[RESENHA] Olga Hawes e o Barulho (ou como afogar relógios)

Olga Hawes entrega-se, confidencia logo na largada: tem medo do tempo, da dor do tempo; diz querer viver uma “eterna madrugada, ainda que dadas as impossibilidades”; que ama demais (“Eu não sei […] qual o sentido do amor. Sei que a cada 3 meses disso eu levo pelo menos uns 6 para me livrar dos efeitos colaterais”); que gosta de beijar gente mais alta que ela; que gosta do fim de tarde, enfim. Ela mostra-se logo “de coração descalço”, revelando que escreve with bare hands.

Sobre seu livro (Um minuto de barulho, Editora Patuá, 2020), ela o define, já na apresentação, como sendo “mais desabafo que poema”, como uma investigação das entranhas, o que pode parecer para alguns a definição de um caderno de poemas sentimentais, adolescentes, que falem sobre as obviedades de sempre: o amor, a dor, a solidão; mas este livro é, na realidade, um exemplo da boa poesia confessional feita pelas redondezas de cá, onde surge um poeta novo em cada poro da cidade .

O amor — essa trivialidade inerente ao humano — é sim tratado aqui, e talvez seja a temática mais presente e barulhenta, mas escrita de um jeito exquisite — para se usar um termo empregado pela poeta — sem ser tão previsível, já que Olga não fala do amor, dos seus amores, como uma paisagem sem carnaduras, redundância abrangente de ós e ais ou metáforas engraçadinhas e rasteiras — sua escrita é seu confessionário, dedicada ou voltada a pessoas com nome, como Clara, em “Das coisas extraordinárias daqui”,  gabi (assim mesmo, em minúsculas), em “Gabi”, e Maria, em “Mañana”; além dos inúmeros vocês anônimos, seja o você que é o eu, a falar consigo em espelho confidente, comoem “Zoom de Perspectiva” (um dos meus poemas favoritos do livro); seja o você que é o outro/ a outra, como em “Todos”, “Barra Vista vê São Jorge na lua”, “O amor acontece à noite (ou ‘xx night time’), “Pestes”, e todo o restante da segunda seção do livro. Essa singularidade, de endereçar poemas às pessoas, de sugerir vivências, torna tudo mais palpável, mais verídico, ainda que ela secretamente nos conte ficções, mentiras. Acho que Olga realiza com sucesso o que escreve na apresentação: “Alguém me disse que poesia é escrever uma coisa óbvia de forma bonita. Eu penso que é escrever uma coisa bonita de uma forma não tão óbvia […]”.

Olga Hawes (1998) é natalense, estuda psicologia na UFRN e publicou seu primeiro livro de poemas, “Um minuto de barulho”, pela editora Patua.

I: Eu-Coisa

Estou numa estação de trem, esperando. O assento, o pavimento — concreto. Brisa marejada dos pinheiros. Longe um anum branco cantareja como se augurasse o fim da tarde.

O que quero é simultaneamente ir e ficar — é assim que leio a primeira parte deste livro, que se chama Eu-Coisa. Olga começa à noite, na rua. Caminha. Há o barulho, a palavra barulho, que “é importante e é necessário se acostumar a dormir com ela de vez em quando”. Há o barulho das mulheres “que caminham à velocidade de uma bicicleta comum”, dos homens que “arrastam os pés”. O barulho do ronronar das palavras de seu primeiro bicho de estimação: “um gato três vezes maior que eu”, da mãe desaprovando a filha num balão de pensamento, enquanto esta, “ignorando tanto o bom senso quanto a prevenção de assaltos ensinada pela minha mãe”, salva uma frase de bar: “Que você venha pelo que procura, e que fique pelo que descobriu”. O que acontece aqui são sutilezas cotidianas que a poeta alardeia sob o corpo do texto. Pois pense: que seria dessa cena para você, leitor, no seu dia a dia? Há barulho nela? Ou sua cabeça anda atribuladíssima consigo, ao ponto dessa cena ser como música de fundo de olhos? Olga arranca de si e do mundo, amplifica o colhido de modo aparente, faz barulho com as palavras.

Leio um verso: “Não sei falar de mundo sem sentir cheiro de mar”. Penso na palavra marulho: nesse ajuntamento de mar e barulho num só vocábulo. Sinto o cheiro dessa palavra marulho —quando leio alguns dos poemas. Alguns versos imagino ecoando numa casa de praia vazia, anterior ao verão: “Eu ainda sonho com os amores aqui/ mesmo que cada um deles surja apenas/ para engolir meus pássaros/ e vomitar outras feras” ou “Quero morrer com o cabelo azul marinho”.

Ainda que eu me sinta nessa estação de trem hipotética enquanto leio essa parte, sinto o mar espionando Olga. E parece que ela sabe que o mar a espreita, que o mar é esse selvagem animal de estimação de que ela toma conta, e que toma conta dela: “Prender a respiração embaixo d’água e deixar/ o corpo ser levado pela corrente não levará/ a lugar algum”. Esse trem que aguardo é isso — esperar que a corrente me leve daqui, mas ela não leva; é o meio entre querer ficar e ir embora, é esse “nenhum chão do agora” de que Olga fala.

A respiração talvez seja muito mais presente aqui do que em qualquer outra seção. Reflexo do mar, da apneia, da absorção: É o “Respirar na palavra incólume”, “respirar você porque é/ necessário” — respirar, por que é vivo o que se faz.

II: Você-Causo

Adentro neste quarto de apartamento que é a segunda seção: Você-Causo. O ar é quente, mas uma luz bonita atravessa as cortinas e lumia o lugar. Uma cama de casal ocupa quase metade desse espaço. Lençóis, calcinhas, cuecas, roupas jogadas no chão. Há rostos emoldurados pelas paredes — fotografias. Aqui um romance findo, ali a figura do mestre deserdado, acolá uma turma de amantes (o que faz a pele de estádio, o que tem nas costas a américa latina redesenhada). Olga se desenovela aqui como undateable, feito a protagonista do filme Frances Ha, por parecer não conseguir ancorar-se aos amores (ou seriam eles que não conseguem se ancoram a ela?). Permeia-se o querer dos corpos, as peles coladas — as coxas, as cinturas, os dedos, os lábios, os pássaros. Contudo, esse ter-se com o outro aqui é efêmero. A união é temporária, a despedida é comprida — mas é nesse temporário que Eros faz a festa na “pele-palco”. Lembro de um verso, da seção passada: “Tudo que faço é estalo e monotonia”. Na entrada dessa segunda parte, tem-se: “Tudo sempre foi uma performance para preencher seus dias de tédio”. Há sempre um aborrecimento que se prolonga, na pintura que Olga realiza em alguns desses vocês. Essa mesmice se rebenta com os estalos, os desejos em carne viva, as pequenas mortes. Depois, tudo volta, parte: “fazer do gozo, lágrima”, ela diz.

Não digo que há uma ardência desses corpos que se tocam nesses poemas, mas sim um afogamento. Ainda que haja todo o afago e flama, é líquido como esses encontros terminam. É a recusa ao toque da delícia do outro (em “Todos”), é a rememoração dos dias de outrora de um comparsa (em “Barra Vista vê São Jorge na lua”), é “virar a página” ainda que se declare o amor (em “O amor acontece à noite (ou ‘xx night time’)”), a declaração dos quereres (de “Quando você me amar,”), e por aí vai.

E por falar em afogamento, o mar e seus signos orlam, de quando em quando, alguns momentos aqui também: é o “afogamento beirando a garganta” e “me afogo em ninho de disfarces (em “Todos”), é a “casa em frente ao mar”, o marulho, a maresia, as sereias, “seu joca, o pescador” e um tanto mais de figuras (em “Barra Vista vê São Jorge na lua” [talvez o poema mais marinho, mais praieiro do livro]). Esse animal chamado mar é seu companion, seu amuleto. Antes, Olga emprega um conceito interessante, uma descoberta: “[…]talvez a maior descoberta da minha vida foi entender/ ‘eu’ não como um conceito,/ mas como um sentimento/ […] eu sou feita do meu perfume preferido de rosas/ e de como eu me sinto quando, depois do banho,/ borrifo ele atrás das orelhas”. Além do perfume de rosas, creio que Olga (o sentimento Olga) é o mar. Um mar diferente do de Vicente de Carvalho ou do de Sophia de Mello Breyner Andresen — é um mar citadino, mais afogamento que onda. Mais casa de praia do que farol. Mais anzol do que âncora.

III: Nós-Causa

Vejo um sarau no meio da praça. Gente sentada num círculo — alguém trouxe um violão, outro trouxe os poemas de Brecht. Não há microfone, a poesia é dita no grito. É assim que leio essa porção final do livro, intitulada Nós-Causa.

Aqui o barulho é bem mais político. Na realidade, o livro inteiro é permeado por momentos políticos, mas de modo latente, cerrados em incidentes,  como o caminhar divergente das mulheres, se comparado ao “arrastar de pés” dos homens (em “Tudo”), ou o jogo de fato e opinião (em “Zoom de Perspectiva”). Aqui, o corpo político se torna mais evidente. Há a “luta cotidiana contra o desespero”, o patriarcado machista titânico (“os homens atrás de mim na calçada: assombrações”, “Descobri, no meu parceiro, um dono”, “Aprendi que a louça era minha obrigação, que a casa era meu lugar.”). Nesse sentido, “Carne viva” é o poema de didática mais interessante dessa parte, “Sobre [posição]”, ainda que verdadeiro, é o mais comezinho, o mais fraco.

Há palavras de ordem, como no poema “Propósito”, onde ouve-se a voz de Olga adquirir um tom meio geração marginal (mais Chacal ou Cacaso do que Ana C.),  quando diz-se que “A obrigação do poema é mostrar/ a saída de uma sala/ onde ninguém jamais/ conseguiu entrar: de porta pra poeta a diferença é de uma letra”. Nesse poema, incomoda essa obrigação do poema, dissonora, imposta. O poema não tem a obrigação de nada nos dias de hoje; chegamos, depois de tantas escolas literárias, ao caráter do poema como inutensílio, como bem empregou Paulo Leminsky certa feita. O poema, seja ele bom ou ruim, não é obrigado a nada. O poema é multifuncional. Talvez, se a obrigação fosse trocada pela função, eu tivesse lido esse poema em específico de um jeito menos autoritário, menos demandante, mas aqui creio que discorro demais sobre o uso de uma única palavra num poema curto, de cinco versos. Decerto, esse poema não parece se encaixar muito confortavelmente no conjunto total dessa seção final do livro.

O que corre subcutâneo aos versos do final do livro é a política do tempo. Política aqui no sentido de “arte ou ciência de governar”, de ser governado pelo tempo. E aqui regresso à apresentação, à confissão do “medo do tempo, da dor do tempo”. Isso fica claro no poema “Um idoso sozinho em um restaurante”: “O idoso cansado, que/ não sabe se está perdendo ou/ ganhando dias[…]”. Há o peso desse medo que “sentimos no pulso:/ O relógio”, que irreprimivelmente nos faz crescer e/ou envelhecer. Crescer mulher, depois mulheres (“Carne viva”); envelhecer ao ponto de esquecer o número do próprio calçado (“Um idoso sozinho em um restaurante”). A verdade é que o tempo surge aqui e ali nesse livro como um assombro que transpassa o corpo: em “Quando você me amar,” na segunda parte, ela pede: “faça meus relógios pararem e o tempo/ parecer uma mera invenção/ da cabeça de quem nunca se perdeu no eterno do contato”; é o registro de horários em toda a primeira parte: esquecer como se respira, enquanto dança de mãos dadas, às quatro e meia da manhã; “ligar para todos os seus amigos às quatro da manhã”; ser cinco, seis, seis e meia da manhã; é a “madrugada em pânico”, e aqui, a poeta parece querer deixar claro o que foi dito na apresentação: de que, ainda que dadas as impossibilidades, ela quer viver “uma eterna madrugada” — hora onde todos dormem, onde os despertos sentem a paz (ou o caos, ansiedade) de se estar só, silente, vendo a noite amanhecer.

Outra característica dessa seção parece ser a visão singela do mundo, com olhos de criança, algo que me lembra aquele poemeto do Oswald de Andrade: “Aprendi com meu filho de dez anos/ Que a poesia é a descoberta/ Das coisas que eu nunca vi”. Olga descreve objetos e acontecimentos que, ainda que melancólicos, trazem miúda iluminação à leitura. São as mariposas e borboletas no mostruário; é a arte sacra de observar o caminhar das formigas; é olhar a si própria e pensar em um inventário de coisas sortidas (travesseiro de penas, trilogia de filmes românticos, poemas tristes, a cidade de Natal); é shake, o gato, no armário, assustado com os filhotes. Parece por vezes que Olga cata cenas de diferentes momentos da sua vida (infâncias, adolescência, fase de jovem adulta), sem distinguir épocas, sem impor divisórias — afinal, o tempo é amorfo —, e cria poemas que têm memórias embaralhadas com piolhos, roupas jogadas no chão, carne viva, formigas, jambo, suicídio, biquíni, e uma míriade outra de lembranças costuradas em colchas de retalhos.

Agora é tarde da noite. O sarau terminou. Algumas pessoas ficaram pelos arredores, fumando, bebendo vinho, conversando. A maioria dos que vieram para o evento foram para casa há muito tempo. Olga já não está aqui. O último texto não é dela, mas uma tradução sua de um texto que serve de posfácio, da poeta Melissa Broder. “Talvez o oceano estivesse torcendo por mim afinal? Talvez nós estivéssemos do mesmo lado, compreendidos nas mesmas coisas, água principalmente, mistério também”, diz Melissa na voz de Olga, enquanto a imagino acarinhando o mar de madrugada.

Imagem de capa: Gravura de Fayga Ostrower

Poeta, pesquisador e tradutor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo