Retrato do artista

Calculadora Logos 270, Olivetti, Guarulhos-SP, 1974 (Acervo IMS)

Por Eucanaã Ferraz
BLOG DO IMS

O texto abaixo integra o catálogo da exposição “Flieg Fotógrafo: Indústria, Design, Publicidade, Arquitetura e Artes”, promovida pelo IMS, que será inaugurada no dia 20/9 no MAC USP Ibirapuera.

Esta fotografia decerto foi concebida para campanha publicitária da Logos 270, calculadora eletrônica de mesa produzida pela Olivetti entre 1969 e 1970 que, além de assinalar um avanço tecnológico (com o uso do circuito integrado, passava-se da mecânica à eletrônica na produção das máquinas de calcular), se tornou um grande sucesso comercial e valeu a Mario Bellini, seu designer, o prestigioso prêmio Compasso d’Oro, em 1970.

Mas, sem qualquer legenda, o que a fotografia nos diz? Ou, ainda, qual sua mensagem publicitária? A imagem frontal não destaca este ou aquele ângulo, tampouco evidencia praticidade, rapidez e outras virtudes técnicas. Não há descrição. Apenas o papel, desalinhado, indica sutilmente a realização incansável, porque descomplicada, da tarefa destinada à calculadora. Digamos que, dentro de certa lógica da propaganda, o arranjo tem uma frontalidade que coloca o espectador diante de uma espécie de franqueza total, ou de lisura, como se a máquina propusesse uma abordagem face a face, incompatível com a fraude ou o ardil. Há simplicidade, elegância e modernidade. A fotografia mostra, assim, um caráter, perceptível mesmo sem o acompanhamento de mensagens informativas. Mais que isso, livre do contexto para a qual foi produzida, deixa mais patente sua construção e sua força expressiva.

A sintaxe não poderia ser mais clara. E o que sobressai de imediato na composição dual é a simetria. O fundo infinito exibe flagrante correspondência entre os dois lados, formados por objetos interdependentes e de proporções equilibradas: o emaranhado de papel e a máquina. A luz distribuída por igual, a disposição simétrica dos volumes, tudo colabora para a harmonia do quadro, cujo efeito primeiro é a extrema objetividade. Apesar de sua pureza um tanto fria, não seria um erro afirmar que aquela configuração poderia se dar, ocasionalmente, sobre a prosaica mesa de um escritório. Há, desse modo, uma representação fiel. Ou nem tanto? Existe uma construção rigorosa ali. Mais que isso, certa beleza inquietante.

Quanto ao formato escolhido, em vez do quadrado – que emprestaria à foto um equilíbrio geométrico mais estável, e também mais estático –, Flieg optou pela horizontalidade do retângulo, obtendo com isso um sugestivo efeito dinâmico. Assim, o olhar é levado a experimentar, na dualidade simétrica da imagem, as suas assimetrias. De um lado, tem-se a oscilação das curvas de papel, dispostas de modo escultural e melódico, cujo traçado é a um só tempo planejado e submetido ao ritmo irregular das ondulações sugeridas pelo próprio papel, ou melhor, por sua resistência; há uma viva luminosidade, tornada mais quente por oposição às pequenas zonas de sombra projetadas pelas sobreposições e acentuada pela natureza vegetal da matéria. Do outro lado, a luz é também intensa, mas fria, espalhando-se praticamente por igual sobre a superfície plana da máquina; o sólido exibe como qualidades a limpidez, a correção e a regularidade da geometria ou, ainda, do ângulo reto. Se esse é o domínio do objeto útil, do avanço técnico-produtivo, da fabricação racionalizada, a visão da Logos 270, na foto de Flieg, não se limita a aspectos tecnológicos e econômicos, antes propondo valores mais amplos, como cálculo, racionalidade e disciplina; além disso, num quadro altamente depurado e rigorosamente construído, a máquina encerra uma pedagogia plástica baseada na precisão e na nitidez.

Em que pesem tais diferenças, não resulta da imagem qualquer conflito. O assomo de padrões aparentemente antagônicos dá-se num quadro tão sóbrio quanto delicado. Em vez do choque entre acaso e construção, racionalidade e expressão livre, curva e ângulo reto, leveza e peso, há uma vizinhança amena. Ou, mais que isso, uma relação complementar. Assim, é por tudo eloquente o fato de a máquina estar fisicamente enredada: o ondeado de papel prolonga-se à sua frente, passa-lhe por trás, eleva-se, projeta-se mais uma vez à frente, lança-se sob a parte frontal da caixa, sobe adiante e, por fim, conclui a espiral – verticalmente – sobre o tampo. Trata-se de um largo abraço, que açula o olhar e determina um fluxo contínuo da atenção. Em tal entrelaçamento está em questão, decerto, mais que a Logos 270: é o próprio maquinismo que se vê envolvido por outras forças.

Se o ninho de papel instala-se como um organismo vivo, sua sedução vegetal associada ao fascínio geométrico-mineral da máquina lembra certo encaminhamento moderno: no imediato contexto brasileiro, faz pensar na arquitetura ondulante de Niemeyer na Pampulha, em Brasília ou na Casa das Canoas; abrindo o campo de referências, remete às formas ameboides exploradas por Jean Arp, mas também por Charles e Ray Eames na célebre poltrona La Chaise, ainda em 1948, e em um sem-número de objetos de mobiliário anônimo e de decoração ao longo das décadas de 1950 e 1960; reporta às formas orgânicas adotadas por Alvar Aalto ou por artistas como Miró e Calder; recuando-se a 1929, alude ao edifício-serpente proposto por Le Corbusier para a orla marítima do Rio de Janeiro, e, adiante, à capela Notre-Dame-du-Haut, em Ronchamp; e evoca o interesse de Charlotte Perriand por ossos e pedras, elementos decisivos para o trabalho de Henry Moore. Enfim, lembra toda uma linhagem de criadores e obras, de objetos e discursos, que se estendeu ao longo do século XX para ganhar nova força com o afrouxamento de certa gramática modernista pautada pela racionalidade e pela geometria – ou pelo puro maquinismo – como preceitos inquestionáveis.

Ainda sobre a dinâmica do excepcional arranjo criado por Flieg: ao estabelecer um campo estruturalmente organizado, o fotógrafo optou pela dualidade, ocupando os cantos do retângulo, muito embora o centro servisse mais facilmente para se destacar o elemento principal – a máquina. Tal opção, sem dúvida, daria à composição estabilidade e repouso maiores. Mas Flieg elegeu o movimento. Considerando que nossa apreensão dos planos (como um quadro ou uma fotografia) inicia-se pelo lado esquerdo, a escolha foi arriscada, já que o objeto protagonista foi deslocado para a direita. Os olhos do espectador, assim, encontram primeiro a sinuosidade do papel para só depois se defrontarem com a calculadora. Com isso, não só parece haver uma alteração de valores como se inverte também a posição esperada, já que a profusão de papel seria resultante da ação da máquina. A imagem, portanto, desloca as circunstâncias previsíveis de tempo e espaço, de causa e efeito. Mas por certo não há que se compreender esse deslocamento como uma ironia. Em primeiro lugar, porque tal modo de exprimir-se não está presente nos trabalhos de Flieg; em segundo, porque o prestígio da máquina mantém-se, na medida em que, seguindo o ondeante caminho do papel, acabamos por encontrá-la: imóvel – até mesmo serena –, impondo-nos admiração.

A fotografia da Logos 270, ao encerrar uma índole, uma síntese, uma estética, poderia ser definida como autorretrato.

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