Resistência cultural

Uma cidade que oferece um espetáculo como esse “Toque de Colher Poemas”, que assisti há pouco no Buraco da Catita, tem vitalidade para resistir a todos os governos e fundações que apareçam pela frente. Sim, nos queixamos das instituições culturais. Cobramos. Denunciamos. Assim deve ser. Estamos em nosso direito. Mas as coisas estão acontecendo independente delas.

Esse espetáculo de hoje é uma prova muito oportuna. Casa lotada para ouvir… poesia. A mais maltratada das artes, a que vende pouco. Ou não vende. Gente de todas as idades presente. Um espetáculo maravilhoso. Certamente será reapresentado e quem perdeu poderá assistir.

Há razões pra gente não desanimar. Foi o que me veio à cabeça durante o recital, que mistura música, teatro e poesia na medida certa. Antes, a revista Catorze e o Núcleo de Jovens Artistas realizaram o “Cultura em Debate”, com os candidatos ao governo do estado. Iniciativa inédita. O pessoal do Cineclube Natal faz há alguns anos um trabalho sensacional. Estive na mostra de filmes asiáticos na semana passada.

As revistas das fundações (Preá e Brouhaha) acabaram, mas existem iniciativas que – bem ou mal – tentam suprir essas lacunas na internet, como a própria Catorze e blogs como o Diário do Tempo, de Sérgio Vilar, e este Substantivo Plural, entre outros.

O pessoal do Casarão da Poesia, em Currais Novos, realiza um belo trabalho. A coleção José Nicodemos, do Sebo Vermelho, já está perto de chegar aos 400 livros. Fez mais pela literatura do RN nos últimos anos do que a FJA em mais de 40 anos. E o mais escandaloso, as fundações desconhecem totalmente este trabalho, não compram um livro sequer para as bibliotecas estaduais que possuem ou gerem.

Enfim, não são poucos os projetos e iniciativas, individuais e coletivas, que estão sendo realizados no estado nesse momento sem quaisquer ajuda governamental. Devo ter esquecido várias outras iniciativas bacanas que até desconheço ou não estou lembrando agora.

Claro, isso não exime de responsabilidade e nem minimiza a inoperância e incompetências reinantes nas instituições culturais do estado – fundações, academias, conselhos e que tais. Vamos continuar criticando-as. Mas fazendo coisas também. (TC)

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Cláudia Magalhães 30 de setembro de 2010 15:28

    Uma maravilha tudo isso! Foi uma delícia esse toque, nele colhi poemas, amigos, flores… Um grande orgulho em ter participado desse projeto.
    E, Tácito, você é o cara! rsrsrs
    Valeu, amigo!
    Beijos
    Cláudia

  2. carlos gurgel 30 de setembro de 2010 13:27

    sabemos das enormes dificuldades. tivemos o apoio de pessoas amigas. acreditando na palavra dita poesia. e me orgulho muito dos poetas que assumiram o eco dos seus poemas. um toque. uma colheita. estou orgulhoso, sim.
    obrigado Tácito,
    Cgurgel

    • Tácito Costa 30 de setembro de 2010 10:17

      Vivo e bulindo – rs. Valeu Jorge, tem mais coisas massas acontecendo no estado. A lista está em aberto.

  3. Ramilla Souza 30 de setembro de 2010 9:43

    Você esqueceu de comentar do que é produzido na Universidade, Tácito. Existe uma galera que tem um olhar para a arte experimental hoje aqui em Natal.

    É certo que existe produção sim, mas, se a gente for comparar, é bem menor do que em outra capitais perto daqui como João Pessoa, Fortaleza e Recife nem se fala, né. Que existe, existe, mas passa longe de ser o, por assim dizer, número adequado.

    Mas, a cidade vem mudando mesmo. Esse espaço das quartas-feira no Buraco da Catita e o espaço dedicado a performance arte no Tecesol são uma prova disso.

    • Tácito Costa 30 de setembro de 2010 10:04

      Lembrei da Editora, na hora que estava escrevendo, que tem editado obras importantes. Mas preferi citar pessoas ou grupos de fora das instituições. Mas, por justiça, a UFRN merece ser citada sim. Valeu, abs

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  5. João da Mata 30 de setembro de 2010 9:23

    É isso ai Tacito e Sérgio.

    Caro Sérgio, o teu texto no DN tá muito bom. Digno do espetáculo e dos poetas que se apresentaram.

    Quero mais toque. Marquem outra apresentação.

    Não foi possivel chegar lá. Compromissos

  6. Sérgio Vilar 30 de setembro de 2010 0:55

    Muito oportunas essas palavras, Tácito. Iria escrever algo nesse sentido. Senti-me provocado quando comentaram dos críticos que criticam e não prestigiam os artistas que foram ao TAM, em plena noite de dia útil. Prefiro a opinião dos próprios a meu respeito. Fiz um esforço, faltei reunião do Sindicato e compareci ao ensaio do Toque de Colher Poemas. Fiz matéria no dia seguinte, publicada no DN. Preferi prestigiar quem faz independente da mendicância cultural. E ainda mais elevando a poesia, como você bem frisou. Aposto que foi experiência mais agradável do que assistir Seo Severino – um dos artistas contemplados com o edital – barrado no TAM. Isso sim é desprestígio.

    Essa galera que reclama e produz são os verdadeiros artistas. Fundações, “afundações” e frustrações existem no Brasil inteiro. A cultura é costumeiramente renegada em âmbito estadual. E aqui é pior. O gráfico divulgado por Yuno Silva e Ramilla comprovam isso. Esse segundo mandato estadual foi um desastre. Não, não é comentário eleitoreiro. Meu voto é nulo. E basta comparar com o primeiro e sentir a diferença. E é bom frisar: Carlos Gurgel e sua trupe nada receberam – se o financeiro é a moeda de troca. Embeberam-se de poesia, de prestígio midiático e humano. Produziram, colheram poemas e resultados!

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