Retrato do sociólogo quando jovem

Por Fabio Victor
FSP

Retrato do sociólogo quando jovem Confissões de Gilberto Freyre

“De Menino a Homem”, volume inédito de memórias, revela as circunstâncias da gestação de “Casa-Grande & Senzala” (1933), obra-prima de Gilberto Freyre, durante temporada passada nos Estados Unidos, bem como suas impressões do ambiente intelectual brasileiro no século 20 e confidências sexuais e familiares do autor.

EM 1931, QUANDO RECEBEU GILBERTO FREYRE como professor visitante, a Universidade Stanford era, no dizer dele mesmo, uma escola de estudantes “ricos, eugênicos e belos”, “talvez a mais aristocrática dos Estados Unidos, então”, e abrigava “a maior Brasiliana da época em qualquer parte dos Estados Unidos ou, talvez, do mundo”, organizada pelo reitor ?John Casper Branner, geólogo e brasilianista.

Freyre tinha 30 anos. Vinha de Lisboa -onde se exilara depois da a Revolução de 30 e “por vezes, passara fome”- a convite do professor Percy Alvin Martin, que, a crer no convidado, avaliou como “obra-prima” a tese que o jovem acadêmico defendera em 1922 na Universidade Columbia, “Vida Social no Brasil nos Meados do Século 19”.

Para quem foi alfabetizado em inglês, formou-se em artes em Baylor, no Texas, pós-graduou-se em Columbia e acabava de passar por um aperto em Portugal, o novo ambiente causou encanto súbito e ajudou a produzir grandes coisas. Se foi em Lisboa que Freyre teve a ideia de escrever “Casa-Grande & Senzala”, Stanford seria o laboratório e nascedouro da obra, lançada em 1933.

“Os programas que comecei a elaborar para os dois cursos que iria professar se tornariam os primeiros esboços desse futuro livro”, relata Freyre no inédito “De Menino a Homem” [Global, 256 págs., R$ 59], que sai às vésperas da Festa Literária Internacional de Paraty. O sociólogo pernambucano é o homenageado da Flip neste ano, de 4 a 8 de agosto.

Num tom memorialista, próximo ao de um diário, o livro abrange histórias de 1930 ao início dos anos 80. É a continuação de “Tempo Morto e Outros Tempos” (1975), memórias da adolescência e primeira juventude, que cobrem de 1915 a 1930. Reúne fac-símiles de cartas e cartazes, um anexo com artigos de jornal escritos por Freyre e um álbum de fotografias.

DE VOLTA

Ao deixar a universidade californiana, Freyre conta que “Casa-Grande & Senzala” já estava “nas suas bases, estruturado”. De volta ao Brasil, o amigo Rodrigo Mello Franco de Andrade lhe consegue como editor o poeta Augusto Frederico Schmidt, com quem Freyre travaria uma “dura e humilhante” batalha para receber os adiantamentos.

“Um teste severo para um pernambucano sem vocação de pedinte de favores. O que eu entendia era haver um contrato. Que esse contrato me dava direitos”, conta ele. “Mais de uma vez, entretanto, ao ir à livraria do editor, notei que Schmidt procurava esconder o vasto corpanzil atrás de um não de todo pequeno cofre, com o caixeiro dizendo-me estar o Sr. Schmidt ausente.”

Os originais de “Casa-Grande & Senzala” foram datilografados pelo artista plástico Luís Jardim. Os leitores seguintes foram Manuel Bandeira e Rodrigo M. F. de Andrade, segundo Freyre “dois amigos que de início se mostraram de todo identificados com a obra para eles originalíssima”. No embarque do vapor que levou os originais do Recife para o Rio, parte das páginas caiu no mar. Não havia cópia, e “recuperou esses originais um bom marinheiro”.

Um festão celebrou o que Freyre define como “êxito imediato do livro”: “Nunca, numa festa do Recife […] correu tanto champanhe.

[…] Nem houve tanto descontraído abraçar e beijar”.

BRILHO NOS OLHOS

Já que a modéstia nunca foi o forte do autor, a obra é por demais autorreverente. Freyre muitas vezes fala de si na terceira pessoa. Numa passagem, conta que, apoiado na teoria de um psicólogo americano que identificaria os gênios pelo brilho dos olhos, o tal professor Martin lhe tomou por um. “Confessou-me […] ter se impressionado com o brilho dos meus olhos. Confirmavam suas suspeitas.”

No ambiente político polarizado da ditadura de 1964-85, no entanto, não havia quem enxergasse brilho nos olhos do sociólogo. Ele se queixa da pouca repercussão de sua obra no Brasil, fruto, diz, do “patrulheirismo” que vigorava em “semanários e jornais”, na forma de “silêncios como que articulados, coordenados, sistemáticos” -e combate as “agressões intelectuais” sofridas, citando Nelson Rodrigues, outro que enfrentava o isolamento.

Criticado também na academia, Freyre (contra-)ataca a USP, onde Florestan Fernandes encabeçava uma sociologia científica oposta às ideias do pernambucano. Repele o “submarxismo sectariamente ideológico” dos colegas paulistas, mas faz uma exceção: “O que de modo algum inclui um marxista do tipo de Fernando Henrique Cardoso”. FHC fará a conferência de abertura da Flip, sobre a obra de Freyre, debatendo com o historiador Luiz Felipe de Alencastro.

O livro inédito traz também comentários sobre as experiências políticas do intelectual, como o mandato de deputado federal constituinte em 1946 e a recusa ao convite de Getúlio Vargas para integrar seu governo, em 1937. O autor diz ter sido informado, depois da recusa, de que Vargas queria fazê-lo ministro da Educação “e, na época, creio que também de Saúde”. O ditador, diz Freyre, fechou a cara. “Mas concordou em nomear um obscuro cunhado meu para fiscal de consumo.”

A experiência em Stanford na concepção de “Casa-Grande & Senzala”, assim como o acabamento e a recepção à obra, dominam “De Menino a Homem”, ao lado de confidências sobre sexo, religião e família, contadas sem o menor embaraço.

EFEBOS

Freyre se gaba de suas conquistas, como a “linda californiana” que conheceu em Stanford (“Fez-me […] um elogio sensibilizador: que, como latino, eu sabia agradar mulheres, um modo, para ela, nem sempre dos jovens anglo-saxões”), e as experiências homossexuais que teve quando jovem, “sempre rarissimamente, com efebos que teriam se oferecido a mim”.

Refere-se a “dois casos, rápidos e experimentais, por pura iniciativa deles”, em Oxford -“Tão nórdicos, eles, como o de meu caso na Alemanha”. Alude aí ao episódio com um jovem michê na Berlim de 1922. “Eu próprio, diante de lindo efebo louro, não resistira aos seus encantos. Deixara-me masturbar por ele, com Vicente do Rego Monteiro servindo de tapume.”

Ao elogiar a culinária de San Francisco, observa que a comida confere feminilidade à cidade. “E como que acentuava, nas californianas, seu ‘sex appeal’. Sexo e paladar andam, por vezes, juntos. Mulher que não se interessa por culinária dá ideia de não ser de todo ‘sexy’.”

CONVERSANDO COM DEUS

Freyre conta que sua formação religiosa deixou de ser “convencionalmente católica romana, para tomar aspectos individualmente protestantes ou evangélicos”. À sua maneira, mostra preocupações com “essa questão da linguagem em que o homem se comunica com Deus”, considerada “de uma extrema importância”.

Preferia rezar numa liturgia própria. “Quando, conversando com Deus, abordo assuntos sexuais, que palavras uso para designar fatos dessa espécie? Só as eruditas? Só as elegantes? Só as cerimoniosas?”, indaga-se.

“Devo dizer que não. Por vezes, decido que Deus prefere que, como seu íntimo, seu amigo, seu confidente, os termos relativos a coisas de sexo sejam os cotidianos e até, dentre os cotidianos, os mais crus. Caralho, por exemplo. Não há sinônimo […] que diga o que diz. […] O mesmo quanto a foda: foda é foda. Boceta é boceta. Enrabar é enrabar.”

O escritor é menos cru ao falar dos pais (mais da mãe, Francisca, que do pai, Alfredo), do irmão Ulysses, do casamento com Magdalena, “a esposa certa, ideal, materna”, e do primeiro amor adolescente, Dulce Ribeiro de Brito.

“De Menino a Homem” termina de forma abrupta, com o relato, “quase de teatro de Ionesco”, de um episódio com a baronesa de Estrela, personalidade do Império (1822-89) que colaborara com depoimentos para livros anteriores do escritor. Ela teria levado o sociólogo a seu “apartamento íntimo” em Copacabana, fazendo-o comprovar como seus peitos eram “duros, eretos e jovens”.

Tratava-se de uma mulher bonita. E, assim como outros amantes mencionados no livro, tinha um atributo que costumava encantar Freyre: a baronesa era loura.

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