Revistaieb54 e a Resenha da professora Marta Amoroso

Na revistaieb54 de 2012, entre outros belos artigos uma resenha pela antropóloga Marta Amoroso da correspondência entre o paulista Mario de Andrade e o paraibano (sic) Câmara Cascudo. A Revista do Instituto de Estudos Brasileiros editada pela Editora34 é uma bela publicação multidisciplinar. A revista número 54 editada por Fernando Paixão traz artigo do crítico literário Antônio Candido sobre o ambientes da exposições que aportaram em São Paulo nas décadas de 1930, 1940 e 1950.

A professora Walnice Nogueira Galvão escreve a preservação documental. Darlene J. Sadlier (Indiana University) escreve sobre a recepção estadunidense do escritor alagoano Graciliano Ramos, em “Lendo Graciliano nos EUA”. O Cortiço de Aluízio Azevedo é analisado no seu aspecto econômico por Vivaldo Andrade dos Santos. A bela revista editada por um dos mais importantes institutos de pesquisas do Brasil traz ainda matéria sobre a “Revista Leitura”, editada no RJ no início dos anos 1940 e artigos sobre a arte e música na Belle Époque Brasileira. No item resenhas a nossa estupefação sobre a resenha do livro da correspondência entre os escritores Mário de Andrade e Luis da Câmara Cascudo. Para a professora Marta, o polígrafo potiguar Luís da Câmara Cascudo, nascido em Natal – RN, na Rua Senador José Bonifácio, conhecida como Rua das Virgens, no Bairro da Ribeira, é paraibano. … “o pesquisador paraibano” (p. 177) , “pensador paraibano” ( p. 178 ), etc.

Mário de Andrade tinha fome de Brasil e percorreu o nordeste no final da década 1920. No final dessa década, Mário visitou o Rio Grande do Norte e levou o canto e encanto do coqueiro Chico Antônio para o mundo. “Já estou no RN, pertencendo ao meu amigo Luís da Câmara Cascudo, e o prazer vai enfeitando o presepe. Mario fica encantado ao passar por Natal. Me deito depois desse primeiro dia de Natal. Estou que nem posso dormir de felicidade. Me entro na cama e o vento vem, bate em mim cantando feito coqueiro. Pois aqui chamam de “coqueiro” cantador de cocos. Não se trata de vegetal, não, se trata do homem mais cantador desse mundo: nordestino. O vento de Natal é mano dele … Na noite de Natal, em Natal, Mario assiste a um pastoril de meninas e um Diana caçadora sem nenhuma Grécia. – a população se deslocou do Tirol e da Solidão, bairros vizinhos. Os bondes, os autos , as “ dondocas” ( ônibus) vêm cheios. Gente de branco, gente de encarnado, de azul, moças bonitas …

O relato dessa viagem foi publicado em o Turista Aprendiz. Mário de Andrade desejou morar em Natal e encantou-se com as nossas belezas naturais e culturais. O Boi, os catimbós e as músicas de feitiçaria. Um missivista contumaz travou intensa e importante correspondência com Câmara Cascudo, organizada incialmente pelo etnógrafo e escritor potiguar Veríssimo de Melo. Informação que também a professora Marta Amoroso não fornece.

Dez anos depois dessa viagem, Mario de Andrade trabalhava no Departamento Municipal de Cultura de São Paulo. Sob a gestão de Mário foi enviada uma equipe para coletar a música folclórica do Brasil. Essa viagem etnográfica foi pensada desde 1926 e tinha por objetivo colher informações do rico repositório etnográfico que é o nordeste brasileiro. Por questões políticas Mario foi afastado do Departamento de Cultura de SP, mas o projeto foi retomado pela grande pesquisadora Oneyda Alvarenga, que passou 30 anos organizando esse material coletado. Grande parte desse material foi recuperado, e lançado numa caixa de CDs para a posteridade.

Ao se referir ao herói e pícaro Macunaíma escrito por Mário de Andrade, a professora Marta é bastante lacunosa e omite muitas informações. Escreve a resenhista na página 189 da referida revista: na mesma época em que Cascudo escrevia sobre as mudanças do sertão paraibano (sic), “ por outras vias , um herói taurepang, também tratava de construir com humor a brasilidade”.

Ora pois; o mito do Macunaíma faz parte do corpus mitológico dos povos do circum-Roraima e foi transcrito pelo alemão Koch- Grunberg. Foi esse livro que inspirou Mário de Andrade na composição da saga do Macunaíma. Alejo Carpentier também utilizou a etnografia do alemão para compor o belo romance “ Os Passos Perdidos ( 1985). Livro incrustado de brasilidade de norte a sul, do cancioneiro ibérico, de mitos e gírias, folclore, poesia e muito humor. Nossos índios eram pessoas felizes. Macunaíma, o nosso herói sem nenhum caráter, é uma rapsódia rabelaisiana.

O antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) registrou o mito indígena do “makunaíma” no livro “Vom Roroima zum Orinoco”. Para Koch-Grünberg os indígenas riem muito. Na lenda indígena, “makunaíma” é o deus da natureza. Para pescar, os indios Taulipáng y Arekuná utilizam uma raiz que colocada na água paralisam os peixes. “Makunaíma” podia transformar qualquer animal em rocha. A rocha contém a ánima e vida do animal.

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