Retorno de uma senhora

Por Marcelo Coelho
FOLHA DE SÃO PAULO

Ela está de volta. Durona, implacável, corajosa, combativa. Trata-se de Camille Paglia, a autora de “Personas Sexuais” e “Vampes e Vadias”, livros que fizeram furor por aqui durante a década de 1990.

Feminista, ou melhor, antifeminista, não dá para saber ao certo, Camille Paglia reunia como ninguém um conhecimento erudito respeitável e um gosto pronunciado pela cultura “pop”. Passava de Madonna a John Donne (1572-1631) em poucas linhas, achando espaço para dar, pelo caminho, cotoveladas nas gerações anteriores de defensoras dos direitos da mulher.

Ela destacava o quanto a beleza e a sensualidade femininas podem transformar-se em um formidável instrumento de poder. A diva manipuladora, destilando friamente seus intoxicantes venenos hormonais, seria uma resposta mais interessante à opressão masculina do que a mulher liberada e correta, construída sinteticamente a partir da carta dos direitos de 1789.

Esta, pelo menos, era a fantasia particular da própria Camille Paglia, que tratou de construir ela própria um tipo de beleza agressiva, encouraçada, viril. De origem católica, como Madonna, a autora de “Personas Sexuais” defendeu o aborto, os gays e a literatura clássica de língua inglesa com armas novas; a novidade, entretanto, passou.

Mas Camille Paglia está de volta, num livro publicado nos Estados Unidos em 2012, e que acaba de ser traduzido para o português por Roberto Leal Ferreira.

Muito ilustrado, em papel brilhante e capa dura, “Imagens Cintilantes” (editora Apicuri) traz os comentários de Camille Paglia a algumas das mais significativas obras de arte da cultura ocidental, como a “Vênus no Espelho”, de Ticiano, “Les Demoiselles d’Avignon”, de Picasso, ou a “Morte de Marat”, de Jacques-Louis David.

A mais importante surpresa do livro, entretanto, é que Camille Paglia adotou um tom comportado, contido, quase escolar. A publicação mais parecida com “Imagens Cintilantes”, na verdade, seria a “História da Pintura” da irmã Wendy Beckett.

A religiosa carmelita sul-africana, feinha que dói, tornou-se uma estrela televisiva explicando, de maneira muito pessoal e encantadora, os quadros célebres de todas as épocas. Camille Paglia adota o mesmo tom didático, apresentando em largos traços a religião egípcia, por exemplo, antes de dedicar dois ou três parágrafos ao que um retrato da rainha Nefertari, em Luxor, possa ter de mais específico.

Curiosamente, Camille Paglia parece deixar em segundo plano, na análise de algumas pinturas, aspectos de identidade sexual que deveriam ser os primeiros a chamar sua atenção. “No Café”, de Édouard Manet, mostra um cavalheiro de cartola ao lado de uma “jovem que parece cansada, chateada, deprimida”.

A autora não comenta as sobrancelhas juntas e o bigodinho da moça, quase uma Frida Kahlo com décadas de antecipação. A masculinidade da figura tinha tudo para acender as imaginações da autora.

Em outros momentos, seu poder associativo funciona até demais. Numa esplêndida estátua de Maria Madalena, feita por Donatello (1386-1466), também comentada pela irmã Wendy num de seus livros, Camille Paglia alude à possível inclinação do escultor para a “pederastia”.

Destaca a “florescente cena gay” da Florença renascentista, e pergunta se a figura da Madalena arrependida não significaria a renúncia de Donatello “às aventuras sexuais do passado”.

Pior que tudo é o último capítulo, em que o polemismo pop de Camille Paglia retorna em plena força. Ao lado de Jackson Pollock e Bernini, a autora inclui George Lucas no seu panteão artístico.

O diretor de “Star Wars” teria sido a única figura cultural, na passagem do século 20 para o 21, a ter “a ousadia pioneira e o impacto mundial que associamos aos mestres do modernismo vanguardista”. Só ele? Que tal Michael Jackson, David Bowie ou Madonna? Que tal nenhum deles?

Esquecendo esse tipo de coisa, o livro de Camille Paglia está repleto de percepções poéticas e bons esclarecimentos. A respeito das cariátides do Erectêion, na Acrópole de Atenas, ela diz que “é transparente o ar ao seu redor”.

Destaca um lindo quadro do afro-americano John Wesley Hardrick (1891-1968), em que é retratada “uma mulher que conhece o mundo e se sente em casa nele”. É algo que, críticas à parte, pode ser dito com justeza de Camille Paglia também.

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