Rimbaud nas fronteiras da crítica e da história

As formas de traduzir o poema “Le Bateau ivre”, de Arthur Rimbaud, parecem tão infinitas quanto suas interpretações. A “imaginação tradutória”, que às vezes insiste em contentar-se com o óbvio, outras vezes pode escorraçá-lo porta afora para convocar o seu sucedâneo mais inesperado. Como quando alguém resolve traduzir “Une saison à l’enfer”, do mesmo poeta, por “Uma cerveja no inferno”, eludindo o óbvio que seria “uma estação no inferno”ou algo mais ou menos análogo.

A insistência com obras de Rimbaud aqui não é, entretanto, fruto do acaso. É que o rebelde (o mais rebelde dos poetas, arriscaríamos) está outra vez na ordem do dia entre nós, graças à publicação de “Rimbaud etc: história e poesia”, de Marcos Silva (Hucitec, 2011), na qual Rimbaud ocupa a maior parte das páginas desse que é o mais “gaulês” dos títulos publicados pelo prof essor da USP.

A exegese empreendida por Marcos Silva, diferentemente daquela que se prende aos limites do arcabouço crítico, envereda pela história – matéria de sua especialidade – e estabelece com essa ciência conexões essenciais à interpre-tação do caso Rimbaud. Por isso, sua poesia ressurge nessa leitura nova sob vestes revolucionárias, engajadas até, seja em poemas antológicos como “Le dormeur du Val” e “Les Effarés”. Sobre o primeiro, Marcos Silva dirá: “Rimbaud, em ‘O Barco bêbado’ expressa seu ódio à burguesia, sem sequer mencionar, de forma explícita, esse grupo”. Quanto ao outro poema, Silva o compara a um “anti-Sermão da Montanha: enquanto esperam para serem exaltados, os humilhados são, cada vez mais, humilhados”.

Assim, história e crítica literária se unem irmãmente nesse “Rimbaud etc” para empreender um duplo desafio: traduzir a poesia de Rimbaud e interpretá-la sob a luz não só do arsenal crítico, m as também histórico, o que abre sem dúvida novas possibilidades de compreensão desse poeta que continua tão pouco compreendido em nossos tempos devido, certamente, a sua “radical modernidade” (Silva).

Além de Rimbaud, outros textos que guardam alguma proximidade com o poeta das “Voyelles” e de “Ma Bohème” complementam esse novo livro de Marcos Silva, escrito sob a moldura de temas franceses clássicos, e cuja contribuição mais original é certamente o estudo sob o secundário poeta Albert Mérat cujo livro , “L’Idole” foi parodiado no “Sonnet du trou du cul”, assinado por Rimbaud/Verlaine.

Não é de somenos importância o texto “Esmeraldo no mosteiro de Verlaine”, em que é reavalia a dimensão intelectual desse combativo intelectual potiguar cujo culto à língua e à cultura se resume, mas não se esgota, em seu “Letras de França”, autor que foi também de ensaio biográfico sobre Renan e Taine, entre outros.

Não obstante o esforço crítico de exegese e atualização bibliográfica empreendido pelo professor Marcos Silva, seu livro se ressente da falta de diálogo com conterrâneos do autor, notadamente com o poeta Luís Carlos Guimarães das “113 traições bem-intencionadas” (Edufrn, 2 ed., 2007), no qual traduziu um conjunto de poemas de Rimbaud, dentre eles, “Le Dormeur du Val”, também vertido por Silva nesse seu novo livro. Não hesitaríamos em situar o livro de Lula Guimarães como pioneiro da arte tradutória con-temporânea entre nós.

Causa espécie ainda que nossa “Antologia Poética de Tradutores Norte-rio-grandenses” (Edufrn, 2008), na qual consta uma tradução do próprio Marcos Silva do “Sonnet du trou du cul”, de Rimbaud/Verlaine, reproduzida nesse “Rimbaud etc”, não seja uma única vez citada por Silva a título de fonte bibliográfica. Seria o caso de imaginar que esse autor arrola suas fontes segundo um critério qualitativo próprio, on de cabem de-terminadas fontes, enquanto outras, digamos as “provincianas”, são relegadas? Preferimos acreditar tratar-se de um desses casos de lapso, no que tange às duas lacunas citadas, inda mais em se tratando de uma bibliografia que se renova a passos largos, como a de Rimbaud…

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Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 9 de outubro de 2011 20:32

    Jarbas:

    Concordo com vc sobre a tradução como parceria e diálogo. Por esse motivo, tomo a liberdade de citar um pequeno trecho da apresentação de meu livro “Rimbaud etc.”: “Traduzir e comentar Rimbaud, para mim, sempre significou ler com respeito edições francesas, traduções brasileiras e comentários existentes, tentando dialogar com esses maiores . Penso que nenhum tradutor ou comentarista pode pretender alguma apropriação ortodoxa ou monopolista de seu objeto de trabalho, como se as demais interpretações inexistissem. O diálogo entre os interessados por um escritor sempre representará possibilidades de crescimento em sua compreensão, inclusive através de grandes e respeitosas divergências. Espero contribuir como historiador (mesmo que modestamente e sempre incentivando o leitor a consultar outros tradutores e comentaristas) para a discussão sobre Rimbaud etc. entre nós”. (p 12).

  2. Jarbas Martins 9 de outubro de 2011 20:17

    Tradução é coisa tão séria, amigo Nelson, que acho que é a única arte que não dispensa parceria.O ideal seria traduzir poesia com a cumplicidade do autor, coisa obviamente quase impossível na maioria das vezes.Li o seu artigo em que você, grande tradutor, conversa com Marcos Silva, mestre também nesta arte, sobre questões relativas ao assunto.De forma franca e elegante você faz ver a Marcos que a tradução exige também outra forma de parceria: essa comunhão, esse diálogo com o próximo, amigos, colegas, conterrâneos, aqueles que fazem parte do nosso ambiente cultural. Lembro-me que uma vez li (não me lembro mais onde) uma afirmação do nosso Cascudo, onde ele dizia que sentia a necessidade de mostrar e discutir, com seus amigos mais chegados, daqui da província, algumas de suas traduções poéticas.Belo exemplo de cumplicidade e parceria do nosso mestre, não?

  3. Marcos Silva 9 de outubro de 2011 20:16

    Nelson:

    Agradeço muito pelos comentários sobre meu livro, eles demonstram sua sabida erudição e também uma leitura muito atenta, sempre rara.
    Gosto das traduções (e de toda a poesia) de Luís Carlos Guimarães e não as citei por lapso, a ser corrigido se o livro for reeditado. Não citei a edição de minha tradução na “Antologia poética de tradutores norte-riograndenses” para evitar excesso de auto-referência mas a mesma tradução está no livro “Rimbaud etc.”. E já comprei mais de um lote de exemplares daquela antologia para distribuir para amigos de diferentes estados brasileiros.
    Se eu relegasse o que vc designa como fontes “provincianas”, não teria abordado com carinho, no mesmo livro, Esmeraldo Siqueira, a partir de um generoso convite seu. Lembro que, no tópico “Agradecimentos” (p 183 de meu livro), incluí os seguintes nomes potiguares: Claudio Galvão, Enelio Petrovitch, Gileude Peixoto, Juliano Siqueira, Lúcia Beltrão, Manoel Onofre Jr., NELSON PATRIOTA, Paulo França e Paulo de Tarso Correia de Melo. Fiz questão de fazer o primeiro lançamento do livro em Natal (Aliança Francesa) e abri o espetáculo então apresentado com a dramatização do texto inicial de Mário de Andrade de “A escrava que não é Isaura” e a declamação do poema “A Rimbaud, o Amálgama”, de Sanderson Negreiros, dramatização e declamação a cargo do ator Eli Clemente – algumas dezenas de pessoas assistiram a isso, o ato foi noticiado neste SP.
    Feito esse esclarecimento, expresso novamente minha profunda gratidão pela preciosa leitura que vc fez do livro.

  4. João da Mata 9 de outubro de 2011 18:50

    Caro Nelson,

    Tb acho que enriqueceria o texto a menção dos tradutores / traidores potiguares. Rimbaud teve uma relação conflituosa com Verlaine,. de quem eu traduzi dois poemas postados aqui no nosso sp.

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