O retorno amoroso de Mário de Andrade

Por Lívio Oliveira

Eu não acreditava que encontraria Mário de Andrade lá na Ribeira. A esta altura do campeonato do século XXI…? Necas! Improvável! Acontece que decidi passar por aquelas bandas natalenses para marcar presença em evento festivo-literário que me agrada ver e me integrar, mesmo que já esteja na hora de sabermos sobre mudanças do Tempo Rei e que ultrapassem as eras eucanaãs. Nessa descida até a Praça, a mesma praça, as mesmas flores, o mesmo jardim (tudo é igual), recebo em mãos uma preciosidade das mãos macunaímicas de Abimael Silva, grande condutor do Expresso 2222 do Sebo Vermelho, que parte direto da Cidade Alta. Pra depois, logo depois, começar a ler e apreciar com olhos de ouvir e ouvidos de ver aquele magnífico item literário que Abi publicou pelas suas edições.

Mário de Andrade estava ali. E se apresentou grandalhão e grandioso. Trata-se dele em “O Viajante Amoroso”, novo livro (com textos antes somente publicados no jornal literário O GALO – maio a julho de 1997) de um Mestre de todos nós, Tarcísio Gurgel, sujeito fantástico, até mesmo difícil de encontrar parecido numa época destas, de tantas deselegâncias, indelicadezas e desinteligências. E reconheci, de imediato, a elegância do texto. Era e é de Tarcísio. A afirmação era e é minha. E de quem for ler essa beleza tripartida (são três os textos, formando ao todo um ensaio peculiar que se reporta à quase mítica viagem de Mário de Andrade ao Rio Grande do Norte entre o final de 1928 e início de 1929): “Mário na terra de Luís” é o primeiro, seguido de “O Viajante Amoroso” (título que nomeia também o livro) e “À margem do aprendizado” (de caráter mais didático e reflexivo, fruto de debate em Mesa Redonda).

Vicente Serejo, reconhecidamente um estudioso da obra marioandradina, apresenta brilhantemente o livro de Tarcísio, já deixando clara a importância dessa nova publicação, ao declarar: “A visita de Mário de Andrade ao Rio Grande do Norte tem a força de uma presença fundadora de novos saberes e fixadora de novas fronteiras. Suas anotações em praticamente todos os campos da cultura popular, e mesmo publicadas em 1976 – quase cinquenta anos depois da viagem, e trinta e um anos passados de sua morte – demarcaram o antes e o depois nos estudos da cultura popular.”  Em página anterior, Serejo já afirmara com ênfase: “A viagem anotada por Mário de Andrade que neste ensaio de Tarcísio Gurgel ganha o melhor estudo de compreensão escrito entre nós até hoje…”. Daí, já se percebe que os caminhos a serem percorridos através das orientações do autor são tão preci(o)samente indicados, como se ele, Tarcísio, fosse o próprio “chauffeur” dos vetustos automóveis do Coronel Cascudo ou de Antonio Bento. Tarcísio não deixa o carro deslizar em pista escorregadia. Só nos cabe, então, abrir porteiras. E passear os dedos e os olhos por essas saborosas páginas escritas. Só a ganhar com isso. E aprender e compreender.

Alumbramentos.

Mário os experimentou por estas bandas. Nós os experimentamos pela leitura. E percebemos a existência dos mesmos em um texto tríplice que se situa entre as imbricadas narrativas de Tarcísio e Mário, com sensações ficcionais e em tons de dramaturgia (principalmente na segunda parte), mesmo que surgindo de matéria decorrente de pesquisa intensamente apegada à realidade dos fatos. A narrativa é gurgelandradiana. É como se as algaravias e as luminosidades desta terra barulhenta e ensolarada perturbassem e apaixonassem ambos simultaneamente.  Até porque é fato que Tarcísio adentra na tarefa hercúlea de pensar como se Mário fosse, em simbiose perfeita, olhando com os mesmos olhos míopes-paulistanos e óculos arredondados-lennon-lampiônicos por uma janela escancarada de um casarão de Natal ou da sede da Fazenda/Engenho Bom Jardim. Até o horizonte…. “Ah…esta vida sem horários!”.

Constata-se, diante de toda essa trajetória percorrida e relatada: O operoso Mário, no seu empreendimento apaixonado de redescobrir o Brasil e fixar elementos que permitissem uma conceituação adequada sobre a identidade nacional, terminou colaborando também com outra tarefa – tão complexa, ainda em curso – de compreensão e interpretação do Rio Grande do Norte. E é de se destacar fortemente, nesse contexto, por evidente e profunda, a importância histórico-cultural de sua amizade com Luís da Câmara Cascudo e as influências recíprocas.

Mário morreu um pouco de saudade. Na verdade, morreu muito disso. Sofreu. Quis retornar pra verouvir Chico Antônio e seu canto. Não conseguiu em vida. De uma forma muito inteligente e eficaz, Tarcísio Gurgel nos trouxe Mário de volta. Mário retorna à vida e à sua casa presenteada, que nunca chegou mesmo a existir, mas está fixa na memória inconsciente, lá em Areia Preta, em meio a coqueiros e ventos e sonhos. Vamos todos ao seu encontro, numa dessas tardes preguiçosas de sábado, tendo esse livro em mãos e diante dos olhos, o que nos fará até acreditar que o coquista predileto, cantador do Boi Tungão, também estará por lá, tomando umas caninhas com Mário, Cascudinho de polainas (suas cartas iniciaram essa história toda) e com os demais personagens da saga viajora, dando saltos dançantes e criando melopeias pra gente toda, na sedutora e misteriosa “pancada do ganzá.”

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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