Rimbaud e as perguntas que não querem calar

A ambiguidade da obra de um artista aliada a uma vida aventureira são garantias de perenidade literária? Na opinião do crítico americano Edmund White, a resposta é afirmativa, caso se trate da obra e da vida do poeta Arthur Rimbaud. Em outras palavras, teríamos a seguinte equação: Visto pelo lado da obra, tem-se em Rimbaud um caso único de construção de uma obra poética precoce e circunscrito a quatro ou cinco anos.  Quanto à sua biografia, rica em aventura e mistério, seria o anverso dessa moeda que pôs em circulação em todo o mundo o mito Rimbaud, e que não cessa de se valorizar no mercado das letras.

Evidentemente, pode-se acrescentar ao dístico rimbaudiano um terceiro protagonista que, por si, já vale uma “biografia inglesa”. Trata-se do poeta Paul Verlaine, simbolista que escreveu alguns dos poemas mais musicais e líricos da poesia francesa.

Mas é isso que acontece com cada nova biografia de Rimbaud: realiza-se acentuando, não esclarecendo, o mistério que cerca a vida do poeta adolescente, e do não poeta da maturidade. Em outras palavras, o que explica (se algo o faz) a transição da poesia para o tráfico de armas, a troca da vida cosmopolita de uma Paris buliçosa e vibrante por uma vida trânsfuga, de autoexilado, de fora-da-lei?

Mudança tão radical na biografia dos poetas é talvez o aspecto mais assombroso da vida de Arthur Rimbaud. É verdade que sempre houve poetas rebeldes, arredios aos encantos da vida burguesa, avessos aos apelos da sociedade, e que, num rompante, se lançaram mundo afora, como peregrinos de uma causa não verbalizada, em busca de um deus desconhecido, de uma graça indisponível na terra.

Esses exemplos de rebeldia parecem inofensivos, quando comparados ao gesto irreversível feita por Rimbaud, sabe-se lá por quê. E é por não sabermos esse único porquê, que continuamos a nos interrogar sobre ele.

Recentemente, uma fotografia de um suposto Rimbaud adulto foi encontrada por acaso num mercado de pulgas de Paris. Especialistas consultados a respeito, garantem que se trata de uma foto de Rimbaud, tirada em 1880 num hotel de Aden, no Iêmen, quando o poeta tinha 26 anos.

Ao redor do poeta veem-se pessoas, possivelmente europeus, – cinco homens e uma mulher, esta, à direita do poeta, todos colocados sobre um estrado. Ao fundo abre-se o vão de uma porta como de um armazém. Apenas Rimbaud e um cidadão desconhecido, com porte militar, estão de pé encarando a câmera. A indiferença dos demais não é menos surpreendente!

Nada resta da vida que animou essa cena de enquadramento correto. Teriam tido um dia bom? Seriam meros vizinhos do poeta, com os quais ele proseava nas horas livres, quando não dispunha de armas para contrabandear ou haxixe para amenizar as agruras da vida selvagem? Quem sabe, lembrava de episódios pitorescos da vida parisiense nessas conversas? Ou das desavenças que teve com o amigo Verlaine, logo após o rompimento do seu affaire com o autor de Sagesse? Ou seria de desprezo sua última impressão sobre o mundo dito civilizado?

Uma simples foto, poupada ao tempo e atravessando 130 anos, nos chega como um fato isolado, indevassável em sua singularidade e, ao pouco que nos fornece de informações, nos cobra intermináveis indagações que apenas reforçam os aspectos míticos da biografia do poeta. Nada parece ameaçar seu domínio sobre nossa imaginação, refém de sua história sem paralelo, cuja única porta concreta é seu barco ébrio sempre a caminho de uma estação no inferno.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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