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Rita Lee em Natal: amor e rebeldia no imaginário potiguar

Roqueira fez shows, amigos e até um filho, na Cidade do Sol.

A gata roqueira de olhos azuis e língua ferina completou 70 anos e eis que a Cidade do Sol se deleitou em homenagens. Desde a exposição fotográfica “Rita RN Lee”, até o prêmio Hangar de Música, ela, mais do que nunca, está no imaginário potiguar.

Sua relação com a cidade se estende por várias décadas e inclui visitas a trabalho e viagens de lazer. Minha memória de Rita em Natal me remete aos anos 1980.

À época, no auge da carreira, ela viajava o Brasil com a superprodução “O Circo”, turnê baseada em sucessos, incluindo os então recém-lançados “Flagra” e “Cor de Rosa-Choque”. O show aterrissou no antigo Castelão.

Eu, criança, sabia quase todas as suas músicas de cor. Quando cheguei ao estádio com minha família, fiquei desapontado ao não poder vê-la de perto. O palco gigante se encontrava no meio do gramado, com acesso negado.

Só restava nos deleitar com o som que chegava às arquibancadas. Rita também sentiu falta do contato próximo do público. “Vocês estão tão longe…” – constatou logo no início do show.

O espetáculo continuou a todo vapor e ela, cheia de energia e no ápice da sua vitalidade, contagiou a todos. Atenta a política local, mencionou Vilma Maia, por sua evidência nos círculos de poder norte-rio-grandenses, antes de cantar “Cor de Rosa Choque”.

Foi o único show de Rita por estas bandas, no restante daquela década. Nos anos 1980, Rita parece ter passeado com assiduidade por praias potiguares.

003 ARQUIVO 1974 - METROPOLE OE - PAULISTANIA - Rita Lee. FOTO ARQUIVO AE

Foto: Arquivo AE

Um caso de amor por telepatia

Era conhecido na cidade que Rita era amiga do artista Chico Miséria e que estava com frequência numa praia ao sul de Natal, onde sofreu um acidente de carro.

Certa vez, ao encontrar com Roberto de Carvalho, seu marido, ele me falou da paixão do casal por esta cidade e confidenciou que um de seus filhos havia sido gerado em Natal.

Os anos 1990 trouxeram uma Rita mais presente na cena local. Durante esse período se apresentou três vezes. Em 1991, revisitou a carreira no formato voz e violão, com o show “Bossa’n Roll”, precursor do movimento de shows acústicos que se iniciaria no Brasil alguns anos depois.

Rita cantava sucessos e versões dos Beatles, dos Rolling Stones, e até de Adoniran Barbosa. O show foi no Centro de Convenções.

Ouviu-se um coro de vozes do início ao fim, e Rita estava confortável com o público: entre uma música e outra falou de novelas, da história de alguns sucessos e imitou cantoras famosas, tais como Elba Ramalho e Fafá de Belém.

A recepção foi tão boa que ela voltou, desta vez ao Papódromo, com este mesmo show, porém repaginado, adicionado de outros músicos e com mudanças no repertório.

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“[…] um amigo jornalista me deu a honra de entrevistá-la como um ghost-writer para um jornal local”.

Aqui, ali, em qualquer lugar

Em 1997, junto com Os Titãs fez show na Via Costeira. Fato curioso é que durante a apresentação ela mencionou ter feito um novo amigo local, o adolescente que mais tarde se tornaria o cantor Rodolfo Amaral.

Também foi durante a década de 1990 que um amigo jornalista me deu a honra de entrevistá-la como um ghost writer para um jornal local.

A turnê do projeto dos Beatles “Aqui, ali, em qualquer lugar”, a turnê do “Balacobaco” e duas apresentações no “Natal em Natal” foram os últimos vestígios deixados pela gata nos telhados potiguares.

O primeiro “Natal em Natal” em 2007 contou com uma Rita empolgada e engajada com a cidade. Afirmou que paulistanos haviam deixado a natureza de São Paulo ser destruída pelo concreto e pediu fortemente que a população local não permitisse construções perto do Morro do Careca, cartão postal da cidade.

Com humor, confessou estar desenvolvendo a mediunidade e enquanto cantava uma música de Raul Seixas, fingindo incorporar o maluco-beleza, mandou o então presidente Lula se fuder.

Foi última vez que tive o prazer de falar com a mesma.

Mutante, tutti frutti e o deboche inteligente

Porém, sua presença continuou ocupando um lugar na minha vida nos campos da música e da Psicologia. Em 2010 finalizei e defendi minha dissertação de Doutorado no California Institute of Integral Studies, em San Francisco, explorando benefícios terapêuticos de suas canções.

As temporadas artísticas de Rita em Natal sempre ofereceram o melhor de sua presença: o deboche inteligente, a harmonia de suas canções e a quebra das tradições sociais.

Rita sempre incorporou o “fora da caixa” com sua androginia, sua resistência em se adequar ao comportamento esperado de uma mulher na sua idade.

Consistentemente suas visitas ofereceram frescor e inspiração às ovelhas negras potiguares. De Mutante à Tutti-Frutti e mais tarde em parceria com Roberto de Carvalho, Rita, de uma maneira aparentemente fragmentada, mas certamente caleidoscópica, sintonizou e colecionou influências mundiais das décadas vividas e as incorporou em sua obra e comportamento construindo um pop/rock brasileiro forte, feminino.

Pela relevância de sua obra para a música pop/rock brasileira e pela relação marcante com a capital potiguar, não surpreende que as homenagens sejam tantas.

Pelo visto, elas continuarão a crescer como o rebelde Cajueiro de Pirangi, se expandido por ruas e terrenos potiguares.

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Joseh Garcia

Comentários

2 comments

  1. Diulinda Garcia 23 janeiro, 2018 at 12:51

    Parabéns Joseh Garcia pela capacidade de construir um texto com uma narrativa costurada com fatos e recursos que nos fazem transitar em década s distintas,rememorando cada momento com um gostinho de saudade.

  2. Ademar Amancio 11 maio, 2018 at 12:12

    Não sabia dessa relação,como se vê a Rita Lee não é só a mais perfeita tradução de São Paulo,há outras afinidades geográficas no espírito camaleão da artista.

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