Revelações de Ledo Ivo

Por Affonso Romano De Sant’Anna
ESTADO DE MINAS

Há quase 70 anos Ledo Ivo frequenta escritores e artistas. Agora, aos 87, no livro O vento e o mar, conta coisas curiosas sobre as personalidades que conheceu. É uma espécie de biografia indireta. O livro é chiquérrimo e colorido, com fotos, poemas, etc. Desde os 14 anos, em Maceió, Ledo era uma promessa e, mudando para o Rio, foi saudado como o novo Rimbaud. Frequentou portas de livraria, o Amarelinho, a Academia Brasileira de Letras e conheceu a casa e a intimidade de muitos escritores.

Sobre Graciliano: “Respeitava Machado de Assis, mas em certas horas o chamava de ‘negro metido a inglês’”. Cioso de sua branquidade, assinala, Graciliano tinha preconceitos raciais. São numerosas, em sua obra, as alusões depreciativas a mulatos ou nordestinos amarelinhos: “Graciliano chegou até a perguntar ao antropólogo Artur Ramos se Heloisa, sua segunda mulher, era branca. E obteve dele a informação pouco tranquilizadora de que se casara com uma mestiça” .

Quando Graciliano fez 50 anos, em 1942, “seus amigos lhe ofereceram, no Lido, um jantar de grande repercussão. O dinheiro arrecadado antecipadamente superou os gastos, de modo que os organizadores da comemoração lhe deram a sobra, para comprar uma roupa de casimira inglesa, com a qual, aliás, compareceu à recepção”.

Ledo Ivo anota ainda que Graciliano, depois de ser preso pela ditadura de Getúlio, foi solto e foi trabalhar logo no DIP, órgão de propaganda e censura do governo.

Quando Ledo chegou ao Rio e começou a frequentar a roda de escritores nas livrarias, um figurão lhe disse: “Você não vai conseguir nada, meu filho!”. Hoje, Ledo é um nome internacional da poesia brasileira, como mostra a iconografia do livro. Em Maceió, tem um sofisticado Memorial Ledo Ivo no Museu Palácio Floriano Peixoto.

Quando jovenzinho, apresentado a Manuel Bandeira, este lhe perguntou: “Ledo Ivo de quê?”. Parecia faltar algo no nome. Bandeira e outros chamavam-no, às vezes, de Ledo Ivo de Araújo. Lembra que Bandeira deixou Oswald de Andrade de fora na sua Apresentação da poesia brasileira e, quando se candidatou à Academia Brasileira de Letras, teve que pagar do bolso a edição de suas Poesias, pois não tinha editor.

Ledo revela, graciosa e ironicamente, aquele caso de Bandeira querer dormir com uma negra antes de morrer. “Tendo transmitido esse desejo supremo a um amigo empresário, este se comprometeu a torná-lo realidade com uma frase solene: ‘A Casa se encarrega de tudo’.” Contrataram uma vedete negra, que pediu “um preço respeitável”. Mas o médico de Bandeira soube da transação e, considerando a idade avançada do vate, vetou a “derradeira aspiração carnal do poeta”.

Embora conte também estórias de José Lins, Rachel de Queirós, Vicente do Rego Monteiro e outros, sente-se falta de João Cabral, que Ledo conheceu muito bem. Assim como reescreve a vida de seus contemporâneos, ele precisa ser revisto e reescrito. Como Ledo atacou, até exageradamente, os modernistas de 1922 (Drummond, por exemplo), foi massacrado por esses e pelos vanguardistas de 1956. Mas a vida é reescritura permanente. Muitos escritores dessa safra foram ocultados e têm que ser resgatados. Um deles é o Paulo Mendes Campos, sobre quem escreverei a qualquer hora.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Marcos Silva
    Marcos Silva 7 de Agosto de 2011 14:57

    Tive a impressão de que Lerdo não tem nada a dizer!

  2. Marcos Silva
    Marcos Silva 7 de Agosto de 2011 21:20

    Mário de Andrade, na vida privada, usava maquiagem para disfarçar sua cor de pele, evidente auto-racismo.
    Mário de Andrade escreveu Macunaíma. O personagem nasceu preto e morreu branco após se banhar numa fonte mágica; um de seus irmãos se banhou na mesma fonte que branqueou o primeiro mas á água estava meio suja da cor deste e o irmão ficou apenas mulato; o terceiro dos irmãos usou a mesma água ainda mais suja pelo banho dos anteriores e branqueou apenas as palmas das mãos e as solas dos pés, permanecendo preto no resto do corpo. Moral da história literária: raça não explica nada.
    O que é mais importante para nós discutirmos: a maquiagem do Literato ou o banho mágico da Literatura?
    Lerdo foi comparado a Rimbaud na juventude? Devia ter adotado o pseudônimo Lerdo Ivre, ao menos a assinatura ficaria melhor na foto. Porque as revelações arroladas por Sant’Anna parecem filme queimado de câmera digital.

  3. Denise Araújo Correia 8 de Agosto de 2011 9:49

    Marcos Silva, concordo em tudo com você. Este é um livro que eu pagaria para não ler.

    Abraços,
    Denise

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