Resgate do poeta Paulo

Por Affonso Romano de Sant’Anna
ESTADO DE MINAS

Conheci Paulo Mendes Campos. Nos anos 1980 até estivemos juntos (com Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Lara e outros) numa homenagem no Automóvel Clube em Belo Horizonte. Ele era um papo tão irônico quanto surpreendente. Aqui no Rio, cruzava por ele lá no Leblon, ele às vezes entrando ou saindo de um bar. Indo mais longe no passado, em 1962 (eu ainda estudante), autografamos o volume Violão de rua, numa festa na União Nacional dos Estudantes (UNE). Ali estavam também Vinicius de Moraes, Geir Campos, Ferreira Gullar e outros.

Quando Paulo morreu, em 1991, fiz-lhe uma crônica (“Mais um poeta se vai”), que está no livro Mistérios gozosos. Outro dia, aconteceram algumas coisas que trouxeram à tona, de novo, o nome do poeta. Carlos Heitor Cony escreveu uma crônica lembrando-se de Paulo, dos tempos de redação e boemia literária. Mas o que me chamou a atenção foi o fato de Cony se referir a algo que também ficou na minha lembrança. Lembrava ele o fato de Paulo ter sido massacrado por Mário Faustino em artigo publicado no Suplemento Literário do Jornal do Brasil. Mário tinha lá uns 27 anos e resolveu julgar toda a literatura brasileira. Era pau no lombo de todo mundo. Até Drummond apanhou. Paulo Mendes, no mesmo jornal, foi também criticado severamente por Heitor Martins, que era nosso companheiro aí em Belo Horizonte.

Sempre achei que aquela pancadaria dupla tinha afetado a vida literária de Paulo Mendes Campos. Claro que a bebida e a vocação para a dispersão ajudaram a jogar o poeta/cronista no esquecimento histórico. Mas a arrogância das vanguardas na época foi responsável pela inquisição nada poética que jogou no lixo toda a poesia da Geração 45.

Mexi outro dia nuns papéis e descobri uma anotação de 2 de abril de 1986, que começava assim: “De repente, pego, por acaso, o livro Poemas, de Paulo Mendes Campos, e me surpreendo com a qualidade de vários deles. Vou escrever-lhe uma carta. Se assustará. O livro não é novo, é de 1979. Ele foi prejudicado na sua trajetória por vários fatores, como a dispersão boêmia e alcoólica. Mas um dos motivos foi o concretismo. Lembro-me das críticas de Heitor Martins e Mário Faustino no Suplemento Literário do Jornal do Brasil, quando saiu Domingo azul do mar. Foram arrasadoras. Cortaram o voo do poeta”. Dizia algumas coisas mais sobre problemas da vida literária e concluía: “Ele tem lances de grande poeta, como em ‘Infância’ e ‘Poema didático’. Às vezes lembra Drummond. E lembra também a dicção da poesia inglesa, não fosse ele tradutor de T.S. Eliot e casado com uma inglesa. Tem uns poemas sobre o cotidiano e o Rio excelentes. Exemplo: ‘Litogravura’ – descrevendo o bonde bêbado como uma fera na jaula dos trilhos”.

Outro dia, li que o Instituto Moreira Salles quer reativar a obra de PMC. Faz bem. A vida literária tem muitas injustiças. É como uma bolsa de valores. A cotação dos autores oscila.

A fúria justiceira, arrogante e predatória daqueles que expulsam do sistema os desiguais, em vez de enriquecer, só empobrece nossa cultura. Há pessoas que se julgam donas da história. A poesia sobrevive a isso. Resgatemos o poeta Paulo.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Betina Leme 20 de janeiro de 2015 4:56

    Olá! Já achei: 14 ago. 2011. Obrigada mesmo assim!

  2. Betina Leme 20 de janeiro de 2015 4:46

    Olá. Obrigada pela divulgação do artigo! Há como saber a data exata da publicação no Estado de Minas?

  3. Jarbas Martins 24 de agosto de 2011 7:22

    A poesia de Paulo Mendes Campos não precisa ser resgatada, continua tão viva quanto a primeira edição, que ainda guardo comigo.Eu era ainda adolescente, estudava no Atheneu, e lá estava o “Domingo Azul do Mar” na estante da Biblioteca, que Zila Mamede acabara de criar.Li este livro com o espíríto de todo adolescente: inquieto, torturado, sedento de descobertas, tentando descobrir, através daqueles versos que se ofereciam clarividentes e misteriosos, a dor e a beleza do mundo.A poesia de Paulo Mendes Campos me influenciaria, de forma decisiva.Comecei a imitar os seus sonetos (que nunca mostrei a ninguém, nem ao meu amigo,à época, mais próximo – Paulo de Tarso Correia de Melo),E terminei rasgando aqueles arremedos poéticos juvenis.Salvou-se um: “Soneto Imaginário para Novembro”, que tempos depois publicaria na “Tibuna do Nore” com um pseudônimo. Paulo Mendes Campos foi, sem dúvida, um dos nossos maiores poetas do Século XX..

  4. André Pio 23 de agosto de 2011 16:57

    Justíssimo o seu artigo. Paulo Mendes Campos foi um grande poeta, mesmo com uma obra pequena. Mas quem leu seus poemas sabe o quanto eles são importantes e injustamente ignorados. O Mário Faustino, que foi um sujeito muito inteligente, tem talvez apenas um verso que mereça ser lembrado e não tem obra que se compare a de Paulo Mendes Campos. Quem perde nisso tudo é a cultura brasileira, cada vez mais empobrecida. Os eruditos só sabem ler o medalhões de sempre, o público não lê nada.

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