Ricardo Piglia e o Quixote chinês: notas sobre uma conferência

Por Guilherme Freitas
O GLOBO

1.

A história da tradução chinesa de “Dom Quixote” é uma das preferidas de Ricardo Piglia. Ela aparece num trecho de seus diários publicado este ano, é citada com alguma frequência em entrevistas, e foi um dos pontos altos de sua conferência “Romance e tradução”, realizada ontem no Instituto Moreira Salles como parte das comemorações dos 25 anos da Companhia das Letras.

“Dom Quixote” foi publicado na China em 1922, em tradução do escritor Lin Shu, que não falava uma palavra de espanhol. Ele teve a colaboração de um assistente, Chen Jialin, que todas as tardes o visitava e contava episódios do romance. A partir desses relatos, Lin Shu construiu sua versão do clássico de Cervantes, batizada de “Histórias de um cavaleiro louco” e recebida como um grande acontecimento na vida literária chinesa.

Nos diários, a história do Quixote chinês surge assim, meio de passagem. Piglia não se preocupa em investigá-la mais a fundo (e Chen Jialin, falava espanhol?), nem em tirar maiores conclusões. Na conferência, ela tinha uma relação evidente com o tema em discussão, mas, depois da pausa para os risos do público, Piglia seguiu em frente, sem se deter em explicações. É como se a história tivesse uma moral evidente, ou fosse uma história sem moral, o que no fundo talvez seja a mesma coisa.

2.

Em suas conhecidas “Teses sobre o conto”, Piglia propõe que “um conto sempre conta duas histórias”, uma narrada em primeiro plano e outra construída em segredo. Na conferência, a anedota do Quixote chinês opera de maneira parecida. Enquanto conta o caso pitoresco, que diverte a plateia, Piglia vai urdindo discretamente uma teoria da relação histórica entre romance e tradução.

A figura (quixotesca?) do escritor determinado a traduzir a partir de um idioma que desconhece condensa e ilustra as hipóteses que Piglia ensaiou ao longo da conferência, parte de um livro em progresso. O romance como gênero que melhor resiste à tradução e que, por isso mesmo, torna a tradução possível. O romance como primeiro gênero de fato global, por sua capacidade de circular entre idiomas e culturas. A potência criativa da “má leitura” inerente ao trabalho do tradutor.

Lin Shu é um exemplo “excessivo” desse último ponto, como o próprio Piglia foi o primeiro a admitir, rindo. “Alguém devia traduzir o ‘Quixote’ chinês para o espanhol”, sugeriu.

3.

Ainda nas “Teses sobre o conto”, Piglia destaca Borges como um autor que “sabia transformar em anedota os problemas da forma de narrar”. Piglia fez algo parecido na conferência de ontem, assim como vem fazendo em seus ensaios há décadas. A anedota como poética.

Joyce quis escrever o romance que contém todos os idiomas. Acabou escrevendo um romance intraduzível, “Finnegans Wake”. Desafiado por Italo Svevo, ele mesmo traduziu um capítulo do livro para o italiano, mesclando dialetos de vários períodos e regiões do país.

Beckett trocou o inglês pelo francês para fugir da sombra de Joyce, e depois traduziu a si mesmo de volta ao idioma materno.

Gombrowicz, ilhado na Argentina, arranhando o espanhol e sem poder voltar à Polônia por causa da guerra, traduziu “Ferdydurke” numa confeitaria portenha com a ajuda do cubano Virgilio Piñera, que não falava polonês. Um dia, a edição argentina do romance chegou às mãos de um editor francês (como?), que deu a Gombrowicz uma passagem para Berlim e abriu caminho para seu retorno consagrador à Europa.

Ainda em Buenos Aires, Gombrowicz proferiu, em espanhol vacilante, a conferência “Contra os poetas”, uma denúncia do lirismo. “Meu castelhano é uma criança de poucos anos, que mal aprendeu a falar”, disse o polonês. Piglia chamou o castelhano de Gombrowicz de “o idioma da despossessão”, o idioma dos tradutores.

4.

O protagonista maior das anedotas de Piglia: Borges. Talvez só Roberto Arlt esteja tão presente em sua obra. Em outro lugar, Piglia já defendeu a teoria de que o estilo “sujo” de Arlt é fruto direto da leitura de traduções vagabundas de Dostoiévski. Mas na conferência de ontem, Borges foi o mais evocado.

O Borges escritor apareceu com o incontornável “Pierre Menard, autor do Quixote”. O conto sobre o francês que decide reescrever o livro de Cervantes, repetindo-o palavra por palavra, é uma alegoria da tradução, propôs Piglia: “Um livro que é o mesmo, mas é outro”.

O Borges tradutor foi apontado como exemplo de “má leitura” produtiva. Ao traduzir “Palmeiras selvagens”, Borges lutou contra o estilo hiperbólico de Faulkner, disse Piglia. Salpicou pontos finais no texto para organizar o longo e delirante monólogo inicial do narrador. Obra menor do americano, o romance é considerado na Argentina um de seus melhores, até hoje.

Na última anedota da noite, Piglia lembrou o primeiro encontro com Borges, quando ainda estava na faculdade. Influenciado por Hemingway, atreveu-se a criticar os contos do autor consagrado: “Esse final podia ser cortado”, disse de um deles. Borges achou graça e comentou que o jovem já lia como alguém que pensa em escrever. A história secreta dessa anedota é a mesma que atravessou toda a conferência de Piglia: um escritor também é alguém que ensina a ler.

Comentários

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  1. João da Mata 30 de setembro de 2011 16:18

    CARO AMIGO TÁCITO:

    TENHO O QUIXOTE EM VINTE IDIOMAS.ME FALATA ESSA TRADUÇÃO PARA O CHINES ( MANDARIN ) . TB ME FALTA PARA O JAPONES E OUTRAS LINGAS ASIATÍCAS. ESPERO CONSEGUIR EM BREVE. ME PREPARO PARA COMEMORAR EM NATAL OS DEZ ANOS DO ” QUIXOTE COM ROSAS”.

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