Retorno adiado

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Nada do que a moça dizia chegava aos ouvidos moucos do velho, seu pai. Apenas um sibilo lhe provocara uma abertura súbita e ampla dos olhos perplexos e azuis, com as acinzentadas olheiras caindo até as maçãs barbadas do rosto.

Tudo dava prova de que o vetusto Dico “Baleeiro” não havia compreendido, sequer minimamente, a história por ela contada. A jovem senhora, assim vencida, parou, desistiu e recuou, já com o humor debilitado pela vã tentativa de persuadi-lo.

O velho, então, deu de ombros, voltou-se à balaustrada e ficou a olhar fixamente o barco que se aproximava do cais. Passou todo o tempo das manobras da embarcação estrangeira mirando a bandeira que tremulava pálida e com rasgões, lá no alto do mastro.Descobriu, mais cedo do que esperava, que aquela não era a nave marítima a que servira. Na verdade, o fundo do oceano a guardava já havia três dezenas de anos.

O capitão – pelo que todos ficaram sabendo – jamais abandonara o barco em naufrágio. Muito menos aquela que havia destinado profundo e verdadeiro amor aos dois homens de destinos tão diferentes.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 13 de outubro de 2011 15:57

    Ô, meu bom Aldo! Honra é ter você – quem considero um dos grandes mestres da prosa no Nordeste brasileiro – lendo meus garranchos e rascunhos experimentais.

    Um abraço forte e vibrante!

  2. Aldo Lopes de Araújo 13 de outubro de 2011 14:50

    Eita Lívio velho de guerra!
    O capitão de longo curso voltou.
    E voltou com força.

  3. Lívio Oliveira 13 de outubro de 2011 13:13

    beleza, AMIGO.

  4. Jarbas Martins 13 de outubro de 2011 9:23

    beleza, POETA.
    lembrei-me de uns versos de Maiakóvski, dando por encerrado um dos seus amores:” o barco do amor/ encalhou no cotidiano”.

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