Richard Gere e Susan Sarandon no filme ‘Arbitrage’, que estreia em Sundance

Richard Gere e Susan Sarandon no filme ‘Arbitrage’, que estreia em Sundance

O GLOBO
New York Times

Tecnologia ajuda Sundance a capturar clima atual nos EUA. Seleção deste ano traz filmes mais soturnos, com temas como ganância corporativa, infelicidade e decadência moral

LOS ANGELES — Se o Festival de Sundance é um espelho dos EUA, a edição deste ano reflete uma imagem excepcionalmente dura de um lugar repleto de pessoas destruídas. Documentários examinam o colapso da base industrial do país, seu sistema de saúde falho, uma crise de fome entre os americanos mais pobres, a epidemia de estupros nas forças armadas, o sonho americano transformado em pesadelo e os desastrosos resultados da guerra às drogas. Os filmes de ficção analisam fraudes financeiras e ganância corporativa, jovens adultos infelizes tentando reconstruir suas vidas e o tema mais amplo da decadência moral. “Um país em crise de meia-idade” é como Trevor Groth, diretor de programação de Sundance, resume a temática dominante no festival deste ano, que começa nesta quinta-feira em Park City, Utah.

Filmes independentes sempre tiveram uma tendência soturna. O desejo de contar histórias complicadas que não terminam com todo mundo sorrindo é parte do que deu origem ao movimento indie. Talvez o estranho clima uniforme desta seleção seja apenas um reflexo das dificuldades dos últimos anos, com duas guerras e uma recessão brutal nos EUA como o aspectos mais óbvios do problema. Mas os organizadores do festival, entre eles o fundador Robert Redford, se questionam se outras forças estão em jogo, mais espeficiamente a tecnologia e um ritmo mais intenso de filmagem.

Sim, Sundance sempre refletiu a sociedade contemporânea, mas a visão normalmente é mais nebulosa do que as pessoas (especialmente jornalistas em busca de tendências) gostam de admitir, ou pelo menos mais anacrônica. Historicamente, como os filmes de Sundance têm um período de gestação de três a cinco anos, eram grandes as possibilidades de que o clima cultural do momento examinado já tivesse passado.

Agora isso mudou. Por conta dos avanços na filmagem digital, um número notável de filmes na seleção de 2012 levou menos de um ano e meio para ficarem prontos. Alguns deles, utilizando equipamentos mais modernos e livres da burocracia dos grandes estúdios e complexos planejamentos de calendário, levaram apenas quatro meses para serem feitos.

“Se já houve um momento crucial para um olhar duro e honesto sobre o país, esse momento é agora. Não é segredo que estamos no fundo de um poço muito escuro e a velocidade com que os filmes agora podem ser feitos está ajudando muito os artitas a lidarem com isso”, disse Robert Redford.

John Cooper, diretor de Sundance, também aponta a velocidade das ferramentas de filmagem digital, particularmente equipamentos de edição caseiros, como responsáveis por grandes mudanças no festival.

“Após o 11 de setembro sópudemos ver filmes reagindo ao acontecimento alguns anos depois”, argumenta ele, “Quando a recessão nos atingiu depois disso, você sentiu o impacto mais rapidamente. Da perspectiva da programação, nos sentimos mais conectados com o que as pessoas estão sentindo nesse momento”.

Groth e Cooper dizem que nenhum esforço é feito para moldar o festival em torno de um determinado tema; o que aparecer, apareceu. Os dois também insistem que não há agenda política nesse ano de eleições nos EUA (embora críticos em relação ao esquerdismo do festival certamente discordem). Mas eles consideram muito importante o papel de Sundance como avaliador cultural.

“Parte do motivo pelo qual os filmes independentes são uma forma de arte tão importante envolve a visão especial que eles dão sobre a América”, disse Cooper, “Quem somos nós? As respostas honestas certamente não estão vindo da televisão os dos grandes sucessos de Hollywood”.

Sundance exibirá mais de 100 fimes até o dia 29 de janeiro. O festival dá o tom do cinema independente americano para o resto do ano pois funciona como uma espécie de bazar para as empresas distribuidoras. No ano passado mais de 40 filmes foram comprados e alguns deles ainda estão sendo lançados. Existe, é claro, uma ampla variedade de filmes este ano que aborda temas alegres ou pelo menos não tão sérios.

“2 days in New York”, de Julie Delpy, é a sequência do sucesso “2 days in Paris”, de 2007. “The first time” é uma história engraçadinha de dois adolescentes apaixonados – e já foi comprada por John Sloss, o agente de Nova York que vendeu “Pequena Miss Sunshine” para a Fox Searchlight em 2006 por US$ 10,5 milhões, até hoje o recorde do festival. Agentes gostam de temas alegres, normalmente mais palatáveis para audiências maiores. Mas eles estão otimistas em relação a alguns dos filmes mais pesados deste ano, pois eles são mais próximos da realidade.

“Os espectadores conseguem se identicar com esses problemas”, avalia Jay Cohen, da agência Gersh, “Todos no mundo estão tentando entender quem são no momento atual”.

Pela programação oficial de Sundance, que inclui um sumário dos filmes, pelo menos seis deles caem perfeitamente na categoria “A América faliu”. O mais incensado é “The Queen of Versailes”, um documentário dirigido por Lauren Greenfield que examina a tentantiva de uma empreiteira da Flórida construir uma casa de 8,5 mil metros quadrados (o filme já deu origem a um processo por difamação). “The house I live in”, dirigido por Eugene Jareckim, que venceu o prêmio do Grande Júri de Sundance em 2005 com “Why we fight”, fala sobre a perdida guerra contra as drogas.

“Vejo muitos filmes na seleção deste ano que não foram feitos para agradar o público, mas sim dizer algo sobre o momento atual”, disse Tom Bernard, co-presidente da Sony Pictures Classics.

Quatro filmes falam sobre ganância corporativa, entre eles “Arbitrage”, um thriller dirigido por Nicholas Jarecki (irmão de Eugene) com Richard Gere no papel de um bilionário gerente de fundos de investimento que vê seu império desmoronar por causa de fraudes. Pelo menos 14 produções tocam no tema da decadência moral, como “The comedy”, de Rick Alverson, um conto sobre hispters que agem como crianças mimadas.

Muitos filmes, cerca de 25, falam sobre pessoas nos seus trinta e poucos anos cujas vidas se despedaçam por algum motivo – divórcio, drogas, depressão – e precisam retomar o prumo. Nem todos são tão depressivos quanto poderiam ser, com o autor atacando o tema com humor. “Smashed,” dirigido por James Ponsoldt, traz Mary Elizabeth Winstead, Aaron Paul e Octavia Spencer numa história sobre o que acontece no casamento de dois alcoólatras quando um tenta ficar sóbrio. O filme foi produzido pela Super Crispy Entertainment, de Zygmunt Wilf e ficou pronto em quatro meses.

“Esse tipo de cronograma é inacreditável”, disse ele, “Mas nós fomos capazes de fazê-lo porque o software de edição nos permite trabalhar em casa e todo o dia.”

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