinto que ela é perfeitamente coerente.

Sendo naturalmente um bom leitor, um bom escritor e, sobretudo, um artista comprometido com a qualidade de suas criações, Aureliano confere uma força ainda maior à sua já forte narrativa por confiar na nossa perspicácia, fazendo uma espécie de filtragem.

Para quem se cansa rápido, desiste e não se empolga, essa não é uma leitura recomendada. Mas se você é uma pessoa atenta e esperta, chegará ao final do livro sabendo que leu uma boa história.

Temas como suicídio, depressão e frustração são recorrentes, mas preciso dizer que o livro não se resume a isso. A boa construção das personagens e as situações, muito intensas, muito falhas e muito humanas dão uma vivacidade especial aos acontecimentos. 

Bom leitor, escritor e, sobretudo, um artista comprometido com a qualidade de suas criações, Aureliano confia em nossa perspicácia, fazendo uma espécie de filtragem.

Amizade, cumplicidade, traição, redenção

Sentimentos presentes na vida de todas as pessoas aparecem aqui como se colocados numa lupa. Não só temos a oportunidade de acompanhar de perto as desventuras das personagens, como mergulhamos em suas sensações intensas de tristeza e felicidade (essas mais raras que aquelas, verdade)…

E são justamente essas oscilações russas que marcam as vidas de Rose, Bianca, Sharon e companhia. É claro que a história de Jeferson e Daniel tem uma centralidade, como se tudo girasse em volta daquele evento trágico, fatídico. E que nada disso seria o mesmo sem a presença canalha (ou vivaz) de Pedro.
E que não haveria história alguma sem a reportagem de João.

Porém, é exatamente a força dessas histórias circundantes dá equilíbrio e mantendo o ritmo da narrativa, segurando seu fôlego; cada pequeno drama desempenhando sua relevância.

Como comprar “Madame Xanadu”

Começa como uma reportagem, como uma entrevista. Além disso, Aureliano ainda entrega uma miríade fantástica de referências. Cultura pop, teatro e tarot vão se misturando entre Divina Comédia e Soft Cell; histórias contadas a partir do centro de Natal e vão se irradiando por seus arredores.

Aqui, rock alternativo e brega vão se fundindo sem forçação numa espécie de base musical da narrativa — Calypso e Radiohead — Creep e Príncipe Encantado. Curioso pensar no quanto isso revela algo da alma profunda da obra (e um pouco sobre nós, também, sobre nossas misturas contraditórias, sonhadoras e esquisitas).

“Existe um punhado de coisas a serem ditas, um monte de palavras que eu preciso derramar. Existe algo dentro de mim que, se não sair, pode ser que acabe me destruindo por completo. Tá gravando? Ótimo. Eu acredito que você não esteja com pressa…”

Posfácio

Madame Xanadu (2015)
Aureliano Medeiros
Editora Tribo (217p)

Um livro sobre imperfeição. Traição e falsidade. Uma sequência quase sem fim de vacilos. Mas, se “é fazendo bosta que se aduba a vida”, temos aqui um terreno fértil. Centrada num período particularmente caótico da vida — fim da adolescência pro início da vida adulta, Xanadu não perde a chance de retratar com tintas vibrantes os conflitos e excessos daquele bando de estudantes meio perdidos, muito desencaixados e tantas vezes deprimidos. Acho impossível falar sobre esse livro de uma forma que não seja essa, pessoal e confessional. Muitas cenas me trazem memórias fortes da minha vida nessa cidade. Fico feliz de dizer que sinto uma espécie de orgulho alheio pela existência de um livro assim. A Ribeira e o Cefet, essa confusão doida de decadência e êxtase são próximas demais e me afetam de um jeito instigante. Aqui, elas aparecem revestidas de uma beleza ingênua, revoltada, que exige muito de si e tantas vezes se sentia incapaz de ver sua própria maravilha. 

ps: Segurar um livro da Tribo é como segurar um sonho; um objeto que se não existisse eu pensaria: “que foda seria se uma editora dessa cidade tivesse feito livros criativos, interessantes e bonitos, ousados ao mesmo tempo que bem feitos?”. Só que eles existem. E estão aqui : )

***

Alerta de saída: Aureliano Medeiros (@oiaure) está publicando uma nova edição do livro por uma nova editora. Segundo ele, o livro está saindo com revisões, acréscimos e uma porção de caprichos. Vale a pena conferir!

¹ Algo parecido com Pulp Fiction, onde os acontecimentos vão sendo lançados fora de ordem e depois é que nós vamos sacando a sequência das coisas.

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