Respostas dos fatos

Por Janio de Freitas
FSP

Se não foi o farto petróleo líbio, outros motivos alheios aos interesses do Brasil moveram Inglaterra e França

POR ACASO OU por uma percepção política providencial, a comprovada intervenção militar da Inglaterra e da França na Líbia, em transgressão à limitada ação aérea humanitária autorizada pela ONU, vale como uma primeira aprovação à atitude brasileira de abster-se de envolvimento na questão líbia. A aprovação ou reprovação pendente diz respeito à ausência de reconhecimento dos rebeldes como governo líbio, mas a resposta requer mais tempo.

Com tanta opressão violenta no Oriente Médio e na África, nem muita ingenuidade faria crer que os governos de Sarkozy e de Cameron se comovessem com o despotismo do seu aliado, contraparte em altíssimos negócios e hospedeiro Gaddafi. Iêmem, Barein, Arábia Saudita e Síria deram e dão exibições de ferocidade desumana que não inspiram, a título de reprovação pelos chamados líderes ocidentais, nem ao menos uma retórica melhorzinha. Sequer a história oferece exemplo de intervenção militar de Inglaterra e França por motivos humanitários.

Se não foi o petróleo líbio, farto e privilegiado pela qualidade, outros motivos alheios aos interesses brasileiros moveram os governos de Inglaterra e França. Aos quais mesmo Barack Obama não quis se associar mais do que no primeiro momento, e em maior aparência do que ação. Da limitada zona de exclusão permitida pela ONU, ingleses e franceses passaram ao ataque aéreo às forças do ditador, e logo a bombardear a capital Trípoli. Seguiu-se o armamento dos rebelados e, comprovadas por postos de fronteira, as infiltrações terrenas de ingleses. Foi positivo não haver colaboração brasileira para isso.

O não reconhecimento dos rebeldes como governo, e a espera da posição da ONU para fazê-lo, foram justificados pelo ministro Antonio Patriota com o argumento de que “o Brasil não reconhece governos, reconhece Estados”. Resposta de diplomata. Como informação explicativa, nada. Ficou claro que as razões reais, sejam quais forem, são sérias para exigirem a tergiversação.

Mas é certo que a situação líbia é muito dúbia, amorfa mesmo. Como estão as tribos que já dividiram a Líbia, os seus poderes políticos e a sua força material -são imprecisões importantes. E os rebeldes, com tantas faces, e o improvisado Conselho de Transição, quem são eles e qual de suas correntes teve precedência ou tende a predominar -são outros mistérios que sugerem cautela nas apostas. Mas não são estas as incertezas mais graves.

Daqui a 30 dias expira a autorização dada pela ONU para a ação limitada humanitária, que os governos inglês e francês transformaram em intervenção. Os motivos que moveram os dois governos para a Líbia, mas não para as outras realidades idênticas, tanto podem levar à sua plena retirada do episódio, como à mais provável adoção de manobras para sua permanência como forças de influência determinante na Líbia. Por interpostas organizações locais ou, na pior hipótese, até por alguma forma menos indireta. Aí o futuro é opaco. E mais ainda no que esperar dos rebeldes, em qualquer das situações possíveis no país desprovido de estrutura mínima de Estado. Rebeldes tão decididos quanto caóticos. E armados, bem armados.

É esperar para ver se Brasil mais acertou do que errou, ao não reconhecer o que não se saberia estar reconhecendo, além de reconhecer a brava determinação, de parte dos líbios, de acabar com outro ditador.

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