“Resíduo”, de Leonam Cunha

A Miguel Hernández Herrera

 

Deito-me com o poema

e retiro a máscara

e cuspo nas mãos

e observo as palavras

estilhaço, verme & ruína

 

O poema é esta fúria

que amanso com vaselina

Quero comer o poema

e o poema quer me comer

Durmo no escuro com ele

 

Os dias estão contados

e o poema sabe que os seus dias

também estão contados

 

Eu resgato o ataúde

e finjo chorar por seu

estado precário

E choro, por dentro,

diante de toda precariedade

 

O salário do poema é

a divulgação na imprensa

A imprensa caduca

para o poema caduco

 

Roubo a velhice das árvores

e a implanto no poema

O poema tem uma centelha de morte

Tudo por aqui tem uma centelha de morte

 

O poema se acende e eu

lavo as mãos para tocar sua pele

Restará muito pouco ao final

O poema é este resíduo.

Ilustração: Daniel Heller

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