Retorno a Monteiro Lobato

Amigos e amigas:

Gosto muito de Monteiro Lobato, apesar do episódio infeliz dele em relação a Anita Malfatti (“Paranóia ou mistificação?”). Como as torcidas do Flamengo, do Corinthians e do ABC, mais o auxílio luxuoso de Clarice Lispector (“Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”), aprendi a ler literatura através dele. Por esse motivo, tenho grande receio diante do arroubo anti-racista que agora o atinge. É preciso ler literatura com cuidado!

Vocês leram “Negrinha”? Conhecem denúncia mais grave e comovente que essa sobre a situação dos negros DEPOIS da Abolição? Tá bom, tem Lima Barreto (“Clara dos Anjos” foi editado por Monteiro Lobato!), tem umas lembranças sobre o dia da Abolição em “Menino de engenho”, tem as denúncias de imigrantes vendidos e comprados como escravos e os panfletos dos marinheiros na Revolta da Chibata… Mas “Negrinha” é muito forte!

As pessoas se apegam a detalhes de linguagem que assumiram significados pejorativos depois ou tinham significados pejorativos fora daquele contexto literário específico que Lobato inventou. Dizer que Tia Nastácia parecia uma macaca de carvão, a meu ver, lembra a agilidade esperta dessa mulher – macaco não é bicho idiota, carvão é cor linda! E não sei como entender a cultura tradicional fora dos diálogos entre Dona Benta, Tia Nastácia e Tio Barnabé.
Precisamos ler mais Monteiro Lobato, grande figura. Precisamos criticar o racismo onde ele efetivamente está.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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